1 de October de 2026
Outubro Rosa
Imagem ilustrativa – Foto: Freepik

Todo mês de outubro, laços cor-de-rosa tomam fachadas, campanhas institucionais e redes sociais. O recado se repete com urgência necessária: faça a mamografia, cuide-se, descubra cedo. Salvar vidas, afinal, depende do tempo. No entanto, quando a rotina pesada de consultas, biópsias, cirurgias e quimioterapia finalmente cessa, surge um silêncio para o qual pouca gente prepara essas pacientes. A festa pelo término do tratamento acaba, a família respira aliviada, mas, para a mulher, resta a pergunta diante do espelho: e agora?

Lidar com o câncer de mama não se encerra na retirada do tumor. Na prática, a cura clínica muitas vezes dá início a uma jornada emocional tão desafiadora quanto a física: o luto da própria identidade.

Para a psicóloga hospitalar e especialista em psico-oncologia Viviana Aragão, existe uma lacuna histórica sobre o que acontece com a paciente quando a correria médica arrefece. “O tratamento não modifica apenas a biologia ou a estética do corpo. Ele mexe profundamente no jeito como essa mulher se reconhece, como se relaciona, como lida com o trabalho, o sexo e o próprio futuro”, ressalta a especialista.

Viviana Aragão
Foto: Divulgação

O luto da autoimagem

Historicamente, o seio feminino não é apenas um tecido mamário. Ele carrega camadas de simbologia ligadas à sensualidade, à maternidade, à feminilidade e ao afeto. Uma mastectomia, uma cicatriz expressiva ou a perda da sensibilidade na região não são eventos neutros.

“Surge aí o que chamamos de luto da identidade diante da alteração da autoimagem”, pontua Viviana.

“A paciente se depara com aquele novo contorno e se questiona: quem eu me torno agora? Não dá para reduzir isso a capricho estético. Trata-se de pertencimento, de estranhamento com o próprio reflexo.”

Nem mesmo as cirurgias reparadoras ou de aréola apagam esse impacto de forma mágica. Por mais avançadas que sejam as técnicas de reconstrução mamária, a mama reconstruída não tem o mesmo toque, a mesma temperatura ou a mesma sensibilidade da original. O corpo que enfrentou a doença é outro, e precisa de tempo e escuta para ser acolhido pela sua dona sem a obrigação de fingir que nada aconteceu.

A solidão do “já acabou”

Um dos nós mais difíceis apontados no consultório é a pressão do entorno. Quando amigos e familiares celebram o fim da fase aguda, costumam cobrar, ainda que cheios de boas intenções, um retorno imediato à rotina antiga.

Só que o tratamento frequentemente continua nos bastidores. Muitas mulheres passam anos em hormonioterapia, lidam com menopausa precoce forçada, dores articulares, fadiga crônica, oscilações do humor, e o medo constante da recidiva a cada exame de sangue ou imagem.

“As pessoas dizem ‘pronto, passou, comemore’, enquanto a mulher ainda está tentando entender quem sobrou no meio de tantos remédios e mudanças”, avalia a psicóloga.

“Sobreviver ao câncer não é dar um passo para trás e adotar a postura de que será a mesma de antes. É aprender a conviver com as perdas, que elaboradas e integradas em si, promove um movimento em si de (re)existência com reconstruções de sentido à vida.”

Nas relações íntimas, o impacto costuma ser imediato. A queda no desejo, provocada tanto por alterações hormonais severas quanto pela insegurança com as cicatrizes, ajustamento ao novo corpo exige diálogo aberto e renegociações no casal. Muitas pacientes optam por pausar a vida sexual temporariamente para redescobrir a própria intimidade antes de compartilhá-la com o parceiro. Outras descobrem, inclusive, que não querem voltar para os mesmos empregos ou ritmos de vida que sustentavam antes de adoecer.

O papel do acolhimento contínuo

É nesse vácuo que ganha força no Brasil o conceito de survivorship (cuidados na sobrevivência ao câncer). O modelo defende que a linha de cuidado oncológico ampara a paciente após o tratamento quimioterapico. A reabilitação exige fisioterapia, acompanhamento médico continuado e, de maneira indispensável, assistência psicológica, e nutricional.

Segundo Viviana Aragão, a psicoterapia nessa etapa não serve para tentar vender positividade forçada ou atribuir lições de vida românticas a uma doença estigmatizada:

“Não se trata de ensinar a paciente a ‘superar’ nada como se fosse um desafio motivacional. O papel do acompanhamento é dar um espaço seguro para ela expressar as emoções deste caminho, na convivência com as dores residuais estabelecer a autonomia na busca de viver melhor daqui para frente.”

Para a psicóloga, a campanha do Outubro Rosa ganha muito mais força e verdade quando não para na mamografia. Descobrir cedo salva o corpo. Mas cuidar do luto, da identidade e da saúde mental depois da tempestade é o que realmente favorecerá a retomada da vida a essas mulheres.

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