
A participação dos jovens na política brasileira é influenciada por uma combinação de fatores demográficos, sociais e relacionados à representatividade. Embora as novas gerações estejam entre as mais presentes nas redes sociais e em espaços de debate digital, isso não significa, necessariamente, uma maior adesão ao processo eleitoral.
Para a cientista política Maria Gabriela Mazzarella, docente da Estácio, uma das razões para a redução da participação eleitoral entre os mais jovens está relacionada à própria composição demográfica da população. “Primeiramente, a questão demográfica, uma diminuição no número de jovens mesmo na população”, explica.
Outro ponto destacado pela especialista é a percepção de representatividade. Segundo ela, a idade média dos candidatos nas últimas eleições ficou em torno de 49 anos, o que pode contribuir para o distanciamento de eleitores mais jovens. “Como é que os jovens, de certa forma, vão conseguir se sentir representados por pessoas que talvez tenham visão de um mundo diferente, perspectivas diferentes?”, questiona.
A participação facultativa de adolescentes de 16 e 17 anos também merece atenção. Apesar de estarem entre os grupos com maior presença nas redes sociais, esses eleitores nem sempre demonstram interesse em participar das eleições. Para Maria Gabriela, a aproximação promovida por partidos políticos e outras instituições pode influenciar esse comportamento, especialmente quando há ações voltadas à conscientização e ao incentivo à participação.
A especialista ressalta, no entanto, que uma redução no número de jovens aptos que comparecem às urnas não significa necessariamente que essa parcela da população esteja completamente afastada da política. Quando participam, os jovens podem representar uma parcela expressiva do eleitorado. “O número pode ter diminuído agora, na questão deles aderirem ao voto. Mas, quando essa população vai às urnas, é um número significativo”, afirma.
Nesse cenário, a relação dos jovens com a política também começa antes do período eleitoral. A família, a escola e a comunidade podem desempenhar um papel importante na formação do interesse pela vida pública. Segundo Maria Gabriela, esses ambientes contribuem para que o jovem compreenda seu papel como agente político e participante da chamada esfera pública, espaço de debate e construção de ideias sobre questões que afetam a sociedade.
“A família tem essa contribuição em fazer engajar o jovem ou até mesmo afastá-lo da política”, explica. Para ela, a comunidade também exerce influência nesse processo, ao criar oportunidades para que os jovens participem de discussões e desenvolvam uma percepção de pertencimento em relação à vida pública.
A cientista política avalia ainda que existe uma tendência de esvaziamento da esfera pública, o que pode dificultar a aproximação das novas gerações com o debate político. Nesse contexto, a polarização também pode interferir na forma como os jovens percebem a política, especialmente quando o ambiente de discussão deixa de ser visto como um espaço de diálogo e passa a ser associado a conflitos.
Mais do que simplesmente medir a presença dos jovens nas urnas, portanto, compreender sua relação com a política exige observar como essa parcela da população se informa, debate e se sente representada. Para Maria Gabriela, o desafio está em criar condições para que os jovens reconheçam a participação política como parte da vida em sociedade, independentemente de posições partidárias ou ideológicas.
A aproximação desse público passa, assim, por diferentes espaços, das redes sociais à família, da escola à comunidade e das instituições políticas ao próprio processo eleitoral. “A participação dos jovens pode revelar muita coisa”, conclui a especialista.
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