
Técnicas modernas e avançadas de entubação em pacientes críticos na emergência, a anestesia obstétrica e ambulatorial, além assuntos mais atuais como o uso de emagrecedores e os riscos associados a eles durante cirurgias eletivas, bem como as novas tecnologias com uso da Inteligência Artifical, serão alguns dos temas abordados durante o 1º Congresso de Anestesiologia da Bahia.
O evento acontecerá entre os dias 18 e 20 de setembro, em Salvador. A expectativa é que atraia profissionais da área de anestesia, estudantes de Medicina, acadêmicos e residentes de todo o país.
Entre os participantes do Congresso está a médica anestesiologista Ruth Camarão Rios, que atua em Feira de Santana. Ela é professora da Universidade Estadual (Uefs) e também diretora de Comunicação da Saeb (Sociedade Brasileira de Anestesiologia), cuja sede fica na capital baiana.
Em entrevista ao Acorda Cidade nesta quinta-feira (3) ela desmistificou alguns mitos e esclareceu dúvidas importantes sobre a anestesia geral e parcial.
De acordo com Ruth Rios, um dos temas de grande importância durante o congresso será a entubação traqueável, em pacientes críticos em emergências, Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), como para o tratamento de pneumonias.

“Muitos pacientes críticos precisam de ajuda com a ventilação, para respirar. Isso aconteceu de uma forma muito intensa na pandemia de Covid-19. E alguns pacientes podem ter falecido, porque não conseguiram ser entubados. Então, os médicos, idealmente, devem ter essa habilidade de oferecer oxigênio e fazer esse procedimento, com entubação orotraquial.”
Importância da consulta pré-anestésica
Outro tema central, no caso de pacientes com cirurgias programadas, é a consulta pré-anestésica, imprescindível para reduzir o risco perioperatório.
“A gente faz uma entrevista em relação às comorbidades, às doenças que o paciente tem, as medicações que ele usa, e a gente faz um exame físico, que é também direcionado para a via aérea. E aí assim a gente pede para o paciente abrir a boca, estender o pescoço, ver a condição dentária, para tentar prever se esse paciente vai ser fácil ou difícil de entubar e se preparar também de uma forma otimizada para diminuir risco durante a anestesia.”
O uso de emagrecedores é algo que gera dúvidas entre os pacientes com casos cirúrgicos. A especialista alerta que durante a consulta pré-anestésica é preciso informar ao médico o uso dessas medicações, assim como de outras substâncias.
“Tem paciente que tem vergonha de falar, por exemplo, que usa um item estético, como um aplique no cabelo ou toma alguma medicação como uma caneta emagrecedora. E por que que isso é tão importante? Porque muda a preparação dele para a cirurgia. O jejum, por exemplo, é diferente; ele precisa suspender antes de algum tempo durante a cirurgia, o mounjaro, especificamente, uma semana antes. Muitas vezes, precisa fazer uma dieta especial no dia anterior. Então, é extremamente importante que o paciente fale sobre todas as medicações que ele usa.”
Pacientes diabéticos também devem consultar sobre o uso de algumas medicações durante a preparação pré-operatória, conforme orientação do especialista.
“Tem medicações que podem trazer riscos, por exemplo, de hipoglicemia, o açúcar do sangue baixar, e tem medicações que a gente não deve suspender. Por exemplo, diabéticos tipo 1, que ele precisa da insulina, ele não pode suspender. E o tipo 2 não são todos os hipoglicemiantes, alguns a gente mantém. Mas tem uns que a gente suspende por 3 dias, outros só no dia. Então, por isso que é tão importante o paciente passar pelo médico anestesiologista, porque só ele vai saber falar sobre todas as medicações, o que manter, o que suspender.”
O uso da IA na anestesiologia
A anestesiologista Ruth Rios também falou sobre a incorporação da Inteligência Artificial no segmento. Para ela, a IA veio para auxiliar o profissional e aperfeiçoar a comunicação e atualização médicas.
“Muitas vezes eu dou aulas em congressos e uma das primeiras coisas que eu faço, por exemplo, é pedir ajuda da Inteligência Artificial, sobre como estão as atuais evidências, como a gente pode se preparar de uma forma mais eficaz e otimizada para achar os principais artigos. A IA pode aumentar a segurança do nosso diagnóstico e nos mostrar as opções terapêuticas. Agora, acredito que ela não vai substituir o nosso conhecimento, a nossa experiência, ela vem para somar de fato e vai ser abordada também no nosso congresso.”
A anestesia guiada por ultrassom
Durante o 1º Congresso de Anestesiologia da Bahia, os participantes vão ser atualizados quanto às técnicas mais atuais de aplicação da anestesia regional guiada com o aparelho de ultrassonografia, como as anestesias raqui, ortopédicas, abdominais e torácicas.
“O anestesista deve ter proficiência, saber fazer anestesia através do aparelho de ultrassonografia. A gente consegue encontrar nervos, músculos e assim fazer uma anestesia mais precisa para o paciente evoluir com menos dor no pós-operatório.”
Ruth Rios esclareceu que, no caso da anestesia raquidiana ou subaracnóide, há o bloqueio de um ponto da região coluna para baixo, e é muito utilizada para cirurgias cesarianas, ortopédicas e urológicas. “Ele pode ficar acordado ou não, depende da preferência do paciente, do anestesista e do cirurgião. Então a sedação muitas vezes vem acompanhada para dar conforto.”
Mitos e verdades sobre a anestesia
Pacientes podem acordar durante a cirurgia?
Há muitos questionamentos de pacientes sobre a aplicação de anestesias e os efeitos durante e após os procedimentos operatórios. Um deles é se, mesmo após o procedimento, o paciente pode acordar durante a cirurgia.
“Essa é uma pergunta que eu sempre faço para os meus alunos. Depende muito da técnica anestésica que o anestesista está fazendo. Por exemplo, se você vai fazer uma cirurgia ortopédica na perna, porque quebrou a perna e a intenção é fazer anestesia na coluna e uma sedação, então é possível, sim, que você acorde e volte a dormir. Porque a técnica da sua anestesia era da coluna para baixo. Agora, se você vai fazer uma cirurgia com anestesia geral, não é para você acordar. Você vai dormir do início ao final.”
Pacientes podem não acordar após a anestesia?
“Anestesia é uma especialidade que preocupa muito as pessoas. E eu sempre falo: o paciente vai acordar sim. Porque a gente já faz medicações com o tempo de ação pré-estabelecido. Eu sei que se eu desligar, depois de alguns minutos o paciente vai acordar. Então é para ele ficar tranquilo. A gente estuda durante muitos anos. A gente usa medicações de ação rápida. E o anestesista fica ao lado do paciente o tempo inteiro. Então quando acaba a cirurgia, a gente desliga os anestésicos e certamente o paciente vai acordar depois de alguns minutos.”
Há risco de perder a memória após a anestesia?
A especialista esclarece que isso pode ocorrer, mas somente no momento do procedimento cirúrgico.
“Durante a anestesia o paciente vai receber sedativos que, muitas vezes, ele não vai se recordar daquele momento. Muitas vezes a partir do momento que a gente faz alguma medicação ele pode se esquecer do que ia acontecer naquele momento ali perioperatório. Mas, naturalmente, ele vai acordar e voltar a ter suas funções cognitivas, suas funções cerebrais normais. Então não é para ele perder a memória depois de algum tempo.”
É normal delirar após o uso de anestésicos?
De acordo com a anestesiologistas, as medicações evoluíram e episódios como este, que antes eram comuns, ocorrem com cada vez menos frequência.
“As medicações que são responsáveis por esse tipo de alteração, a gente tem usado em doses menores e muitas vezes associadas a outras medicações mais seguras. Então a ideia é que o paciente se recupere de uma forma mais rápida e mantenha a sua capacidade de se comunicar de uma forma mais adequada. Aquela ressaca que acontecia antes, que as vezes o paciente passava horas dormindo depois da cirurgia, isso está cada vez mais raro.”
Pacientes podem ter alergias após anestesia?
Durante a entrevista, a médica ressaltou que alguns pacientes podem sim apresentar alergias por conta das substâncias anestésicas, que podem estar associadas a condições prévias do organismo de cada paciente.
“O paciente pode ter alergias prévias a alimentos, a medicações, a poeira, a ácaro e ele pode desenvolver também alergia no intraoperatório por medicações, às vezes, que ele nunca tomou. Mas a gente é preparado para tratar qualquer tipo de intercorrência, qualquer tipo de reação alérgica. A anafilaxia, que é a reação mais grave, a gente também tem medicações e tem formas de tratá-la de uma forma eficaz.”
A anafilaxia é uma reação alérgica grave que, muitas vezes, pode provocar alterações na pele, respiratórias ou queda de pressão. Por isso a importância da pré-anestesia. Cada paciente tem uma técnica individualizada, preparada realmente para o que é melhor para ele, por isso que só o especialista consegue escolher e definir essa técnica juntamente com a equipe cirúrgica.”
O áudio com a entrevista completa você ouve logo abaixo:
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