22 de September de 2026
Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

Antes de existir a praça, as ruas e as casas que hoje formam a sede do distrito Governador João Durval Carneiro, em Feira de Santana, havia outra Ipuaçu. Ou, para quem conhece as histórias contadas pelos mais antigos, havia a antiga Gameleira, às margens do rio Cavaco. Foi ali que a comunidade começou a construir sua história. E foi também ali que uma parte dela ficou debaixo d’água.

Com a formação da barragem de Pedra do Cavalo, a antiga sede do distrito, localizada próxima às margens do rio, foi inundada. Antes que as águas chegassem, a comunidade foi transferida para o local onde hoje está a sede de Governador João Durval Carneiro. As casas foram reconstruídas e moradores passaram a ocupar um novo endereço, mas levaram consigo lembranças de um lugar que não existe mais.

“Eu não nasci exatamente aqui na sede do distrito, mas nasci sim no distrito de Ipuaçu, na Fazenda Curupati, nas proximidades daqui. Depois, de um certo tempo, quando a antiga Ipuaçu foi transferida para esta sede, foi que eu vim para cá”, conta Maria Georgina, agente comunitária de saúde e moradora da região há décadas. Ela cresceu ouvindo dos mais velhos as histórias da antiga comunidade e acompanhou as transformações de Ipuaçu.

Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Maria Georgina – Agente comunitário de saúde de Ipuaçu – Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

A mudança de endereço também faz parte da própria identidade do distrito. Ao longo da história, a localidade teve diferentes denominações. Primeiro, Gameleira; depois, Ipuaçu; e, em 1983, passou oficialmente a ser chamada de Governador João Durval Carneiro, em homenagem ao político baiano nascido na região.

João Durval Carneiro nasceu em 8 de maio, na Fazenda Santa Luzia, também pertencente ao distrito. A nova sede foi inaugurada na mesma data, durante o período em que ele governava a Bahia. Por isso, o aniversário do distrito acabou ficando ligado também à data de nascimento do ex-governador.

Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

Da Gameleira às águas do Cavaco

A história antiga também sobrevive por meio de narrativas que atravessaram gerações. Uma delas envolve a própria árvore que deu nome à localidade. Segundo a tradição contada pelos moradores, um homem conhecido como Capitão Santo teria feito um pacto e, depois de não cumprir o acordo como deveria, teria sido levado por um redemoinho. Durante o episódio, teria clamado por Nossa Senhora dos Remédios e prometido construir uma capela em homenagem à santa caso sobrevivesse.

A história diz que ele caiu sobre uma gameleira, às margens do rio Cavaco, e sobreviveu, apesar de ter quebrado as duas pernas. Depois, teria construído uma capela e doado terras para a devoção a Nossa Senhora dos Remédios, que se tornou padroeira da comunidade.

A árvore que marcou essa história, no entanto, ficou na antiga sede. Hoje, não há uma gameleira naquele local da nova sede. O que permaneceu foi a narrativa, repassada pelos mais velhos. Para Maria Georgina, é justamente essa memória que ajuda a manter vivo um passado que poderia ter desaparecido junto com a antiga comunidade.

Um lugar onde a fé atravessa gerações

A religiosidade também ocupa um espaço importante na vida da comunidade. No distrito está a Fazenda Santa Luzia, onde nasceu João Durval Carneiro, e uma antiga capela dedicada à santa. A história da imagem de Santa Luzia, associada ao Rio Jacuípe, também circula entre os moradores e desperta lembranças de quem participou das celebrações.

A aposentada Jacira de Lurdes, de 69 anos, nasceu e foi criada em Ipuaçu. Ao falar sobre Santa Luzia, ela se emociona ao lembrar de uma celebração da qual participou. “Chega a doer no meu peito. Porque eu estive na missa de lá, a festa que teve lá, eu fui. Achei linda, maravilhosa aquela festa”, conta.

Jacira de Lurdes, 69 anos, lavradora – Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

A fé aparece também na rotina. Jacira frequenta a igreja e fala com naturalidade sobre a presença da religião em sua vida. “Eu só não venho aqui para a igreja se eu não estiver aqui. Mas eu estou aqui todas as vezes”, disse.

Quando o vaqueiro reúne o distrito inteiro

Na comunidade, a religiosidade convive com outra tradição que reúne moradores e visitantes: a Festa do Vaqueiro.

A Festa do Vaqueiro se consolidou como uma das principais manifestações culturais do distrito. Realizada há cerca de duas décadas, segundo os moradores, a celebração começou pequena e cresceu ao longo dos anos.

Festa do Vaqueiro em Ipuaçu - Cavalgada
Foto: Cau Preto

Maria Georgina, que acompanha essa trajetória, conta como percebeu a transformação. “Começou bem pequenininha, hoje já é uma festa bem grande, muito participada pelas pessoas”, disse ao Acorda Cidade.

Quando a festa está acontecendo, são dias em que a movimentação aumenta e a economia local também sente os efeitos. Moradores aproveitam o período para vender alimentos, bebidas e outros produtos.

Para a população, porém, a festa vai além da movimentação econômica. Ela representa uma parte da cultura sertaneja que ainda encontra espaço em uma comunidade próxima da sede de Feira de Santana. Para Jacira, a lembrança da festa vem acompanhada de entusiasmo. “A festa do vaqueiro aqui é linda, maravilhosa. Do dia que começa até o dia que termina, é maravilhosa.”

Entre os mais jovens, a tradição também continua encontrando espaço. Jhyde Moreira tem 25 anos, nasceu em Ipuaçu e cresceu no distrito. Formada em licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), ela conta que as cavalgadas estão entre os principais momentos de lazer da juventude local. “A gente tem uma tradição muito grande em relação a cavalgadas”, afirma. “É o ápice da juventude aqui, que é onde a gente mais vai. Eu amo.”

A juventude que fica e a que precisa de caminhos

Jhyde é parte de uma geração que cresceu vendo Ipuaçu mudar. Para ela, a comunidade avançou em áreas como educação e transporte, embora ainda existam obstáculos.

Quando era criança, estudou no distrito apenas durante a alfabetização e depois precisou ir para Feira de Santana. Hoje, ela reconhece mudanças na educação local e destaca que jovens do distrito já chegaram a cursos como Direito na Uefs.

Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Jhyde Moreira, 25 anos, profissional de educação física – Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

Ela próprio seguiu esse caminho, mas permanecer no distrito e, ao mesmo tempo, ter acesso às oportunidades oferecidas na sede ainda exigem esforço. Por exemplo, o transporte aparece como uma das principais dificuldades.

Maria Georgina destaca que, apesar de Ipuaçu estar relativamente perto da sede de Feira, a falta de opções à noite acaba limitando principalmente quem precisa estudar. “Quando dá a partida às 19 horas não tem mais transporte. Aí quem quer estudar de noite, que não tem condições de ter um carro ou uma moto, dificulta”, conta.

Para Jacira, o problema também já teve consequências práticas. Ela conta que perdeu exames médicos por não conseguir transporte no momento necessário e aponta ainda a falta de uma ambulância como uma das carências da comunidade. “Eu já perdi dois exames aqui, esperando o carro para ir para a rua fazer os exames”, relembra.

Ao mesmo tempo, os moradores reconhecem que houve mudanças. Jhyde lembra que, durante sua época de estudante, o deslocamento era mais difícil e que hoje existe uma linha de ônibus direto para o transbordo, além de melhorias no serviço de vans.

Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

Entre o campo e novas possibilidades

Durante muito tempo, a agricultura esteve no centro da vida econômica de Ipuaçu. Milho, feijão e outras atividades ligadas ao campo fazem parte das memórias de moradores como Jacira, que passou a vida trabalhando na roça.

Hoje, contudo, o cenário mudou. Os períodos de seca e as mudanças climáticas dificultam a agricultura como principal fonte de sustento. A pecuária permanece presente na região e continua sendo uma atividade importante para muitas famílias.

O Rio Jacuípe também compõe esse cenário. O curso d’água é utilizado para pesca e lazer e recebe visitantes que procuram áreas para acampamento e contato com a natureza, apontando para um potencial de turismo rural e ecológico no distrito.

Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

O rio, inclusive, ajuda a explicar a própria história de Ipuaçu. Foi nas proximidades das águas que a antiga comunidade se desenvolveu e foi justamente a relação com os rios que marcou algumas das principais histórias preservadas pelos moradores.

Um distrito tranquilo, mas ainda em construção

Para quem vive em Ipuaçu, uma das maiores riquezas do lugar não está necessariamente em uma atração turística ou em uma grande festa. Está na tranquilidade. “Para mim é muito bom”, diz Maria Georgina. “É um lugar tranquilo, pouco violento.”

Dona Dilma Nascimento também descreve uma rotina de convivência entre vizinhos, crianças brincando na praça e famílias que permanecem próximas. No fim da tarde, a praça se transforma em ponto de encontro. Crianças jogam bola enquanto mães e pais acompanham a brincadeira. É uma cena simples, mas que traduz parte do modo de vida de uma comunidade onde as relações de vizinhança ainda têm peso.

Todo mundo me trata bem, eu também trato todo mundo bem. Graças a Deus.
Não tenho o que dizer de ninguém. No dia de domingo eu estou na igreja, e é tranquilo”, conta.

Ipuaçu, um distrito que mudou de lugar, mas não deixou sua história para trás
Dilma Nascimento, aposentada – Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

Jhyde, que poderia buscar outro lugar para viver, disse que não pretende sair. “Eu gosto muito daqui. É um lugar bem tranquilo. É um lugar que a gente pode viver em paz, tem convívio com os vizinhos, tem amigos, então eu não pretendo sair daqui.”

Mas gostar de viver no lugar não significa deixar de enxergar o que precisa mudar. Jhyde defende mais projetos culturais e educacionais para crianças e jovens. Segundo ela, além das escolas e das festas, ainda faltam iniciativas permanentes que ampliem as oportunidades e valorizem a história do próprio distrito.

O futuro depois das águas

A história conta que Ipuaçu já precisou recomeçar uma vez. A antiga sede desapareceu sob as águas da barragem de Pedra do Cavalo, mas as pessoas reconstruíram suas casas e continuaram contando as histórias do lugar de onde vieram. O nome mudou. A sede mudou. A rotina mudou, mas as memórias permanecem na história do Capitão Santo e da gameleira, na devoção a Nossa Senhora dos Remédios e Santa Luzia, nas festas que colocam o vaqueiro no centro da comunidade, nas lembranças de quem trabalhou na antiga unidade de saúde, nas lavouras de milho e feijão e nas crianças que ainda ocupam a praça no fim do dia.

Permanecem também na juventude que quer estudar, trabalhar, criar projetos e, como Jhyde, continuar morando onde nasceu. Assim, Governador João Durval Carneiro, ou Ipuaçu, para quem continua chamando pelo nome que atravessou gerações, chega aos 193 anos de Feira de Santana: como um distrito que já mudou de lugar, mas ainda reconhece sua identidade nas histórias que não deixaram de ser contadas.

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Reportagem escrita pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira, com supervisão da jornalista Jaqueline Ferreira.

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