1 de October de 2026
Criatura marinha capaz de ficar até cinco anos sem alimento revela como alguns animais conseguem sobreviver em ambientes extremos – Imagem: Divulgação/Nguyen Thanh Son

No fundo escuro dos oceanos, uma criatura marinha gigante consegue sobreviver até cinco anos sem se alimentar. 

A façanha pertence aos isópodes gigantes, primos distantes dos tatuzinhos-de-jardim, que desenvolveram um corpo capaz de driblar a fome extrema das profundezas. 

Um gene incorporado ao DNA desses animais a partir de uma bactéria funciona como peça central desse mecanismo de economia energética.

A descoberta consta de um estudo publicado na revista Cell, conduzido por equipes do Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências da Universidade Chinesa de Hong Kong e da Universidade Politécnica do Noroeste.

Criatura marinha capaz de ficar até cinco anos sem alimento revela como alguns animais conseguem sobreviver em ambientes extremos

A vida a centenas de metros de profundidade impõe um desafio simples de entender: a comida nunca chega em horário certo. 

Peixes, caranguejos e outros animais mortos afundam até o leito oceânico de forma imprevisível, e não há garantia de quando surgirá a próxima oportunidade de refeição.

Esse cenário de escassez moldou a anatomia dos isópodes ao longo do tempo. 

Com 14 patas articuladas e corpo protegido por um exoesqueleto rígido, esses crustáceos podem chegar a medir entre 28 e 50 centímetros, dependendo da espécie observada no estudo.

O órgão que explica boa parte dessa resistência é o estômago, capaz de ocupar dois terços da cavidade corporal nos isópodes de maiores profundidades. 

Essa proporção transforma o órgão em um verdadeiro depósito de reservas, que permite ao animal acumular grandes quantidades de comida em uma única oportunidade.

Um metabolismo basal extremamente baixo é o que sustenta esse estoque por tanto tempo. 

Mesmo com um corpo relativamente grande, o gasto energético diário permanece reduzido, o que faz uma única refeição abastecer o organismo por longos períodos.

Bactérias presentes no estômago também participam dessa engrenagem de sobrevivência. 

Pesquisadores relacionaram um grupo bacteriano ao processo de armazenamento de gordura nas espécies que habitam regiões mais profundas. 

Numa parceria que parece beneficiar os dois lados: o crustáceo ganha energia extra, e os micro-organismos encontram um habitat estável para se multiplicar.

A comparação entre diferentes populações ajudou a equipe a entender como a pressão do ambiente influencia essa adaptação. 

A espécie Bathynomus jamesi foi encontrada no Mar da China Meridional, enquanto a Bathynomus doederleini habita o Mar da China Oriental, a uma profundidade menor.

Contrapor essas duas espécies a um isópode que vive mais perto da costa permitiu identificar diferenças claras na fisiologia de cada grupo. 

Quanto mais distante da superfície, maior a dependência de mecanismos de economia extrema, como o estômago dilatado e o metabolismo mais lento.

Simulação mostra isópodes de águas profundas e seu ambiente de vida — Imagem: Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências

Um gene vindo de bactéria

O gene batizado de ND1 chamou atenção da equipe justamente por sua origem incomum. 

Em vez de ter surgido dentro da linhagem genética própria dos crustáceos, ele foi incorporado ao DNA dos isópodes a partir de uma bactéria, num processo raro entre animais.

Esse material genético atua como regulador do metabolismo, ajustando o ritmo em que o corpo consome energia. 

Segundo Yuan, pesquisador do Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências, o achado ajuda a explicar como a vida equilibra crescimento e sobrevivência quando as condições do ambiente são hostis.

Esse conjunto de adaptações revela como um animal aparentemente simples consegue enfrentar um dos ambientes mais inóspitos do planeta. 

A cada nova refeição rara, o corpo do isópode gigante entra em modo de economia máxima e garante fôlego para anos de escassez pela frente.