
Além de ser um período dedicado à conscientização sobre a importância da saúde mental e defesa da vida, setembro também é voltado à prevenção e diagnóstico precoce das doenças do aparelho digestivo (Setembro Rubi). Neste contexto, o médico gastroenterologista Victor Galvão, que atua em Feira de Santana, irá representar a Bahia no 14º Encontro Internacional de Endoscopia Oncológica. O evento acontece nos próximos dias 23 e 25 de setembro, no Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro.
Em entrevista ao portal Acorda Cidade, o médico especializado em endoscopia digestiva informou que vai compartilhar com os participantes os resultados de uma pesquisa feita através da ação social Março Azul, da qual ele foi um dos médicos participantes.
A pesquisa é desenvolvida pelo Hospital Sírio-Libanês, em parceria com a Sociedade de Endoscopia Digestiva (Sobed), a Federação Brasileira de Gastroenterologia e a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, com o objetivo de rastrear a população de uma cidade que não tem acesso à colonoscopia, ao fazer o rastreamento, por meio de um exame de sangue oculto nas fezes, com o fit-test.
“Os que derem positivo fazer a colonoscopia na própria região, mostrando a importância que isso tem. O que culminou em todos esses anos, que foram seis ações, foi chamar atenção das autoridades públicas, dos políticos, e o que permitiu chegar nesse patamar que a gente está hoje, pois desde agosto foi lançada uma portaria autorizando o fit-test como exame de rastreamento e daí a colonoscopia vai passar a ser então oferecida também no SUS, e a ideia é que o que está sendo feito agora é a estruturação desse Programa Nacional de Rastreamento, e você imagina quantas vidas vão ser salvas com isso.”
O fit-test, segundo ele, consiste em avaliar as fezes do indivíduo por meio de dois métodos: o qualitativo, que vai dizer se é positivo ou negativo para sangue humano, ou pode ser quantitativo, que vai dizer em porcentagem, e quanto maior, maior a chance de estar sangrando o intestino. Esse fit-test diz para a gente quem mais pode se beneficiar da colonoscopia. Ele não substitui a colono, ele indica uma população em idade de risco para câncer colorretal. Então, para você não oferecer colonoscopia para todos os indivíduos acima de 50, o que é uma coisa quase inviável, você faz o fit-test porque é uma peneira, é uma maneira de você saber quem mais vai se beneficiar e quem mais tem indicação”, explicou.
Cirurgia endoscópica oncológica
O especialista destacou que o evento irá receber ainda palestrantes internacionais, tendo como um dos destaques, a cirurgia endoscópica oncológica e as novas tecnologias empregadas no procedimento, trazidas por professores japoneses, que irão compartilhar as técnicas aplicadas pelo Japão, um país que é referência na área.
“O Japão, assim como o Chile aqui na América do Sul, é um dos países que tem maior incidência de câncer colorretal. O Japão tem um sistema de rastreamento já organizado, tanto por câncer gástrico quanto por câncer colorretal, e eles vêm para cá trazer a experiência deles de um programa já estruturado, por já terem essa tecnologia de imagem avançada, em que você consegue identificar padrões vasculares e de relevo das lesões, enquanto os aparelhos antigos, os médicos não treinados nessa novidade vão achar que é gastrite. Quem já sabe usar essa tecnologia e dispõe dela, vai saber que é um câncer ou um pré-câncer e vai poder tratar.”
Ele pontuou que os japoneses inventaram uma técnica de dissecção endoscópica de sumucosa, que é uma cirurgia endoscópica capaz de curar o câncer, preservando o órgão e evitando uma cirurgia convencional. “Também se utiliza de inteligência artificial para decidir com aquela imagem avançada qual é a melhor técnica, mas com o olhar do médico.”
Vitor Galvão indicou que a alta incidência deste tipo de câncer no Japão, assim como no Chile, se dá por fatores genéticos e por causa da alimentação. Entretanto, as pesquisas demonstram que as doenças do aparelho digestivo têm aumentado em todo o mundo e estão ocorrendo em idades cada vez mais precoces.
“O que não deve ser ignorado é quando o paciente apresenta uma anemia, que o médico não consegue detectar ou explicar, uma perda de peso sem justificativa, pois o sujeito não está mudando a dieta, não está fazendo mais atividade física, e de repente perde o apetite, a comida já não faz bem. Às vezes, inchaço, alteração no hábito das fezes, que o paciente que tinha um hábito de evacuar todo dia passa a ficar dois, três, quatro dias sem evacuar, sangramento nas fezes, vômitos com sangue, fezes escurecidas com odor ruim, dificuldade de engolir, em que o alimento fica travado, então são sintomas que devem fazer com que o sujeito procure rapidamente o médico para poder se orientar direito e fazer os exames.”
Novas tecnologias aplicadas no SUS
De acordo com o gastroenterologista Vitor Galvão, nos últimos anos, ele tem se especializado, dentro e fora do país, na área de endoscopia oncológica, e tem buscado trazer novas tecnologias para aplicação no SUS, assim como na rede privada, em Feira de Santana.
Ele frisou que tem conseguido realizar procedimentos com técnicas mais avançadas, com algumas dificuldades, mas sempre com boa vontade dos gestores.
“Nós temos feito alguns casos, infelizmente ainda não é porta aberta, a gente não consegue ainda implementar no SUS, mas é importante dizer que a tecnologia de imagem avançada já está disponível em Feira de Santana, na Santa Casa de Misericórdia, que recebeu um investimento grande agora, no final do ano passado, então a gente consegue usar essa tecnologia toda para diagnosticar mais precoce, para decidir qual o melhor tratamento para o paciente.”
No Hospital Clériston Andrade, ele diz que essas cirurgias também são feitas pelo SUS, contando com algumas doações de indústrias e com muita dificuldade.
“Temos conseguido e, acredito muito, que é desejo inclusive da diretoria e da Secretaria de Saúde, de que a gente implemente, que seja feito com um pouco mais de organização, e mais do que isso, tanto a Santa Casa quanto o Clériston são Hospitais Escola, eu estou como supervisor do Programa de Residência e Endoscopia do Clériston, do Centro de Hemorragia Digestiva do Interior, e sou coordenador do Serviço de Residência também da Santa Casa e existe um desejo da diretoria do Clériston, de que a gente use o Centro de Ensino e Pesquisa, uma das salas, como um laboratório experimental de cirurgia endoscópica, justamente para desenvolver essa técnica e começar a ensinar os médicos em formação.”
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