
Há lugares que guardam sua história nos prédios, nas festas, nos caminhos e, principalmente, nas pessoas. Em Tiquaruçu, distrito de Feira de Santana, a memória parece estar espalhada por todos esses lugares ao mesmo tempo: na antiga Igreja de São Vicente, nas festas que movimentam a comunidade, nos versos do Reisado, nas lembranças de quem nasceu e cresceu ali e até nas pedras que resistem ao tempo.

Para quem vive no distrito há décadas, a principal característica de Tiquaruçu está justamente na vida tranquila de uma comunidade onde muita gente ainda se conhece. É assim que a agente comunitária de saúde Dalva Santos Melo, de 61 anos, que mora no local há 34 anos, descreveu o lugar ao Acorda Cidade. Foi ali que ela descobriu e construiu a vida.
“Eu gosto de Tiquaruçu. É pacato, tranquilo. Aqui não tem muita violência, e todo mundo se conhece, e aí é tranquilo.”
Essa relação próxima entre os moradores também ajuda a explicar como a história de Tiquaruçu chegou até as gerações atuais. Antes de receber o nome de origem tupi-guarani que é conhecido hoje, o distrito era chamado de São Vicente. O cantor, produtor e ativista cultural Asa Filho, de 71 anos, nascido na localidade, conta que a formação do lugar remonta ao século XVII e que a antiga Vila de São Vicente já tinha importância na região a partir de 1645.

“Primeiro aqui era Vila de São Vicente. De 1645 pra cá. O nome aqui era São Vicente, que é esse santo espanhol, que veio da Espanha. E aqui o povo agregou esse santo, e ele ficou como se fosse um porta-voz do lugar. Minha mãe, já estou falando agora de 1950, ela se tornou oficial do Revista Civil, e ela me dizia que aqui começou como Vila de São Vicente. Com o passar dos tempos, São Vicente começou a incomodar pela sua produtividade de grãos e a circulação de pessoas de compras, que aqui era um grande comércio, maior do que Feira de Santana. É como se, por acaso, Feira de Santana não existisse ainda. São Vicente começou a incomodar São Paulo, porque também lá tinha São Vicente. E as capitanias eram Pernambuco e São Vicente. Segundo ela, teve que mudar para um outro nome, o qual recebeu esse nome Tiquaruçu”, relata.

O distrito foi criado oficialmente em 1913, pela Lei Estadual nº 978, e passou a se chamar Tiquaruçu em 1943, por meio do Decreto Estadual nº 141. Mesmo com uma grande extensão territorial e pouco mais de quatro mil moradores, segundo o Censo 2022 do IBGE, a localidade ainda conserva características de uma comunidade pequena.
Geograficamente, embora pertença à Princesa do Sertão, Tiquaruçu não faz divisa diretamente com a sede do município e se limita aos distritos vizinhos de Matinha e Maria Quitéria.
Uma igreja que guarda histórias
É em meio a essa história que aparece uma das construções mais importantes do distrito: a Igreja de São Vicente. O templo, que passou por ampliações ao longo dos anos, guarda uma lembrança especialmente conhecida em Tiquaruçu: foi ali que Maria Quitéria, heroína da Independência do Brasil, foi batizada em 27 de julho de 1798.
Dalva lembra que a igreja era bem menor quando Maria Quitéria foi batizada e que a pia ficava próxima ao altar. Com a ampliação da igreja, o objeto foi retirado do lugar original e colocado em um espaço que hoje abriga um memorial dedicado à heroína histórica.
“Essa igreja não era desse tamanho, ela era menor. Quando Maria Quitéria foi batizada aqui, a pia era aqui na frente, atrás de mim, aqui na frente do altar. E depois que aumentaram a igreja, colocaram naquele cantinho ali, fizeram o memorial de Maria Quitéria, porque ela foi batizada aqui.”

A igreja também conserva outras marcas do passado, como o antigo púlpito, usado pelo padre antes da chegada dos equipamentos de som. E, segundo Dalva, a própria origem da devoção a São Vicente está ligada a uma história que atravessou as gerações da comunidade. Ela conta que os moradores mais antigos diziam que uma imagem do santo teria sido encontrada em uma pedreira próxima e levada para o local, onde foi construída uma pequena capela.

“O pessoal mais velho conta, que esse santo apareceu numa pedreira, uma pedreira que tem aqui próximo, em umas pedras, e aí trouxeram para aqui e fizeram uma capelinha, que foi feita pelos escravizados que aqui existiam antigamente.”
A igreja se tornou paróquia há cerca de oito anos e continua sendo um dos principais pontos de encontro da comunidade. O calendário religioso do distrito reúne a tradição da Festa de Reis, em janeiro; a festa do padroeiro, em abril; e a Festa do Lavrador, em setembro. E é justamente na Festa de Reis que a religiosidade se encontra com uma das manifestações culturais mais importantes de Tiquaruçu.
Quando janeiro chega, os pandeiros anunciam a tradição
Se você já ouviu falar da Folia de Reis, com certeza já escutou os seguintes versos:
“Ô de casa, ô de fora
Ô de casa, ô de fora
Maria vai ver quem é
Maria vai ver quem é
São os cantadores de reis
São os cantadores de reis
Quem mandou foi São José
Quem mandou foi São José”

O colorido da Folia de Reis atravessa gerações no distrito. O festejo, celebrado a partir de 6 de janeiro, reúne os três Reis Magos — Gaspar, Belchior e Baltazar — e o vaqueiro, personagem já conhecido da cultura feirense. Com o passar dos anos, o antigo costume de visitar as casas, cantando de porta em porta, ganhou outro formato e deu lugar a uma grande celebração, com missa, cortejo, apresentações e participação de moradores e visitantes.

Dione Teles, de 42 anos, mais conhecida como Nininha, participa do Reisado há cinco anos e cresceu acompanhando pessoas mais velhas ligadas à tradição. A mãe dela também fazia parte da manifestação e, agora, ela pretende transmitir à própria filha aquilo que aprendeu.
“Para mim, o Reisado hoje faz parte da minha vida. Eu venho de uma geração de agora. Mas já acostumei a sair com os antigos Reisados. E para mim, hoje o Reisado significa cultura. Porque a gente mora em um lugar pequeno e que não tem praticamente quase nada. Então a única coisa que ainda é viva hoje é a nossa cultura. E para a gente representar ela, a gente tem que fazer parte dela.”

A tradição também ultrapassou as ruas de Tiquaruçu e passou a ser apresentada em Feira de Santana e outros distritos. Para Dione, estar nesses espaços é mostrar os ensinamentos dos mais velhos, que a cada segundo domingo de janeiro, se juntam para celebrar a Folia de Reis.
“Eu me sinto feliz quando eu subo, ou aqui em Tiquaruçu, ou em Feira, ou nos outros distritos, para chegar lá e mostrar o que a gente sabe fazer de melhor. Eu não só canto como eu danço, mas para mim é muito bom. Não só aqui em Tiquaruçu. Quando chama, a gente está lá”, disse Dione.

Asa também se lembra de dona Julieta Frutuoso de Araújo, educadora influente e respeitada que marcou a história do distrito e hoje dá nome a uma escola. Foi ao recordar a professora que ele chegou às lembranças sobre a Festa de Reis e à formação do grupo que ajudou a fortalecer a tradição a partir dos anos 2000.
“Aí no ano de 2000 eu disse, eu vou fundar esse grupo. Chamei aqui alguns quilombolas, batedores de pandeiro, negros, que por sinal estão aqui ainda entre a gente, alguns, que não faleceram. E eu chamei aqui uma senhora que se chama Dona Gislene, que se chama Gigi, que é oriunda de uma família de batedores de pandeiro, de samba, de tudo, negro mesmo, propriamente dito, enraizado com a força do canto do sertão, a força do canto do trabalho. Fundamos esse grupo que é o Reisado de São Vicente.”
Veja mais imagens do Reisado São Vicente
A Organização Cultural e Artística Reisado de São Vicente (Orcare) foi formalizada em 2003 e passou a atuar na preservação e difusão da manifestação. O grupo chegou a manter atividades em um antigo chalé adquirido pela Prefeitura de Feira de Santana e cedido para funcionar como espaço cultural. Ali foram realizadas oficinas de música, pandeiro, capoeira e leitura, além de cursos profissionalizantes depois que o Reisado foi reconhecido como Ponto de Cultura.
O imóvel, entretanto, sofreu problemas estruturais e deixou de ser utilizado. Segundo Asa, há expectativa de recuperação do espaço.
“De lá para cá isso virou patrimônio. Hoje nós somos ponto de cultura, é patrimônio imaterial. O grupo existe com as suas dificuldades, com os seus relevos, que sobem e descem, mas está persistindo ainda e a gente mantém”, explicou Asa Filho ao Acorda Cidade.
A “assustadora” Pedra do Judeu
A cultura de Tiquaruçu, porém, não termina quando os pandeiros são guardados. Ela também aparece no São João, nas rodas de samba, na Festa do Vaqueiro, realizada na comunidade de Socorro, com cavalgada até a sede do distrito, e em experiências ligadas à agricultura familiar.

A própria paisagem guarda lugares que os moradores consideram importantes, embora ainda pouco conhecidos. Um deles é a Pedra do Judeu, localizada a cerca de dois quilômetros da sede do distrito e associada a histórias antigas da comunidade e à área onde teria existido uma antiga igreja conhecida como Igreja do Tanque da Roça.
🔍Também há relatos antigos de que corpos que não se decompunham no cemitério eram levados para perto da pedra. Outras histórias falam de uma antiga estrada que passava pelo local e de pessoas que teriam ouvido clamores e assombrações durante a noite. Não há uma origem precisa para o mito. Estudos sobre a região levantam possibilidades relacionadas ao contexto histórico e ao preconceito contra pessoas de origem judaica no período colonial, mas não permitem afirmar uma explicação definitiva para a história da pedra.
Para Dione, a pedra é um patrimônio que ainda precisa ser mais conhecido e valorizado.
“Todo mundo aqui, entre aspas, sabe o que é a Pedra do Judeu. É um patrimônio que tem histórico, só que não é valorizado. Por quê? Porque nem todo mundo conhece. Ela fica depois do berço do rio, aqui em Tiquaruçu, quando antigamente tinha uma igreja, que se chamava Igreja do Tanque da Roça, e o povo começou a conhecer essa pedra depois daí. Porque viram e acharam diferente.”
Da agricultura ao desafio de permanecer
A relação com a terra está entre as partes mais importantes da história econômica de Tiquaruçu. Asa lembra que o distrito já teve uma produção expressiva de fumo, milho, feijão e farinha, além de uma circulação comercial que movimentava a região e garantia trabalho para muitos moradores.
“Era um comércio pulsante. Tanto é que ninguém ficava sem trabalhar. Todos trabalhavam”, relembrou o cantor.
Com o passar dos anos, esse cenário mudou para o agricultor. Os períodos de seca, a redução das oportunidades no campo e a busca por trabalho fizeram com que muitos moradores passassem a depender de atividades fora do distrito. Feira de Santana se tornou o destino diário de parte dessa população.
A situação também afeta os jovens, que encontram poucas oportunidades de trabalho no próprio distrito. Há pequenos comércios e propriedades, mas não existem grandes empreendimentos capazes de absorver toda a mão de obra. Por isso, muitos estudam ou trabalham fora e alguns deixam até a Bahia em busca de oportunidades.
“Principalmente emprego, que aqui o pessoal vai trabalhar em Feira Santana. Quem trabalha, quem não tem emprego aqui, vai trabalhar em Feira de Santana. Tem pessoas que saem às cinco da manhã para trabalhar em Feira, aí só voltam às 18h, 19h30”, disse Dalva.
Asa Filho também reforçou:
“A juventude aqui vive à mercê da situação que você vê, que tem esses programas do governo onde que é Bolsa Família, Bolsa Escola. Aí depois tem aposentadoria rural, que já vem de muitos anos, que também é um ganho para o trabalhador. Você sabe que a mulher chega aos 60, 58 anos, 56 anos, o homem aos 60, se aposenta primeiro do que por idade, trabalhando no rural. Isso já ajuda no sustento. E também o êxodo é por causa da seca também, as oportunidades. Então a juventude aqui estuda, alguns trabalham, outros trabalham fora daqui, até fora do estado, e isso mantém essa economia. Agora assim, você vê, tem uma indústria, tem uma grande loja, tem um grande mercado, tem uma coisa que gera emprego? Não, não tem. São pequenos comércios e pequenas propriedades”.
Assim como Dalva disse no início da matéria, Asa Filho repetiu, confirmando que a segurança no distrito não é um problema.
“Aqui é um lugar pacífico. Já tivemos três iniciativas de postos policiais. Não tem o que fazer, não tem violência. A polícia está aí para manter a ordem, oficialmente. É como, por exemplo, ali a delegacia fica intacta 2, 3, 4, 5 anos para registrar uma ocorrência. E, como é uma turma que gosta muito de falar, tem mais é um pouco de fuxico do que violência”, brincou.
Apesar da tranquilidade, Dalva fez questão de pontuar os problemas de infraestrutura. Entre as dificuldades citadas por ela estão o saneamento precário e o abastecimento de água. Como uma boa agente de saúde, ela também destacou que a saúde na região precisa melhorar.
“A saúde está muito precária ainda, tem muita coisa que falta ainda em termos de saúde. Demora de exames, laboratório, outros exames que as pessoas precisam. É mais difícil se encontrar vaga para esses tipos de exames que as pessoas necessitam. E aqui a gente labuta muito com a falta de saneamento. Causa também doenças e a gente vive aqui com o esgoto a céu aberto.”
Segundo Dalva, as interrupções no fornecimento de água também fazem parte da rotina de moradores.
“Hoje, graças a Deus, a gente tem água encanada. Mas tem vezes que passa uma semana, duas semanas, um mês sem água. E a gente vai para o rádio, fala, e aí eles vêm. Passa dois dias, colocam a água, e depois volta, novamente falta”, relatou a agente.
O que permanece quando o tempo passa?
Mesmo com as dificuldades, é na relação com o próprio lugar que os moradores encontram razões para continuar preservando suas tradições. A história de Tiquaruçu aparece na igreja onde Maria Quitéria foi batizada, nas lembranças sobre a antiga Vila de São Vicente, na Pedra do Judeu, nas festas religiosas, nas antigas atividades agrícolas e, sobretudo, no Reisado que continua levando pandeiros e cantos pelas ruas.
Dione resume bem esse desejo de continuidade quando fala sobre o que pretende fazer com aquilo que aprendeu com os mais velhos: “Eu pretendo passar o que eu sei, o que eu aprendi no Reisado, para minha filha.”
Asa também enxerga nessa continuidade uma forma de impedir que a história do distrito se perca em meio às mudanças.
“Às vezes uns não querem nem saber o que é isso, querem saber que tem uma festa, mas esquecem que tem uma história por trás disso.”

E talvez seja justamente essa a força de Tiquaruçu: um território que não guarda apenas vestígios do passado, mas encontra maneiras de mantê-lo presente. Uma identidade que atravessa gerações e continua sendo cantada, celebrada, ensinada e vivida por quem mora ali.
Porque há histórias que pertencem a um distrito, mas ajudam a contar grande parte da história de uma Princesa do Sertão.
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