
Uma doença ainda invisível na sociedade, a fibromialgia atinge entre 2 e 5% da população brasileira, sendo a segunda doença reumatológica mais frequente, sobretudo entre as mulheres. Problema de saúde que se espalha sem deixar rastros evidentes, a fibromialgia continua cercada de mitos e preconceitos contra quem sofre com ela.
Em entrevista ao Portal Acorda Cidade, a médica reumatologista Hany Kelly Cruz esclareceu sobre os sintomas, as causas e repercussões da fibromialgia na vida de pacientes diagnosticados com a doença, que ainda é bastante negligenciada dentro dos consultórios.
“A fibromialgia, na verdade, é uma percepção dolorosa inadequada que o indivíduo tem. O sistema nervoso desse paciente entende o meio ambiente como se fossem estímulos agressores e tudo vira dor. É considerada uma síndrome, porque nós precisamos preencher alguns critérios para considerar que o paciente é portador de fibromialgia. Hoje já tem um CID para fibromialgia, já é considerada sim uma doença, mas é uma doença sindrômica”, afirmou.

Em janeiro deste ano, passou a vigorar a Lei 15.176/2025 que reconhece a fibromialgia e outras doenças relacionadas como condições que podem configurar deficiência.
De acordo com a médica Hany Kelly Cruz, com a nova lei, a fibromialgia passou a receber maior evidência, de que realmente existe e causa muitas limitações aos pacientes, que, normalmente, só são encaminhados ao reumatologista, após esgotarem todas as possibilidades.
“Esse paciente, geralmente, fica de médico em médico tentando entender a sua dor. É um paciente que tem uma síndrome dolorosa e, normalmente, dói tudo, o corpo todo, da cabeça aos pés, e esse paciente fica buscando um diagnóstico objetivo com exames de sangue, de imagem, vai ao ortopedista, ao clínico, endócrino, e tenta encontrar um exame alterado e não vem. Porque a fibromialgia é uma alteração de percepção de dor, então nós não temos um exame para dizer que aquele paciente tem fibromialgia, por isso que é sindrômico. O diagnóstico é clínico.”
Ela destacou que em muitos pacientes a doença inflamatória tende a evoluir para a fibromialgia, cujo sintoma principal é a dor que migra para várias partes do corpo.
“Um dia o paciente está com a dor no ombro, outro dia no pé, outro dia no abdômen, na cabeça, mas geralmente é uma dor generalizada, que faz ciclos. Tem dias que o paciente está melhor, tem dias que está pior. Em momentos de estresse, essa dor tende a piorar e é associada à fadiga, insônia, irritabilidade, sintomas de depressão, porque quem convive com dor 24 horas por dia não tem como não evoluir para um sintoma depressivo associado.”
Não é preguiça
A especialista reforça que muitos pacientes com fibromialgia convivem com uma fadiga muito grande, que chega a ser incapacitante. E, muitas vezes, essa pessoa é confundida com alguém preguiçoso. No entanto, quem lida com o problema sabe que, em algumas situações, até lavar os pratos consome tanta energia quanto correr uma maratona.
“A fibromialgia ela não é uma doença autoimune, mas é considerada uma doença inflamatória, com componente neurológico. Saiu um estudo mundial que mostra que a fibromialgia também tem um componente genético. Já tem genes identificados nesse paciente que mostram uma alteração realmente de percepção de dor no sistema nervoso. E tem uma causa fisiológica para isso. Então não é frescura, não é psicológico, é uma dor real que tem motivo para acontecer.”
Esgotamento do sistema nervoso
A reumatologista Hany Kelly aponta que pacientes com fibromialgia possuem grande sensibilidade a estímulos simples do dia a dia, que para outras pessoas podem ser comuns.
“No paciente com fibromialgia, a percepção ambiental se transforma em dor. É como se o sistema nervoso estivesse em alerta o tempo inteiro. Parece que o paciente está sendo agredido. Então, tomar um banho se torna uma dor, o abraço que um colega dá parece uma dor. Então, esse esgotamento do sistema nervoso acontece porque ele fica em alerta o tempo inteiro. O paciente não dorme, o paciente fadiga. É uma síndrome que vira uma bola de neve: eu não durmo, aumenta fadiga e aumenta a dor. A dor não me deixa dormir, vira um ciclo vicioso.”
Predominância em mulheres
A médica reumatologista Hany Kelly Cruz, a fibromialgia é uma doença que predomina nas mulheres, devido a uma questão hormonal que faz com que elas sejam mais sensíveis à dor.
“Geneticamente, nós mulheres somos mais sensíveis à dor do que os homens. A cada dez pacientes diagnosticados com fibromialgia, um é homem. O mais comum realmente são as mulheres. E hoje a gente também vive na sociedade que a mulher assumiu múltiplos papéis. Infelizmente, uma sobrecarga emocional muito grande, um estresse importante e isso também contribui para que o paciente possa vir a desenvolver quadros dolorosos crônicos.”
Devido ao nível de dor e desconforto, esses pacientes podem ser considerados como Pessoas com Deficiência (PCD), em alguns casos. Além disso, existe também relação entre fibromialgia e problemas de saúde mental.
“O paciente com fibromialgia, às vezes, evolui classicamente com dor e posteriormente com quadro depressivo. Mas tem também o paciente que já tinha um quadro depressivo e posteriormente a dor. A gente não consegue ter uma relação causal, mas a gente vê que realmente os pacientes com fibromialgia têm muita depressão e ansiedade, às vezes transtorno do pânico.”
O que causa a fibromialgia
Segundo a especialista, a literatura médica apresenta algumas possíveis causas para a doença, entre elas a questão genética.
“A gente tem pacientes com fibromialgia primária, que é uma fibromialgia pura, e a fibromialgia secundária, que é aquele paciente que tem uma doença prévia. O paciente tem uma hérnia de disco cuja dor é local, ali na coluna, e se não tratada, essa dor se perpetua ao longo dos anos, e de repente em algum momento existe um esgotamento desse sistema nervoso e a dor se generaliza. Então a dor que era para estar ali na coluna, ela começa a se espalhar para o corpo todo, essa é a fibromialgia secundária.”
As doenças inflamatórias, que causam dor crônica são fator de risco para o desenvolvimento da fibromialgia, alerta a profissional de saúde.
“Essas doenças reumáticas, elas podem evoluir pra fibromialgia. Então o paciente com lúpus, artrite reumatóide, uma espondilite anquilosante que não é tratada, a dor e a inflamação ali perpetuada nesse paciente acaba também hiperestimulando o sistema nervoso e podendo desenvolver a fibromialgia. A obesidade hoje também é um fator de risco, porque não é uma doença só de sobrepeso, é uma doença inflamatória. Só para você ter uma ideia, se o paciente que é obeso ou com sobrepeso tem fibro, e ele perde ali em torno de 10% do seu peso corporal, a gente já consegue reduzir a dor em cerca de 50%”, explicou.
Quanto ao tratamento da fibromialgia, a especialista informa que é feito com medicações que auxiliar o paciente a tolerar a doença e ter uma maior qualidade de vida.
“A gente precisa entender o perfil do paciente, se tem muita insônia, por exemplo, e a gente vai investir em tratar, melhorar esse padrão de sono. O paciente que tem sintomas muito depressivos, a gente vai tratar a depressão associada, tem dor importante, então, a gente vai investir o tratamento mais na dor, então, depende muito do sintoma. Mas o principal tratamento, e algumas pessoas acham que é piada, é a atividade física, por incrível que pareça.”
Ela destaca que o tratamento medicamentoso é como uma ponte para o paciente tolerar melhor a atividade física.
“Quando você faz exercício, libera alguns neurotransmissores, por exemplo, a dopamina, que são reguladores de dor. Quando eu fortaleço a musculatura, essa percepção de dor também do nervo, do sistema nervoso periférico, diminui. E quando eu reduzo o peso, eu diminuo as citocinas inflamatórias e a dor diminui. O remédio, ele ajuda o paciente, mas sem exercício, o paciente não consegue sair da crise e da dor, infelizmente, e aí fica, às vezes, aumentando o remédio. Mas, o básico, que é uma alimentação saudável e o exercício físico, o paciente, às vezes, não consegue fazer.”
A médica acrescentou que as dores da fibromialgia acometem, principalmente, mulheres em idade fértil, entre os 25 e 40 anos. Porém, pode estar presente também crianças e idosos.
“A gente não tem uma faixa etária que vai ficar livre da fibro. Mas a gente tem a faixa etária principal que é a mulher em idade produtiva.”
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