18 de September de 2026
Igreja Católica no Distrito da Matinha_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade (2)
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Feira de Santana comemora nesta sexta-feira, 18 de setembro, 193 anos de história. E para celebrar a data que marca a emancipação político-administrativa da nossa Princesa do Sertão, o portal Acorda Cidade preparou uma série de reportagens especiais sobre os oito distritos que compõem o município.

Nesta série de reportagens, vamos destacar a importância das comunidades rurais, por meio da sua história, suas belezas, riquezas culturais e atrativos. Primeira localidade retratada na série, a Matinha está localizada na parte leste da BR-116, delimitada pelo rio Pojuca. O distrito nasceu em 2008, após se tornar independente e deixar ser povoado de Maria Quitéria, sendo o mais recente de Feira de Santana.

Distrito da Matinha
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

A sede do distrito, a comunidade quilombola Matinha dos Pretos, conta atualmente com 15 povoados: Olhos D’Águas das Moças, Candeal II, Santa Quitéria, Moita da Onça, Vila Menilha (Salgada), Baixão, Sítio do Padre, Tanquinho, Genipapo II, Alto do Tanque, Alto do Canuto, Alecrim Miúdo, Jacu, Capoeira do Rosário e Candeia Grossa.

A comunidade é símbolo da luta contra a escravidão em Feira de Santana. O nome do território tem origem na mata pequena e densa, onde escravos se afugentavam e resistiam em quilombos, cuja herança foi reconhecida pela Fundação Palmares.

Na parte cultural, o distrito da Matinha é como um grande cadeirão, temperado com sabores ricos – como o bredo, o cuscuz, o acarajé. E tem ainda entre seus encantos os grupos de samba de roda, como a Quixabeira da Matinha e os Sambadores do Nordeste, o comércio, além de espaços turísticos e eventos tradicionais que evidenciam a diversidade local.

Distrito da Matinha_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Berço de história e tradições

Nascida no povoado Moita da Onça, na Matinha, a agricultora familiar aposentada Julia das Virgens dos Santos, de 70 anos, cresceu na comunidade, ao lado de seus pais e irmãos. Lá, ela fincou suas raízes e acompanhou de perto o crescimento e desenvolvimento do distrito, que é um berço dotado de histórias e tradições passadas de geração em geração.

“Minha mãe fazia noite de reza, a gente sambava até de manhã. Fazia caruru, tinha carneiro, e a gente sempre gostou. Eu sempre gostei daqui da Matinha, de onde eu moro. Não tenho vontade de sair daqui nunca, só quando Deus mandar me chamar. Amo meu lugar”, frisa.

Julia das Virgens dos Santos - 70 anos
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Julia relembrou ainda de quando, para muitos, o dia findava com o pôr-do-sol, já que não havia iluminação nas ruas do distrito, e do período em que não havia calçamento. Para ela, a chegada desses serviços melhorou muito a qualidade de vida da população.

“Depois vem as batas de feijão, com os homens batendo, e a gente na peneira sessando, até de noite, até 9 horas da noite. Aí quando terminava ficava aquele mutirão de palha. Agora não tem, porque o feijão tá bem pouquinho. Aí os meninos ficavam brincando debaixo da bata de feijão, se escondendo, até 12 horas da noite brincando. Eu gostava muito, porque meu pai plantava muito feijão, plantava fumo também.”

Distrito da Matinha_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade (4)
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Ela lamenta que muitas dessas tradições foram se perdendo ao longo dos últimos anos e diz que sente saudades do tempo em que os eventos aconteciam com a participação de toda a comunidade.

“Hoje não tem mais, aquele tempo que era tudo. Hoje os jovens não participam mais. Sinto muito… Tinha a casa de farinha do meu pai, que a gente raspava mandioca. A gente sentava 8 horas da manhã, raspava mandioca, depois de raspada aí ia seivar. Depois de seivar, botar na prensa, depois da prensa, tirar, peneirar. Depois de peneirada a gente ia passar no forno. E era muito bom! Os homens no rodo.”

Apesar das lembranças de um tempo que parece não querer voltar, Julia diz que tem uma vida tranquila no distrito, cujos moradores mais antigos buscam manter vivas as tradições e as cavalgadas.

Distrito da Matinha_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Pessoas acolhedoras

O comerciante Geilson dos Santos, de 27 anos, conhecido como Zulu Surf, reside na localidade Alto do Tanque, no distrito. Ele contou como também se sentiu acolhido pelos moradores da Matinha, quando decidiu se mudar para a comunidade e abrir a loja de confecções no ramo de surf.

Geilson dos Santos, conhecido como zulu Surf - 27 anos
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

“Eu comecei online, e depois que eu retornei para a Matinha, abri um ponto aqui e melhorou muita coisa. Nós já tínhamos alguns clientes, depois foi surgindo mais, criamos credibilidade com os clientes e, graças a Deus, estourou. Graças a Deus a galera da Matinha, da nossa comunidade, tem abraçado muito a gente. Criamos um vínculo muito bom aqui, e a gente também abraça a comunidade. É muito significante, gratificante o que a galera tem feito por nós aí, e que a gente também está entregando um bom trabalho”, comemorou Zulu, que atualmente possui duas lojas no distrito.

Ele destaca que tem trabalhado duro para alavancar o seu negócio e espera que o exemplo dele inspire outros jovens e crianças da Matinha a seguirem o mesmo caminho.

“A gente é espelho hoje aqui para muitos meninos novos, a gente é uma referência na vida deles. E tipo assim, graças a Deus, a gente está entregando algo bom. Tipo, alguém passar aqui, vai ver a gente na correria. É algo que eles se espelham.”

Distrito da Matinha_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade (3)
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Empreendedorismo feminino

Empreendedora no ramo de medicamentos, a comerciante Claudiana Nascimento também enxergou no distrito um grande potencial econômico. À medida que buscava o crescimento do seu próprio negócio, ela idealizou o projeto Na Matinha Tem, que trouxe visibilidade e benefícios para toda a comunidade.

Ao Acorda Cidade, Claudiana destacou a força do empreendedorismo feminino, que impulsiona fortemente a atividade econômica da Matinha.

Claudiana Nascimento - Empreendedora da Matinha
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

“A agricultura familiar é a principal atividade econômica desenvolvida, principalmente pelas mulheres. Aqui trabalham-se hortas, os quintais produtivos, a mandioca e seus derivados, a fécula, biscoitos. Também a parte do pomar, que a gente tem um desenvolvimento da agroindústria, que faz o beneficiamento com polpas de frutas.”

Proprietária de farmácia há cerca de cinco anos, Claudiana se divide entre o Poço do Jacu, a Matinha e o Alto do Papagaio. Para o distrito, o reconhecimento da comunidade pela Fundação Quilombo dos Palmares tem uma grande importância, uma vez que a história dos seus antepassados, das comunidades, merece ser valorizada.

“Esse reconhecimento traz a afirmação da luta que foi feita há mais de 50 anos para poder desenvolver esse quilombo, esse distrito, esse povoado. Então é um reconhecimento histórico de valorização, autoestima. Os antepassados têm uma importância muito forte aqui no distrito, porque a educação vai sendo transferida, o modo de cultivo, o modo da socialização, a parte educacional, principalmente. As festas, os eventos, o rei roubado, a bata de feijão, a cantoria na Casa de Farinha, entre outros movimentos que se desenvolvem a partir da ancestralidade, além da culinária.”

Claudiana Nascimento afirma que o território da Matinha possui atualmente cerca de 10 mil moradores, sendo boa parte da população formada por pessoas mais idosas. Sua gente se destaca por ser acolhedora, alegre, dinâmica e trabalhadora. “Hoje, a gente tem mais de 200 comércios, entre médios, informais e pequenos empreendedores.”

Distrito da Matinha
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Patrimônios históricos e turismo ecológico

Entre os espaços turísticos e atrativos culturais da Matinha, a empresária cita a primeira paróquia quilombola do Brasil, o grupo Quixabeira da Matinha, que recentemente se tornou um pontão de cultura, um braço do Rio Pojuca, o Baixão, com uma vista belíssima, o Tanque da Matinha, dentre outros.

Tanque da Matinha dos Pretos_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade (1)
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

“O Tanque da Matinha dos Pretos é um símbolo de resistência histórica da luta dos escravizados na época por liberdade, e hoje ele é um patrimônio imaterial do quilombo. Tem-se muitas memórias do que foi vivido naquela época e está sendo revitalizado pela prefeitura, pois tem uma função social, de saúde e também de lazer, com parque para crianças, uma quadra, pista de de cooper para as pessoas caminharem, praticarem corrida, bicicleta… E fora que tem uma vista lindíssima!”

Um evento que tem se consolidado na Matinha é a Caminhada Ecológica. A última edição do evento foi realizada em fevereiro deste ano, quando os moradores juntamente com os comércios deram as mãos para juntos promoverem um evento de contemplação das belezas naturais da região.

Tanque da Matinha dos Pretos_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade (1)
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

“Fizemos um trajeto de 12 km saindo da Matinha até a Praça do Jacu, onde tivemos uma feira da agricultura familiar com mulheres fantásticas, que comercializaram frutas, verduras, grãos, bebidas, bolos, doces, beijus, e depois retornamos, onde as crianças ficaram maravilhadas com as formigas gigantes na trilha que passamos. Visitamos o braço do Rio Joanes, o Rio Pojuca, que se encontram e passam pelo distrito e vai para Retiro, Coração de Maria, até a Linha Verde, em Camaçari. Foi um evento muito especial. Tivemos a presença de dois profissionais: um historiador e uma licenciada em Ciências da Natureza, que abrilhantaram essa caminhada contando um pouquinho da história da Matinha, do povoado de Jacu, e falando também sobre a fauna, a flora e a microflora da região da Matinha.”

Tanque da Matinha dos Pretos_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Em abril, também foi realizada a Corrida Quilombola, que contou com 800 participantes, em percursos de 5 e 10 km para os públicos feminino, masculino e PCD (Pessoas com Deficiência).

“Nós tivemos R$ 10.800 em prêmios. Divulgamos muito esse evento e esperamos que no próximo ano a gente possa repetir a terceira edição. E o símbolo da resistência nos troféus, na camisa. O distrito de Matinha tem muita coisa para ser desenvolvida. Todos os anos também acontece a Bicicletada da Paz, um evento promovido pela Igreja Católica, pela Paróquia São Roque, que reúne pessoas, ciclistas, crianças, adolescentes, adultos, famílias, que fazem um tour pelo povoado de Olhos d’Água, passando pelo Tanquinho d’Água e Sítio do Padre, Baixão, Matinha, Candeal e Moita da Onça.”

Distrito da Matinha_ Foto Kaio Vinicius Acorda Cidade
Foto: Kaio Vinicius/Acorda Cidade

Com informações do jornalista Kaio Vinicius, do Acorda Cidade.

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