
A Conferência Viver a Comunidade Surda foi realizada na manhã deste domingo (27) em Feira de Santana, para celebrar trajetórias, compartilhar experiências e ampliar o olhar sobre a educação, a inclusão e a atuação profissional na comunidade surda. O evento faz parte da campanha de Setembro Azul, dedicada à visibilidade, à conscientização e à luta por direitos da comunidade surda.
Em entrevista ao Acorda Cidade, uma das organizadoras do evento, Thaiane Macambira, explicou que o encontro é realizado anualmente, em homenagem à comunidade surda.
“É um convite à comunidade, todas as pessoas, tanto ouvintes como surdas, a vir a esse espaço, a valorizar a Língua Brasileira de Sinais, as pessoas surdas. Também é um momento de discussão dos enfrentamentos, assim também como valorização mesmo, é um momento de trocas.”
De acordo com ela, não há um número exato, mas estima-se que existam entre 100 e 200 pessoas surdas em Feira de Santana.

Segundo Thaiane, a programação segue até o meio da tarde deste domingo (27), com palestras que abordam temas voltados para pessoas com deficiência auditiva e que convivam com pessoas surdas.
“A gente convidou tanto pessoas surdas para palestrar, e também pessoas ouvintes que convivem na comunidade surda há alguns anos. Algumas pessoas que são irmãos de surdos, outras que estão à frente também desse movimento. Então, as palestras serão voltadas nessa temática.”
Thaiane também afirmou que eventos como esse são importantes pois são formas de dar visibilidade para as lutas das pessoas surdas e também para a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
“É muito importante a gente fazer esse convite para que as pessoas conheçam a cultura, a língua. Quanto mais pessoas conhecerem esse movimento e as pessoas surdas, maior o desenvolvimento.”


Além disso, ela disse que a conferência ajuda a ampliar a representatividade de pessoas surdas na comunidade, destacando que muitas pessoas com deficiência conseguem ganhar espaço a partir desses movimentos.
“Se a gente for pegar a história, alguns anos atrás, os surdos eram invisibilizados. Não que eles deixaram de ser, ainda faltam muitas políticas públicas. Mas esses movimentos são muito importantes para que eles tenham acesso à educação, à saúde, à política. Então, quanto mais a gente se unir para esse movimento, melhor.”
Professora destaca importância da inclusão social das pessoas surdas
Emanuele Ressurreição Dantas, professora de Libras, também participou do encontro. Ao Acorda Cidade, a mestre e doutoranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), formada contou como sua jornada com a língua começou e o que a motivou a seguir essa carreira.
“Eu iniciei na Libras porque, quando criança, eu tive contato com uma criança surda. A gente estudou junto e isso despertou o desejo de aprender a língua. Naquela época ainda não tinha Lei de Libras, não tinha acessibilidade, e eu sempre me sentia empática com aquele meu colega surdo. Então isso me motivou a entrar na área. Anos depois eu acabei me formando nessa mesma área também.”

Questionada sobre o que aprendeu com a comunidade surda ao longo dessa trajetória, Emanuele ressaltou a empatia.
“É até difícil falar, porque é tanta coisa. A gente consegue realmente se colocar no lugar do outro, é um movimento de empatia. Eu aprendo porque é uma língua diferente, é uma cultura diferente, então ser ouvinte e estar imerso a esse povo surdo me faz aprender todos os dias mais.”
Quanto à importância da Libras na educação de pessoas surdas, a professora pontuou que, mesmo com a Lei nº 10.436, que reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão no brasil, ainda é necessário garantir que a legislação seja efetivada.
“Temos a legislação que garante a presença do intérprete em sala de aula, então a educação dos surdos precisa ser uma educação bilíngue: Libras como primeira língua e português como segunda língua, já que ele tá aqui no Brasil. Mas garantir a língua dele efetivamente é muito importante.”

Para que a inclusão realmente aconteça nas escolas e no mercado de trabalho, Emanuele ressaltou que é preciso sair da teoria e colocar a lei em prática, oferecendo mais oportunidades para pessoas surdas no mercado.
A professora também convidou o público a conhecer a Associação de Surdos de Feira de Santana, que fica próxima a Escola São João da Escócia, na Avenida Maria Quitéria.
“Eu acredito que é um movimento de cada um se colocar à disposição para aprender a língua e também ter um contato mais com a comunidade surda. “


Por fim, Emanuele reforçou a importância de eventos como a Conferência Viver a Comunidade Surda, especialmente no Setembro Azul.
“São importantes porque a gente tá no mês de setembro, que é o mês da visibilidade surda. Então marcar essa presença dos surdos aqui em Feira de Santana ajuda a valorizar a língua, ajuda a valorizar o povo também.”
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.
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