25 de September de 2026
Igreja do distrito de Maria Quitéria
Igreja do distrito de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Com raízes que atravessam gerações, o distrito de Maria Quitéria, em Feira de Santana, preserva histórias, tradições e marcas de sua formação. Até 1938, a localidade era denominada São José das Itapororocas, mas passou a receber o nome de Maria Quitéria em homenagem à heroína da Independência da Bahia, nascida na região. Mesmo com a mudança oficial, no entanto, não apagou o nome São José, que ainda é usado pelos moradores para se referir à sede do distrito.

A região também abriga o Quilombo Lagoa Grande, reconhecido pela Fundação Cultural Palmares em 2007, além de casas antigas, manifestações culturais e tradições religiosas. 

Placa do distrito de Maria Quitéria
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Mudança de nome: São José das Itapororocas —> Maria Quitéria

A mudança de nome do distrito, no entanto, não foi aceita de imediato por todos os moradores. Em entrevista ao Acorda Cidade, Elias Enock Gomes de Morais, de 72 anos, aposentado da área de Engenharia Civil e morador do distrito, contou que os antigos moradores e fundadores tinham preferência pelo nome São José, principalmente pela forte ligação religiosa com o local. Segundo ele, também existiam, na época, dúvidas sobre a relação de Maria Quitéria com São José ou Tiquaruçu. Mesmo com a mudança oficial, o nome São José permaneceu associado à sede do distrito.

Elias Enock
Elias Enock | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Elias também contou que seus próprios bisavós foram fundadores do distrito e que sua casa é uma das mais antigas da região. A propriedade foi herdada por ele e permanece na família até hoje.

Uma das casas mais antigas do distrito de Maria Quitéria
Uma das casas mais antigas do distrito de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Quadros na casa de Elias
Quadros na casa de Elias | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

“Meus bisavós são os fundadores daqui. Foi a fazenda deles e aí veio passando de geração em geração: meu bisavô, meu avô, meu pai e nós. Eu agora estou dando continuidade”, contou.

Quadro na casa de Elias
Quadro na casa de Elias | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Não só para Elias, mas também para a comunidade do distrito, o nome “Maria Quitéria”, escolhido em homenagem à heroína da Independência da Bahia, representa um símbolo de cultura e da história local.

“Hoje, para a comunidade, a gente, que é mais ligado à cultura do que os mais antigos, sabe que ela foi uma grande heroína, uma grande pessoa que lutou pela Independência da Bahia. Foi uma grande mulher, assim como Joana Angélica e Maria Felipa. Então, essas mulheres representam hoje a força da mulher em Feira de Santana e São José”, afirmou.

Quem foi Maria Quitéria?

Maria Quitéria de Jesus foi uma mulher que participou da luta pela Independência da Bahia. Nascida em 1792, em São José das Itapororocas, atual distrito de Maria Quitéria, ela deixou a fazenda do pai e se apresentou, vestida em trajes masculinos, como soldado Medeiros no Batalhão dos Voluntários, também conhecido como Batalhão dos Periquitos. Ela se destacou pela bravura e pela facilidade com o manejo de armas, recebendo a honraria de primeiro cadete. 

Monumento em homenagem a Maria Quitéria
Monumento em homenagem a Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Após a guerra, retornou à sua terra natal, mas depois se mudou para Salvador, onde morreu em 1853, em anonimato. 

Hoje, sua trajetória é lembrada como símbolo de força, ousadia e resistência feminina e está marcada em nomes de avenidas, instituições e, claro, no próprio distrito de Feira de Santana.

Como é a vida no distrito?

De acordo com Elias, Maria Quitéria tem uma rotina tranquila. Segundo o morador, o distrito conta com boas escolas, farmácias, hospital, padarias, lanchonetes, bares e igrejas.

bar no distrito de Maria Quitéria
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Policlínica no distrito de Maria Quitéria
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
USF de Maria Quitéria
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

“O comércio sobrevive daqui. O que eu mais gosto aqui é a calma, a serra e poder andar. A vegetação aqui é muito densa. Gosto de escrever, ler e parar no tempo aqui, para esperar o dia chegar.”

cachorros de rua
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Apesar da tranquilidade na região central, Elias contou que as áreas mais afastadas são mais violentas. 

Empregos e moradores

Já em relação ao mercado de trabalho, as oportunidades no próprio distrito são mais limitadas. Segundo Elias, a proximidade com Feira de Santana faz com que muitos moradores trabalhem na cidade. Além disso, o morador afirmou que, atualmente, há muitas pessoas de fora vivendo no distrito, enquanto o número de moradores naturais da região é menor.

Lanchonete
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Loja de roupas
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Vendinha
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Barbearia
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

“Há poucas oportunidades. Não tem muitas fábricas. Tem umas fábricas aí mais afastadas, mas não em São José. Aqui, a oportunidade de emprego é muito viável porque é perto de Feira. São 10, 12 quilômetros de Feira, então todo mundo mora aqui e vai trabalhar em Feira. Cerca de 90% das pessoas daqui moram em São José e trabalham em Feira. As pessoas que moram aqui são mais de fora, poucos filhos da terra. E vem mudando, vem crescendo assustadoramente”, disse Elias.

Ponto de ônibus
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Religião e patrimônio histórico

O padroeiro do distrito de Maria Quitéria é São José. Segundo Elias, os patrimônios religiosos do distrito pertencem à Igreja, que também detém as imagens mais antigas de séculos passados e tombadas pelo patrimônio histórico.

Igreja do distrito de Maria Quitéria
Igreja do distrito de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Ele destacou ainda que a devoção a São José é forte entre os moradores, especialmente durante as festas em homenagem ao padroeiro e os festejos juninos. Segundo Elias, o distrito também reúne muitas pessoas religiosas e, com o passar do tempo, recebeu novas igrejas evangélicas, ampliando a diversidade religiosa da região.

“Os festejos de São João aqui começaram com os grupos de jovens, influenciados pela Igreja. Começaram esses torneios, com festas acontecendo aqui, ali. Aí o prefeito Zé Falcão entrou com o apoio para a gente realizar as festas. Mas, anteriormente, a gente vivia o quê? Tinha de casa em casa. Você saía com a sanfona, fazendo ‘São João passou aqui’, festejava aqui, ali, e tudo isso por diante”, contou Elias.

Cultura

Literatura de cordel, capoeira e uma plataforma para voo de asa-delta também fazem parte do distrito, fomentando ainda mais a cultura e a identidade local. 

Placa no distrito de Maria Quitéria
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

“A literatura de cordel em São José também é representada por Santeiro, que é um cordelista da região. O distrito também tem tradição na capoeira, com grupos que participam de apresentações e do desfile da Independência, no dia 7 de Setembro. Já o Morro de São José tem uma plataforma para voos que funciona até hoje. Dizem que é uma das melhores áreas para voo livre da região, com bons canais de vento e correntes de ar quente, que permitem voos até Itaberaba”, contou Elias.

Biblioteca de Maria Quitéria
Biblioteca de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Biblioteca de Maria Quitéria
Biblioteca de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Agricultura

Segundo Elias, a agricultura já foi mais forte na região, mas atualmente não é tão desenvolvida devido às secas. 

“Hoje, os fazendeiros aqui têm fazendas, e a agricultura dos quilombolas é quem domina essa parte agrícola, mas hoje é pouco, por causa da seca. A lagoa secou, o riacho secou, e tudo isso acabou prejudicando a agricultura aqui.” 

distrito de Maria Quitéria
Distrito de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Aspectos a serem melhorados

A implantação de fábricas no distrito foi um dos pontos defendidos pelo morador. Segundo Elias, a falta de indústrias restringe as oportunidades de emprego na região, além de não conseguir externalizar certos serviços para outras localidades.

“Eu acho que, para melhorar São José hoje, precisa de algumas fábricas. A criação de bovinos e ovinos aqui é muito boa, mas não tem como sair com ela para fora. Você não tem uma câmara fria da prefeitura para manter a carne resfriada. A prefeitura não faz, não mantém. Não tem um mercado municipal. Aqui não tem, tinha, mas desmancharam”, explicou.

Distrito de Maria Quitéria
Distrito de Maria Quitéria | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade
Estrada do distrito de Maria Quitéria
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Quilombo Lagoa Grande

José Caciano Pereira da Silva, conhecido como Nem Capenga, de 71 anos, nasceu na comunidade de Lagoa Grande e acompanhou parte do processo de organização dos moradores. Segundo ele, o movimento começou a ganhar força na década de 1970, a partir, especialmente, do contato com o trabalho do Movimento de Organização Comunitária (MOC).

José Caciano (Nem Capenga), de 71 anos- quilombola
José Caciano (Nem Capenga), de 71 anos- quilombola | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Na época, Caciano e outros moradores participavam de atividades da Igreja e passaram a discutir a necessidade de organizar a própria comunidade. Com o apoio do padre Albertino e após reuniões com os moradores, foi criada a associação comunitária de Lagoa Grande, por volta de 1971.

De acordo com José, a comunidade da Lagoa Grande tem entre 3 mil e 6 mil moradores e, antes de ser reconhecida como quilombola, a comunidade passou por uma luta pela terra. 

Segundo o morador, com o apoio do MOC, da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Bahia (Fetag-BA) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), os moradores se organizaram e descobriram que a área era um território quilombola.

“Desde que o quilombo foi reconhecido, nós estamos brigando pelo reconhecimento das outras comunidades que ainda não foram. O território de Matinha já está quase todo consagrado, porque são muitas comunidades. Aqui, nós temos duas comunidades reconhecidas e oito ou nove ainda aguardando o reconhecimento. É um território do distrito de Maria Quitéria. Ao todo, somos cerca de 10 comunidades quilombolas”, explicou José.

Profissionais

Mesmo com as pequenas oportunidades de emprego na região, José contou que o local conta com professores, agrônomos, técnicos agrícolas, advogados e profissionais da área da construção civil.

“Eu sou um Mandacaru”

José Caciano também vai passar a fazer parte da iniciativa “Eu sou um Mandacaru: Lutas e Resistências da Sabedoria Quilombola”, curso de formação prático-teórica que integra o programa “Escola Nacional Nêgo Bispo de Saberes Tradicionais”. O projeto é uma política do Governo Federal, lançada pelo Ministério da Educação (MEC) e coordenada pelo Instituto Federal da Bahia (Ifba), com o objetivo de valorizar a história e os saberes dos quilombos.

Migrantes em Maria Quitéria

Um exemplo de pessoa de outra cidade que foi morar no distrito é o gerente operacional Alex Silva Souzza, natural de Itabuna (BA). Em entrevista ao Acorda Cidade, ele contou que, por volta de 2007, foi a Feira de Santana para encontrar familiares.

Alex Souzza - Gerente operacional e cantor
Alex Souzza – Gerente operacional e cantor | Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Durante o período em que esteve na cidade, Alex conheceu uma pessoa com quem começou um relacionamento. Com o tempo, construiu uma família, teve filhos e continuou trabalhando com música e viajando. Foi por meio da esposa que ele conheceu o distrito de Maria Quitéria e passou a morar no local.

“Por meio da minha esposa, eu conheci o distrito. A gente, a princípio, morou em Feira e depois migrou para cá. A gente construiu família aqui e eu acabei vindo trabalhar em uma empresa também mais próxima, devido a logística.”

Segundo Alex, a tranquilidade e as áreas verdes estão entre as características que mais lhe agradam no distrito. Ele também destacou a evolução que o local vem tendo. 

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Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Hoje, Maria Quitéria reúne moradores antigos e pessoas que chegaram de outras cidades, enquanto mantém vivas tradições como as festas de São João, o cordel, a capoeira e a devoção a São José. Entre as mudanças e os desafios do distrito, a história de quem vive no local ajuda a contar como a comunidade foi se formando e se transformando ao longo dos anos, sem perder a ligação com suas origens.

Quadro na casa de Elias
Foto: Kaio Vinícius/ Acorda Cidade

Com informações do repórter Kaio Vinicius, do Acorda Cidade.

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