
Todo mundo tem histórias para contar. Muitos guardam elas na memória, outros compartilham em boas conversas, mas tem aqueles que fazem de suas vivências arte literária: os escritores. E quando os autores são jovens? A reportagem fica ainda mais interessante.
O Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (Flifs) tornou-se ponto de encontro, lançamento de livros e valorização do conhecimento. A reportagem do Acorda Cidade foi até o evento, realizado no Centro de Convenções, para conferir de perto histórias de jovens escritores que inspiram e vão além dos padrões.
Khiara Perdiz

Ela tem apenas 15 anos, é feirense e já tem dois livros publicados. Khiara Perdiz começou a escrever há três anos, após indicação de sua terapeuta. Diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1, a adolescente fez de crises pessoais, sentimentos, momentos do cotidiano, experiências com o autismo e momentos de superação inspiração para criar a obra “O diário de uma sonhadora”, lançada pela editora Nocego.
A jovem escritora e artista visual aproveita todos os espaços para divulgar seus trabalhos. Ao Acorda Cidade, ela contou gostar de livros físicos, formato de publicação que compete com o mercado digital, após os avanços tecnológicos e crescimento constante do consumo de redes sociais.
“Apesar de ter esse negócio de livro digital, e-book, eu prefiro o livro físico, que acho legal de folhear, de marcar. Na minha visão, eu acho incrível”.

“A Sonhadora e Suas Verdades”, esse é o segundo título publicado por Khiara Perdiz. Acha que acabou? Não. A jovem já trabalha na criação do terceiro livro.
Luma Luz

Antes mesmo de saber ler e escrever, Luma Luz, de 16 anos, já recebia incentivo dos pais. Por meio de diários de anotações, a artista, moradora do bairro Papagaio, foi alfabetizada em casa e começou a gostar da literatura.
“Na verdade, eu sempre sonhei em ser atriz. Mas eu também sempre fui apaixonada pela literatura. E aí, na faixa dos meus 11, indo para os 12 anos, foi que comecei a escrever poesia, porque eu tenho incentivo dentro de casa do meu pai e da minha mãe, que também escrevem. Então aflorou ainda mais essa paixão. Sempre tive o sonho de ter um livro.”, disse.
Em entrevista ao Acorda Cidade, ela relembrou momentos da infância, em que conversava consigo mesma por meio da escrita. Hoje, Luma possui um livro de sua autoria intitulado “Minha Voz”, lançado no sábado (29) no Flifs, espaço de importância na sua carreira.

“O Flifs foi o maior abridor de portas que tive. Aos meus 13 anos de idade, eu fiz a minha primeira apresentação aqui, que foi quando abriu várias portas para mim. O Flifs, para mim, é a realização de um sonho, uma porta que se abriu e eu aproveitei, eu agarrei. E até hoje sigo aqui”, enfatizou Luma Luz ao Acorda Cidade.
Na obra, a jovem escritora agrupa poemas sobre sua vida, além de histórias de outras pessoas da sua convivência. “Minha Voz” aborda ainda a educação antirracista e letramento racial.
“Aborda questões sociais e raciais. Porque eu sou uma jovem negra, artista, e eu não poderia deixar de contar minha realidade também”.
Antes de ter uma publicação própria, a jovem participou de algumas antologias (coleções de textos), como a Antologia de Mulheres Negras, que reúne escritoras de todo o mundo.
Além de tudo, ela tornou-se uma incentivadora da leitura, atitude que utiliza para combater a dependência digital.
“Porque o celular ele vicia. Nós somos os fantoches da tecnologia. Tudo é no celular, tudo é na internet, e a gente esquece a preciosidade que nós temos através de um livro físico. Todo o conhecimento que nós podemos adquirir através deles”, concluiu.
Jamil Cálita

Jamil Cálita tem 23 anos e sua história com a literatura começou em um momento conturbado da pré-adolescência. Foi assim, que o feirense criou a prática de escrever para conseguir entender seus sentimentos.
Fascinado por filosofia e estudante do curso de direito, Jamil tem nos conteúdos audiovisuais, cinema, músicas e outras obras suas maiores inspirações. Autor do livro “Das coisas que eternizei em poesia”, ele já possui outro título pronto e, atualmente, trabalha construindo um romance.
Jamil Cálita não enxerga ascensão da Inteligência Artificial como uma ameaça para obras criadas e pensadas por seres humanos.
“Eu vejo que a gente vai caminhar pra um momento onde tudo que é orgânico vai acabar sendo mais valorizado, porque as IAs estão quebrando um pouco essa questão de da naturalidade das coisas”, declarou.
Segundo o jovem escritor, a Inteligência Artificial acaba usando uma base de dados igual para todos, o que provoca produção de conteúdos parecidos.
“Logo, quem é orgânico por si só, por ser algo natural, vai ser algo completamente diferente, então vai se destacar”, completou.
Jamil Cálita publicou o primeiro livro pela Orama Editora, publicadora de obras que valoriza com frequência a literatura realizada por jovens.
“Nós como somos mais novos, não conseguimos ter tanto tato assim de saber onde está errado, onde está certo, porque a gente tem muito esse dialeto com gírias e tudo mais. Ter alguém que já passou por esse caminho, alguém que já está no mercado há mais tempo lhe ajuda bastante para conseguir alcançar o seu objetivo”, concluiu.
Plantando sementes📚
Dados do Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro, com realização da Nielsen BookData, apontam que, em 2025, o país ganhou cerca de 3 milhões de novos consumidores de livros. Como divulgou a pesquisa, 56% dos consumidores preferiram adquirir produto físico, 28%, impresso e digital, e 16%, apenas digital. Os maiores avanços de consumo foram entre os jovens, nas faixas de 18 a 34 anos, em relação a 2024.
Dagmar Santana, proprietária da Orama Editora, relatou para o Acorda Cidade como é valorizar e fortalecer os novos talentos das artes literárias.

“Formação de leitores, mostrar que essa juventude tem muito o que oferecer e fazer com que eles se apresentem, mostrem um pouco da sua identidade, da sua memória, da sua ancestralidade, e não abram mão, independente do gênero, eles não abram mão de quem são”, disse.
Para Dagmar, conviver com as redes sociais e o mundo digital é inevitável, mas sempre é necessário ver e explorar o universo para além das telas. “Mas que também não abram mão de contemplar novos autores, o livro físico, novas leituras. Deixar a imaginação voar”.
Com obras publicadas em antologias e coletâneas, a escritora e ativista antirracista Caroline Vilarinho não vê a hora de lançar o seu livro solo planejado para o próximo ano.

“Eu me costumo falar que a literatura sempre fez parte de mim. E agora, juntamente com a Orama, eu vou lançar o meu livro com todos os meus textos durante essa minha longa trajetória de 11 anos”, disse Caroline, que escreve desde os 7 anos.
Com informações do jornalista Kaio Vinícius, do Acorda Cidade.
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