26 de September de 2026
Substância presente no inhame foi encapsulada em nanopartículas para investigar uma possível ação contra câncer – Imagem: Pixabay

Uma proteína extraída do inhame está sendo testada como possível aliada no combate a tumores agressivos. 

Pesquisadores das Universidades Federal do Rio de Janeiro e Estadual do Maranhão encapsularam a substância, chamada tarina, em nanopartículas de gordura para avaliar sua ação contra o câncer de mama e o glioblastoma, o tipo mais agressivo de tumor cerebral.

O trabalho nasceu do uso tradicional do inhame pela medicina popular, que há séculos recorre à planta para tratar diabetes, hipertensão e outras doenças. 

Substância presente no inhame foi encapsulada em nanopartículas para investigar uma possível ação contra câncer

A equipe científica investe há mais de 15 anos no estudo das propriedades medicinais da tarina. Em 2008, conseguiu isolá-la com pureza superior a 90% e determinou sua estrutura tridimensional.

A tarina pertence a um grupo de proteínas vegetais conhecidas como lectinas, associadas a ações antitumorais, antivirais e até inseticidas. 

Ela fica concentrada na parte subterrânea do inhame, o cormo, parte popularmente chamada de caule da planta. 

Depois de isolar a molécula com alta pureza, a equipe determinou sua estrutura tridimensional e registrou a descoberta em banco internacional de dados.

O efeito antitumoral da substância já havia sido apontado por outros grupos de pesquisa. 

A novidade foi a propriedade imunomoduladora da tarina, capaz de regular a resposta do sistema de defesa do corpo, demonstrada pela mesma equipe em estudos publicados em revistas internacionais.

Para aumentar a precisão do tratamento, os cientistas envolveram a tarina em nanolipossomas, estruturas minúsculas de gordura capazes de transportar substâncias até o tecido doente sem agredir células saudáveis. 

Essa nanoformulação inibiu a proliferação da linhagem MDA-MB-231, associada a um tipo agressivo de câncer de mama, e também da U-87 MG, linhagem de glioblastoma associada a prognóstico ruim.

Testes em culturas de células humanas saudáveis não mostraram toxicidade, o que reforça a seletividade do composto. 

Dentro das células tumorais, o material interrompeu o ciclo de multiplicação, ativou vias de morte celular, como apoptose e autofagia, e reduziu a capacidade de migração, sinal de possível efeito contra a formação de metástases.

Estrutura tridimensional da tarina, presente no inhame – Imagem: Divulgação/The Conversation/Patrícia Ribeiro Pereira.

Financiamento e próximos passos da pesquisa

A pesquisa sobre os mecanismos moleculares ativados pela nanoformulação contou com apoio financeiro da Faperj. 

Experimentos com exposições de 24 e 48 horas indicaram que a resposta das células varia conforme o tempo de contato com o composto.

Esse padrão sugere uma liberação sustentada e controlada da tarina pelos nanolipossomas ao longo do tratamento. 

Parte da metodologia usada para testar a eficiência do composto em modelos de glioblastoma contou com a colaboração da University of Michigan e com a participação da Universidade Federal Fluminense na condução dos experimentos.