1 de October de 2026
Saiba o que cientistas estão analisando sobre a Terra
Foto: Magda Ehlers/Pexels

Os dias na Terra não têm exatamente a mesma duração de 24 horas por dia ao longo dos anos. A explicação para essas pequenas diferenças estaria bem no interior do planeta, onde a atração gravitacional do núcleo interno sobre o manto interfere no ritmo da rotação terrestre. 

É o que aponta um estudo divulgado na revista científica Nature no dia 23 de setembro. A pesquisa tem assinatura dos físicos Huifeng Zhang e Mathieu Dumberry, ambos ligados à Universidade de Alberta, no Canadá. 

Embora passe despercebida no dia a dia das pessoas, essa oscilação tem consequências para operações que exigem sincronização exata do tempo, caso das redes de energia, telecomunicações e infraestrutura de computação ao redor do mundo.

Foto: Zelch Csaba/Pexels

Por que o dia terrestre varia

A rotação da Terra varia diariamente por causa das marés e sazonalmente por causa dos ventos atmosféricos. Em milhões de anos, o atrito das marés provocado pela Lua alonga gradualmente o dia.

Ciclos de 10 a 70 anos também produzem flutuações de vários milissegundos, e foi justamente esse intervalo que os pesquisadores da Universidade de Alberta decidiram investigar a fundo.

Períodos de aceleração e desaceleração do núcleo externo líquido, que se estendem por algumas décadas, ficam registrados em mudanças no campo magnético terrestre. Para que o momento angular total do planeta permaneça constante, o manto reage no sentido contrário: gira mais devagar quando o núcleo acelera, e o dia se alonga ligeiramente como consequência.

A força que faltava explicar

Perguntas e respostas
P
Por que a duração do dia na Terra varia ao longo dos anos?
R
Porque a rotação da Terra é influenciada por marés, ventos atmosféricos, atrito das marés ao longo de milhões de anos e por ciclos de décadas relacionados a aceleração e desaceleração do núcleo externo líquido; essas variações no núcleo fazem o manto reagir para manter o momento angular total, alterando ligeiramente a duração do dia.
P
Qual mecanismo os autores propõem como responsável pelas variações de longo prazo na rotação terrestre?
R
Os autores propõem que a força gravitacional do manto sobre as saliências do núcleo interno sólido funciona como um torque que acelera ou desacelera a rotação do núcleo interno, transferindo movimento entre camadas e explicando as variações de várias décadas na rotação do planeta.
P
Como a hipótese do torque gravitacional foi testada pelos pesquisadores?
R
Eles cruzaram uma reconstrução da rotação do núcleo interno obtida por ondas sísmicas (que apontou uma oscilação de cerca de 70 anos com inversão próxima de 2010) com modelos do comportamento do núcleo líquido derivados de variações no campo magnético, em um recorte temporal de 1964 a 2019, e constataram que intensidade e momento das mudanças na duração do dia concordaram com o previsto pelo torqu
P
Por que modelos concorrentes não explicaram com precisão as oscilações observadas?
R
Modelos baseados em efeitos eletromagnéticos e no relevo irregular na fronteira entre núcleo e manto não reproduziram com precisão as oscilações; esses efeitos foram interpretados pelos autores como uma resistência ao puxão gravitacional que reduz a amplitude das variações, agindo em sentido oposto ao torque gravitacional.

Décadas de tentativas com hipóteses eletromagnéticas e com o relevo irregular na fronteira entre núcleo e manto não conseguiram reproduzir com precisão as oscilações observadas na rotação terrestre. Faltava identificar qual mecanismo, de fato, transferia o movimento de uma camada para outra.

Longe de ser uma esfera perfeitamente regular, o núcleo interno sólido tem raio de aproximadamente 1.221 quilômetros e apresenta saliências na superfície. Regiões do manto com maior concentração de massa tendem a atrair essas irregularidades, criando um alinhamento natural entre as duas camadas.

Ao se desalinhar dessa posição, o núcleo interno passa a sofrer a ação da força gravitacional do manto, que funciona como um torque capaz de acelerar ou desacelerar o movimento de rotação dessa camada rochosa. Esse empurrão gravitacional, segundo os autores, é o mecanismo que faltava para fechar a explicação sobre as variações de longo prazo na rotação do planeta.

Como o modelo foi testado

Os pesquisadores testaram a hipótese com duas bases de dados independentes. Uma reconstrução da rotação do núcleo interno, obtida por ondas sísmicas e divulgada em 2023, apontou uma oscilação de cerca de 70 anos, com inversão de sentido próxima de 2010.

A segunda base reuniu modelos do comportamento do núcleo líquido, construídos a partir de variações no campo magnético. Zhang e Dumberry cruzaram essas informações num recorte temporal que vai de 1964 a 2019, período amplo o suficiente para capturar o ciclo completo da oscilação.

Tanto a intensidade quanto o momento das mudanças na duração do dia bateram com o que o torque gravitacional previa. Modelos concorrentes, baseados em efeitos eletromagnéticos e atrito na fronteira entre as camadas, seguiram direção praticamente oposta à observada.

Os autores interpretam esses efeitos eletromagnéticos e de atrito como uma espécie de resistência ao puxão gravitacional, capaz de conter a amplitude das variações no dia. As oscilações registradas seriam, assim, o resultado do saldo entre essas duas forças que atuam em sentidos opostos.

O que ainda intriga os cientistas

Órgãos internacionais, como o Bureau Internacional de Pesos e Medidas e a Conferência Geral de Pesos e Medidas, monitoram esse tipo de variação para manter o Tempo Universal Coordenado alinhado à rotação real do planeta.

Linha do tempo
Linha do tempo dos eventos citados na matéria
1964 a 2019
Recorte temporal usado por Zhang e Dumberry para cruzar reconstrução da rotação do núcleo interno e modelos do comportamento do núcleo líquido
2010
Inversão de sentido próxima de 2010 apontada pela reconstrução da rotação do núcleo interno obtida por ondas sísmicas
2023
Divulgação de uma reconstrução da rotação do núcleo interno, obtida por ondas sísmicas, que apontou uma oscilação de cerca de 70 anos
23 de setembro
Divulgação do estudo de Huifeng Zhang e Mathieu Dumberry na revista Nature
próximos anos
Ajustes futuros no calendário de segundos intercalares previstos para os próximos anos, dependentes da capacidade de prever desvios na rotação

Um estudo anterior, de autoria de Duncan Agnew, da Universidade da Califórnia em San Diego, já havia chamado atenção para o comportamento irregular da rotação terrestre e para os desafios que isso impõe à medição precisa do tempo.

O trabalho de Zhang e Dumberry se soma a essa linha de investigação, agora com o mecanismo gravitacional do núcleo interno como peça central da explicação.