
A Anvisa analisa 13 casos suspeitos de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, conhecida como Noia, em pacientes que utilizavam canetas emagrecedoras da classe dos agonistas de GLP-1 para diabetes e obesidade.
A doença rara afeta o nervo óptico e pode causar perda permanente da visão de um olho.
A doença ocorre quando pequenos vasos sanguíneos que alimentam o nervo óptico, que liga o olho ao cérebro, ficam obstruídos e privam parte dos neurônios de oxigênio e nutrientes.
Sem irrigação, as células nervosas morrem, o que provoca piora súbita da visão, muitas vezes sem recuperação completa.
Casos de perda de visão associados ao uso de canetas emagrecedoras são investigados pela Anvisa
A questão ganhou visibilidade quando um grupo de pacientes nos Estados Unidos moveu ação judicial contra a Novo Nordisk alegando risco de cegueira.
Uma reportagem do The Wall Street Journal revelou os detalhes desses processos, trazendo o tema para a esfera pública.
Os medicamentos envolvidos nos 13 registros incluem Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro.
A Novo Nordisk sustenta que suas análises de ensaios clínicos não indicaram aumento na incidência de Noia entre usuários de semaglutida e afirma que a relação benefício-risco permanece positiva.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informa que acompanha continuamente os dados de segurança de seus produtos, inclusive questões relacionadas à visão.
Até o momento, nenhum trabalho científico comprovou definitivamente o vínculo entre os medicamentos e a doença ocular.
Um artigo publicado na JAMA Ophthalmology, porém, avaliou mais de 1,6 mil prontuários, e identificou uma chance de quatro a sete vezes maior de Noia entre usuários de semaglutida do que entre pacientes tratados com outras substâncias.
Os próprios autores do estudo reconheceram limitações no desenho da pesquisa para afirmar relação de causa e efeito.
Muitos dos participantes já conviviam com diabetes, condição que por si só pode favorecer o surgimento da doença ocular.
Apesar dessa incerteza, a Anvisa determinou em junho de 2025 que a Noia consta como reação adversa muito rara na bula de medicamentos à base de semaglutida no Brasil.
Como estão distribuídos os casos no Brasil e como os relatos são avaliados?
Os 13 casos integram uma preocupação mais ampla, e desde 2018, o sistema de farmacovigilância da Anvisa acumulou 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica.
A categoria agrupa diferentes tipos de medicamentos associados ao problema, como imunomoduladores, remédios oncológicos, outros antidiabéticos e produtos oftalmológicos.
Entre os agonistas de GLP-1, o Ozempic concentra 5 notificações, seguido por Wegovy com 3 registros, enquanto Wegovy FlexTouch e Rybelsus aparecem com 2 notificações cada.
O Mounjaro tem 1 registro isolado, e a distribuição desses números pode se sobrepor, já que os 13 casos se dividem entre 12 ligados à semaglutida e 1 à tirzepatida.
As notificações chegam ao painel de farmacovigilância da Anvisa por meio de médicos, pacientes e das próprias fabricantes.
Cada caso passa por apuração para verificar se existe de fato relação com o medicamento utilizado.
Até o momento, segundo a agência, todos permanecem na categoria de suspeita, sem confirmação definitiva.
Segundo a Anvisa, a coincidência entre o uso do remédio e o diagnóstico não comprova relação de causa.
Diante desse cenário, o uso desses medicamentos exige prescrição e acompanhamento médico constante, especialmente para quem já apresenta fatores de risco, como diabetes.
Esses remédios também ganharam popularidade por seu apelo estético.