3 de September de 2026
Criatividade em tempos de IA é tema central da 14ª Flica, em Cachoeira
Foto: Divulgação

Em um cenário em que a Inteligência Artificial já escreve, gera imagens, antecipa ideias por algoritmos e produz conteúdos em apenas um clique, a originalidade humana ganha novos contornos. É em torno do tema “Como ser criativo com tanta IA por aí?” que acontece a 14ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), de 5 a 8 de novembro, colocando em debate os impactos da tecnologia na literatura, na arte, nos processos criativos e na forma de criar e consumir histórias. O lançamento oficial da festa aconteceu na última quarta-feira (2), na Fundação Pedro Calmon, em Salvador.

Referência entre os grandes eventos literários do país e a maior festa do gênero no Norte-Nordeste, a Flica se prepara para transformar Cachoeira em um grande mapa de encontros, onde cada espaço revela diferentes experiências de conexão com a literatura. Em mais uma esperada edição, a festa literária reunirá importantes nomes da literatura baiana, nacional e internacional em sessões de debates, lançamentos de livros, autógrafos, saraus, contações de histórias, apresentações artísticas e teatrais, shows, manifestações culturais e exposições.

Uma das novidades da Flica 2026 é o Edital “Vozes da Bahia”, uma parceria com a Fundação Pedro Calmon, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), que tem o objetivo de selecionar editoras, escritores(as), ilustradores(as), quadrinistas, cordelistas, organizadores(as) de obras e roteiristas para integrar a programação da Casa dos Autores e das Autoras Baianas. Com curadoria de Dinalva Melo, a seleção reserva vagas para pessoas negras, indígenas e com deficiência. As inscrições serão anunciadas em breve no Instagram da Flica.

Criatividade em tempos de IA é tema central da 14ª Flica, em Cachoeira
Foto: Divulgação

“Ao receber o edital, a Casa busca valorizar autores e autoras baianos, bem como editoras que enfrentam dificuldades de toda ordem para socializar sua produção literária. Os escritores e editoras receberão o apoio essencial para divulgar seu trabalho, conversar e interagir com o público. A iniciativa possibilita a abertura de novas portas e a chegada a novos leitores, fazendo circular diferentes visões e perspectivas do universo literário baiano. Quem comparecer, sairá de lá com o sentimento de que nossa literatura é rica e diversa” declara Dinalva Melo, curadora da Casa dos Autores e das Autoras Baianas.

Onde a criatividade floresce

Para fazer a Flica acontecer, Cachoeira recebe diversas atividades que fortalecem a cadeia produtiva do livro e estimulam a formação de cidadãos mais críticos e engajados. Entre os espaços que dão forma à festa estão a Tenda Paraguaçu, a Geração Flica e a Fliquinha, junto ao Espaço Bahia Presente, Casa dos Autores e das Autoras Baianas, Espaço Flica MULTI, Centro Cultural Dannemann (São Félix), Palco Ritmos e Palco Raízes.

A curadoria da 14ª Flicaé assinada por Marielson Carvalho (Tenda Paraguaçu), Emília Nuñez (Fliquinha), Duca Clara (Área Verde da Fliquinha), Deco Lipe (Geração Flica) e Linnoy Nonato (Palcos Ritmos e Raízes) e tem como Embaixadora a jornalista Vanessa Dantas, entusiasta da educação, arte e cultura da Bahia. A festa literária possui entrada gratuita e dispõe de recursos de acessibilidade, incluindo tradução em Libras na Tenda Paraguaçu, na Fliquinha, na Geração Flica, no Espaço Bahia Presente e no Palco Ritmos.

Tenda Paraguaçu

Instalada às margens do Rio Paraguaçu, a Tenda Paraguaçu será palco de conversas que convidam o público a olhar para a literatura de acordo com as transformações do presente. Voltado a debates mais maduros e provocadores, o espaço terá a Inteligência Artificial como ponto de partida para avaliar os limites e as possibilidades da criação em um cenário no qual máquinas também escrevem, produzem imagens e interferem no processo criativo. Originalidade, autenticidade, ética, direitos autorais, racismo algorítmico e fake news estarão entre as temáticas trabalhadas, analisando a relação entre literatura, arte e cultura digital.

A Tenda se desdobra em encontros com convidados de diferentes trajetórias e áreas de atuação, escolhidos para ampliar as perspectivas sobre criação e recepção literária e artística. Entre os destaques, estão Larissa Luz, cantora, compositora, atriz e comunicadora baiana, que também utiliza as redes para promover letramento racial e de gênero; e Sérgio Rodrigues, escritor e jornalista, autor de 13 livros, a exemplo de “Escrever é humano – Como dar vida à sua escrita em tempo de robôs”, lançado em 2025, que aborda os desafios da escrita diante das novas ferramentas de Inteligência Artificial.

“Como nossa vida tem a mediação tecnológica da IA como referência de produção e interação social, vimos que seria interessante abordar esse tema para entendermos sua influência na escrita criativa, no mercado editorial, nas práticas de leitura, na recepção crítica e na pesquisa de literatura. A Flica inova e investe nessa discussão com mesas específicas, como racismo algorítmico e IA generativa na criação literária”, comenta Marielson Carvalho, curador da Tenda Paraguaçu.

Ele acrescenta que também haverá outras discussões e formatos, que passam pelas tradições culinárias do Recôncavo e por um sarau com poetas LGBTQIAPN+, unindo performance, identidade e ativismo. “Como estaremos no Mês da Consciência Negra, haverá ainda debates sobre afrofuturismo, literatura negra e feminismo negro, com a contribuição de autores e autoras negros”, completa.

Fliquinha

Dedicada às crianças como protagonistas, a Fliquinha 2026 celebra a essência original da infância, marcada pela curiosidade, imaginação e criatividade. Sob o conceito “Original como a infâncIA!”, o espaço, localizado na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), propõe uma programação viva, sensorial e participativa, que valoriza o brincar, a memória afetiva, a escuta sensível, a ancestralidade e o encontro real entre pessoas, dado um contexto cada vez mais mediado por telas.

Nesta edição, a Fliquinha aposta na arte como lugar de presença e criação genuína, com oficinas de desenho ao vivo, contações de histórias, referências da cultura cachoeirana como a capoeira, música, performances e culminâncias escolares, reforçando a importância da experimentação, da descoberta e da liberdade criativa durante a fase infantil.

Integrada à Fliquinha, a Área Verde da Fliquinha funciona como extensão da programação e espaço de acolhimento para as escolas participantes da Flica. Segundo a curadora Duca Clara, o ambiente recebe as turmas antes e depois das atrações, oferecendo um local seguro para as crianças circularem, lancharem e participarem de atividades como cinema, pintura, teatro de fantoches, produção textual, lançamento de livros, escultura com balões e a Pedaloteca, biblioteca interativa instalada em uma bicicleta. O espaço também terá atendimento de duas psicopedagogas para acolher e orientar famílias de crianças atípicas, reforçando a proposta de uma Fliquinha mais inclusiva e acolhedora.

Entre as atrações convidadas para encantar, instigar e inspirar os visitantes da Fliquinha, estão As Aventuras de Mike, série de livros e conteúdos infantojuvenis criados pelos escritores e criadores de conteúdo Gabriel Dearo e Manu Digilio, que já vendeu mais de 2 milhões de exemplares e conquistou milhões de fãs no YouTube; Cau Gomez, mineiro radicado na Bahia, artista gráfico, cartunista e ilustrador premiado, responsável pela ilustração de obras infantojuvenis como “Pastinha, o Menino que Virou Mestre de Capoeira”; e Cleuza Maria, presidente da centenária Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, uma das mais importantes referências da tradição cultural e da ancestralidade afro-brasileira em Cachoeira.

“Na Fliquinha 2026, a gente vai ter muita IA de infância autêntica, infância ancestral, infância autoral, mas sem negar a importância de pensar como as novas tecnologias fazem parte dessa nova infância. A gente vai falar sobre a importância da leitura, do brincar e também a importância da IA, da tecnologia na construção dessa infância que está acontecendo fora e dentro das telas”, adianta Emília Nuñez, curadora da Fliquinha.

Para Emília, a principal intenção é dialogar com o tema da originalidade, trazendo a infância como original por natureza. “Será uma programação pensada para a família, para as crianças e também para os adultos que constroem essa infância junto com elas. A ideia é que a família toda se sinta contemplada com uma programação interessante e múltipla”, destaca.

Geração Flica

Pensada especialmente para o público jovem, a Geração Flica ocupa o Cine Theatro Cachoeirano para debater como uma nova geração de leitores, escritores e artistas se relaciona com as ferramentas que já fazem parte do seu cotidiano. Em bate-papos com autores, ilustradores e outras personalidades, entram em cena questões como autoria, redes sociais e os dilemas trazidos pela Inteligência Artificial para quem escreve, desenha e compartilha suas produções. A missão é estimular um diálogo direto com os jovens, valorizando suas experiências e perspectivas diante das mudanças que atravessam o universo literário e artístico.

Quem passar pela Geração Flica poderá conferir encontros com nomes como Zoe X, um dos destaques do dark romance nacional, autora de mais de 20 livros e conhecida por preservar sua identidade por trás de um pseudônimo e uma balaclava, peça que cobre o rosto; Filipe Soares, escritor, jornalista, repórter do programa Antena Periférica, da Band Bahia, e autor do livro “Sobre Nós”, que aborda identidade, pertencimento e vivências periféricas; Paulo Moreira, ilustrador e quadrinista paraibano, autor de “Bom Dia, Socorro”, “Só as Melhores” e “Boca de Siri”, e vencedor do Grampo de Prata em 2026; e Lailane Dórea, ou Beberes, maquiadora, comunicadora e criadora de conteúdo soteropolitana, reconhecida como Top Creator em 2025.

“Pensar a Inteligência Artificial é ir além do uso das ferramentas que estão sendo desenvolvidas. É entender como essas tecnologias chegam para quem produz literatura, arte e roteiros e como escritores, artistas e outras personalidades estão se adaptando a esse novo cenário. A programação foi pensada a partir dessas questões, trazendo diálogos sobre o presente, o futuro, autoria e os limites entre o que é criação e o que é cópia. O público pode esperar provocações interessantes, vai ser curioso observar as opiniões de quem a gente consome e acompanha dentro da literatura e da arte”, observa Deco Lipe, curador da Geração Flica.

Programação artística

Em diálogo com a provocação da Flica sobre originalidade em tempos de Inteligência Artificial, a programação artística transforma os palcos em espaços de criação, presença e experiência coletiva. A proposta valoriza aquilo que nasce do encontro entre artistas e público, como a síncope do samba de roda, o improviso dos repentistas, a organicidade dos tambores, das filarmônicas e a crueza das vozes que ecoam pela festa. Dividida entre o Palco Ritmos e o Palco Raízes, a grade do evento aproxima tradição e contemporaneidade para celebrar a potência de uma arte que acontece no presente.

Entre as vozes que integram a programação musical da Flica estão Jau, cantor e compositor baiano conhecido por sua trajetória no samba-reggae e na música popular brasileira; e Sued Nunes, artista do Recôncavo Baiano que combina sua voz potente a elementos da música afro-brasileira, ancestralidade e batidas eletrônicas em seu trabalho.

“O tema desta edição nos lembra que a IA veio para somar, mas exige o reconhecimento de que a verdadeira originalidade não nasce de fórmulas prontas de computador. A essência do que é original está naquilo que máquina nenhuma consegue replicar: o erro que se transforma em arte, o improviso do momento, o suor na pele e a força viva da nossa ancestralidade”, ressalta o músico Linnoy Nonato, curador artístico.

Ele afirma que, no mundo da música, a IA até dá um gás na produção e nos arranjos, mas a verdadeira magia, aquele calor do palco, a energia do ao vivo e o arrepio na alma são puramente do ser humano. “O público pode esperar uma celebração da arte viva e da força ancestral do Recôncavo, mostrando, na prática, o que a Inteligência Artificial jamais conseguirá reproduzir”.

A 14ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira – Flica é uma realização da SCHOMMER PRODUÇÕES e conta com o apoio do Governo do Estado da Bahia.

Saiba mais sobre a Flica 2026
Instagram: @flicaoficial