
Um general francês recebeu, durante as guerras napoleônicas, uma mensagem cifrada que ninguém conseguiu ler por completo durante 217 anos. Agora, uma inteligência artificial reconstruiu o conteúdo exato da carta enviada ao marechal Auguste de Marmont em 1809, algo que historiadores e criptógrafos não haviam conseguido fazer.
O engenheiro Carter Church usou o modelo GPT-6 Astra da OpenAI para decifrar cerca de 1,3 mil sinais manuscritos com uma mistura de números, letras e símbolos que compunham o código militar da época.
Church publicou o resultado nas redes sociais em 30 de setembro. Segundo ele, o processo levou cerca de seis horas e partiu de uma imagem de baixa resolução e de um comando de texto.
A decifração também corrigiu a data da carta, apresentada como 1807, para março de 1809. A tecnologia identificou ainda o trecho final de uma frase que ficara inacabada nas memórias de Napoleão. A reprodução publicada em 1969 parava após a expressão equivalente a “um punhado de”.
Como o sistema decodificou o texto

O primeiro obstáculo foi transformar a imagem desgastada em dados legíveis. A carta reunia 155 sinais diferentes distribuídos ao longo de 1,3 mil unidades cifradas. A leitura gerou 1.320 unidades e 175 rótulos provisórios antes da reconciliação final.
O sistema primeiro reconheceu os caracteres manuscritos. Só depois buscou padrões de repetição que indicassem a lógica do ciframento e testou possibilidades até chegar a um texto coerente em francês.
O historiador da criptologia Daniel Tant forneceu uma tabela com os prováveis significados de 33 valores de letras. Ela cobria 435 das 1.300 unidades presentes na carta. Para as demais, o sistema fez inferências diretamente sobre a imagem original, sem gabarito prévio.
Recozimento simulado foi o método usado depois da transcrição, uma técnica computacional que experimenta várias soluções e vai mantendo as que melhoram o resultado.
Palavras inteiras como “de”, “que”, “les”, “vous” e “général” apareciam representadas por símbolos únicos, não letra por letra, e cada hipótese era conferida contra a imagem para garantir coerência em todas as repetições do mesmo sinal.
O momento estratégico da guerra
Dias antes da invasão da Baviera pelo Império Austríaco, Napoleão precisava garantir que Marmont soubesse exatamente onde estavam posicionadas as tropas francesas e aliadas. O general comandava cerca de 13 mil soldados na Dalmácia, isolado do restante do exército por território controlado pelos austríacos.
Em 16 de março de 1809, o próprio imperador ordenou que Eugène de Beauharnais, seu enteado e vice-rei da Itália, redigisse a mensagem cifrada para Marmont com os dados de posicionamento militar. Historiadores já conheciam essa instrução, registrada em correspondências de Napoleão publicadas no século 19, mas o conteúdo exato da carta seguia sendo um mistério.
A confirmação por um especialista em cifras
Vinte e quatro linhas de símbolos seguiam uma breve frase introdutória em francês simples, formato típico das cifras militares da época. A reprodução mais conhecida da carta havia sido publicada em 1969 pelo tenente-coronel J. Vilcoq, na Revue historique des Armées, mas o artigo trazia a data errada e não incluía a chave para interpretar os sinais.
Satoshi Tomokiyo, criptógrafo responsável pelo site Cryptiana, que reúne registros de cifras históricas ainda não decifradas, avaliou o resultado gerado pela IA e confirmou sua validade. O site passou a classificar o caso como resolvido.
Church informou ao Live Science que a verificabilidade das soluções era na verdade a parte mais difícil, muito mais difícil do que gerar soluções potenciais, já que a verificação dependia de checagem mecânica, símbolo por símbolo.
O caso reúne, numa única tarefa, habilidades que normalmente exigiriam profissionais distintos: leitura paleográfica, transcrição de manuscritos, pesquisa histórica e criptoanálise. A revisão feita por Tomokiyo foi o que selou o status de “resolvido” para um enigma que resistiu a décadas de tentativas manuais.