15 de September de 2026
Momento da tentativa de socorro a Marlon por colegas de trabalho
Momento da tentativa de socorro a Marlon por colegas de trabalho | Foto: Reprodução

No dia 31 de agosto deste ano, um soldador de 49 anos morreu no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), em Feira de Santana, após cair de um andaime com uma altura de 4 metros. O homem era funcionário de uma empresa de comunicação audiovisual, e a queda ocorreu enquanto ele realizava um serviço na Avenida Transnordestina.

Apenas três dias depois, no dia 3 de setembro, um jovem de 22 anos perdeu a vida, após ser esmagado por uma peça de metal, também enquanto trabalhava, em uma empresa de pré-moldados de Feira de Santana.

As tragédias recentes reacenderam o alerta sobre os investimentos feitos pelas empresas na segurança dos seus trabalhadores, com a aplicação das normas impostas pelos órgãos reguladores, ações de prevenção e fornecimento de Equipamento de Proteção Individual (EPI).

Casos são subnotificados

Verena Leal_ coordenadora da Rede Própria de Feira de Santana
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Em entrevista ao Acorda Cidade, a diretora da Rede Própria da Secretaria Municipal de Saúde, Verena Leal, em 2026, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) já registrou 11 acidentes de trabalho com mortes ou danos. No entanto, os números são subnotificados e mudam a todo tempo.

“Todos os acidentes de trabalho que nós temos o conhecimento, o Cerest é acionado para proferir com a investigação e elucidação das causas desses acidentes, com o objetivo, claro, de evitar que novos acidentes aconteçam pelas mesmas causas. Nós temos uma notificação que é feita pelo Cerest, daqueles trabalhadores que foram acompanhados pelo órgão, e a gente já tem, neste ano, 11 acidentes, que são acidentes importantes, que levaram a óbito ou até mesmo mutilação e internação. Porém, esse número é muito maior quando a gente traz a admissão para os não acompanhados diretamente pelo Cerest, como aquele acidente que ele vai diretamente para um hospital, que a gente ainda não teve acesso”, afirmou Leal.

De acordo com ela, muitos acidentes demoram a ser notificados pelo trabalhador, uma vez que só acontece após sua recuperação e quando ele decide procurar o Centro de Referência.

Falta de investimentos

A diretora da Rede Própria apontou que a construção civil e áreas afins lideram os casos de acidentes de trabalho.

“A gente observa ainda uma crescente que está ligada às tecnologias, principalmente a instalação de internet, manutenção de internet, onde também tem um risco importante, uma vulnerabilidade importante e registro de acidentes.”

Ela enfatiza que muitos dos acidentes que ocorrem na cidade podem ser evitados. A falta de proteção individual está entre as principais causas para as ocorrências.

“A gente observa que muitas vezes é falta de equipamento, de proteção individual ou a utilização correta desses equipamentos, a questão da proteção coletiva nos ambientes, falta também de treinamento para a saúde e segurança no trabalho. As empresas têm investido pouco na prevenção dos acidentes de trabalho e por isso o Cerest tem fiscalizado, intensificado as suas inspeções nos ambientes e processos de trabalho, justamente para a gente conseguir compreender e visualizar essas causas, antes mesmo que um acidente aconteça e que o trabalhador tenha sua vida ceifada pelo próprio trabalho.”

Como o Cerest atua na cidade

O papel do Cerest, segundo ela, é vigiar os ambientes de trabalho para minimizar ou até mesmo eliminar o risco à saúde dos trabalhadores.

“Realizamos inspeções nesses ambientes de processo de trabalho, para sinalizar, recomendar o que podemos modificar, trazer a proteção e a segurança naqueles espaços. A gente faz uma relação e um diálogo muito próximo com os outros órgãos de proteção aos trabalhadores, à saúde dos trabalhadores, que podem trazer medidas mais peculiares, como o próprio Ministério Público do Trabalho, a Gerência Regional do Trabalho-Emprego, que podem ter ações mais impositivas sobre essas situações.”

As equipes do Cerest emitem um relatório de recomendações técnicas para modificação dos espaços.

“A gente espera, realmente, que as empresas cumpram as recomendações solicitadas pelo Cerest, visto que as equipes são técnicas, são especializadas, são capacitadas para entender tanto as normas regulamentadoras do trabalho, quanto também o que, naquele ambiente, ele precisa ser qualificado na perspectiva da proteção da saúde e da segurança dos trabalhadores.”

Como denunciar

Para denunciar irregularidades, os trabalhadores podem utilizar os canais de denúncia do Cerest. O atendimento é diário e anônimo.

“Essas denúncias podem ser via telefone, via e-mail ou presencialmente no órgão. Todas as denúncias são averiguadas de forma anônima, não identificando o trabalhador, para que a gente proteja esse trabalhador. Mas a gente faz essa análise de prioridade e investigação das denúncias para que, de fato, a gente os proteja.”

Ela afirma que a empresa tem a sua responsabilidade em fazer valer as regulamentações técnicas, mas o trabalhador também deve compreender o papel de entender a sua importância frente ao cenário da prevenção.

“Nós somos vigilantes dos espaços que nós trabalhamos e devemos, sim, sinalizar aos órgãos de proteção à saúde do trabalhador quando algo é de confronto às nossas normas regulamentadoras. É uma proteção individual ou também a proteção coletiva, para proteger a vida, a saúde dos riscos que o ambiente é inerente. A gente sabe que, muitas vezes, a proteção individual, coletiva, ela não elimina o risco. O risco continua no ambiente, mas ela protege o trabalhador, protege coletivamente contra aquele risco que causa danos maiores.”

O Cerest está localizado na Avenida Presidente Dutra, s/n, Capuchinhos. O horário de funcionamento é das 7h às 17h, de segunda a sexta-feira (exceto feriados). Telefone: (75) 3623-7552/(75) 3602-3038.

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.

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