6 de October de 2026
Depois de anos de cobrança, arte ganha espaço aos sábados em Feira de Santana
Foto: Arquivo pessoal/Luciano dos Anjos

Durante anos, uma faixa colocada em frente a museus de Feira de Santana carregou uma provocação: “A cidade em guerra e o museu fechado”. A frase fazia parte dos protestos do artista plástico Luciano dos Anjos, que desde 2013 reivindica a abertura dos museus culturais da cidade também aos finais de semana.

Depois de anos de cobrança, arte ganha espaço aos sábados em Feira de Santana
Foto: Arquivo pessoal/Luciano dos Anjos

Mais de uma década depois, parte dessa reivindicação começa a se refletir na rotina dos espaços. Desde julho, o Museu Regional de Arte (MRA), localizado no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), passou a receber visitantes também aos sábados. A mudança amplia as possibilidades de acesso principalmente para quem não consegue visitar o local durante a semana.

E quem aproveitar o novo horário neste sábado encontrará arte feirense em cartaz. Por exemplo, até o dia 9 de outubro, o MRA recebe a exposição coletiva “Entreolhares: Polifonias do Acaso”, que reúne trabalhos de mais de 20 artistas da cidade e tem curadoria de Gaspar Medrado, Luciano dos Anjos e Tatiane Alves. A entrada é gratuita.

Depois de anos de cobrança, arte ganha as portas dos sábados em Feira de Santana
Foto: Divulgação

A mostra reúne diferentes técnicas, formas e perspectivas em torno de uma proposta que cruza imagens, experiências e narrativas entre o planejado e o inesperado. Aos sábados, pode ser visitada das 9h às 12h e das 14h às 17h, horário adotado oficialmente pelo MRA desde 15 de julho. Durante a semana, o museu funciona das 8h às 12h e das 14h às 17h30.

Para Luciano, que acompanhou essa pauta por anos, a mudança representa uma conquista que precisa agora chegar ao conhecimento da população. “É uma grande vitória. Foi uma pauta que a gente lutou por mais de uma década, a abertura dos museus no final de semana, e agora está acontecendo”, disse ao Acorda Cidade.

O artista chama atenção, no entanto, para um novo desafio: fazer com que o público saiba que existe essa possibilidade. Segundo ele, a visitação aos sábados ainda é pequena.

O museu está abrindo agora, mas tem pouca visitação. A gente tem que fazer essa divulgação para que o feirense saiba que os museus estão abrindo aos sábados e vá aos museus.”

Da porta fechada à arte nas ruas

A reivindicação de Luciano começou ainda em 2013. Artista plástico, poeta, escritor e ativista cultural, ele passou a instalar faixas em frente aos equipamentos culturais e em diferentes pontos da cidade para questionar a ausência de funcionamento nos finais de semana.

Depois de anos de cobrança, arte ganha espaço aos sábados em Feira de Santana
Cartaz na Avenida Getúlio Vargas, centro de Feira de Santana – Foto: Arquivo pessoal

Mas o protesto não ficou restrito às portas dos museus. Diante da dificuldade de acesso aos espaços expositivos, o artista decidiu fazer o caminho inverso: levar as obras até o público.

Então, ao longo dos anos, exposições foram montadas em locais de grande circulação, como as avenidas Getúlio Vargas, Fraga Maia e Noide Cerqueira, além do Feiraguay. “Se o feirense não tinha acesso a esse bem, não tinha o museu aberto para visitar, eu levava a arte para a rua, ao encontro das pessoas”, relembra.

A mobilização também chegou ao Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira (MAC Feira). Luciano destaca a realização da exposição “Ocupação”, que reuniu dezenas de artistas, entre nomes já conhecidos e iniciantes. Segundo ele, o movimento contribuiu para a adoção da abertura do MAC aos sábados e também para a implantação de uma rampa de acessibilidade no equipamento.

Para ele, ampliar o acesso significava ainda diversificar quem produzia e quem frequentava aqueles espaços. “A gente convidou artistas renomados e artistas iniciantes. Quando um artista da periferia expõe no museu, ele leva o seu público também”, conta.

No entanto, MAC segue sem previsão de reabertura

Apesar do histórico de funcionamento aos sábados citado por Luciano, o MAC não está atualmente na mesma situação do MRA. O museu municipal teve a visitação suspensa em maio deste ano para passar por um processo de revitalização e reestruturação. Na ocasião, a previsão informada era de retomada do atendimento em julho. condicionada à conclusão dos trabalhos. Procurada pelo Acorda Cidade, a Prefeitura de Feira de Santana, no entanto, informou que ainda não há previsão para a retomada do funcionamento.

Arte que segue ocupando a cidade

Enquanto a discussão sobre o acesso aos museus atravessa mais de uma década, Luciano continua espalhando trabalhos por diferentes espaços de Feira de Santana. Além de integrar a curadoria de “Entreolhares”, no MRA, o artista mantém projetos ligados ao Casarão dos Olhos d’Água, entre eles uma iniciativa em homenagem a Noratinho da Pamonha.

Depois de anos de cobrança, arte ganha espaço aos sábados em Feira de Santana
Foto: Arquivo pessoal

O trabalho dialoga com uma característica presente em sua produção: a incorporação de personagens, símbolos e memórias da cidade. Para Luciano, ocupar museus, galerias ou espaços de circulação pública faz parte de uma mesma tentativa de aproximar a população da produção artística local. “A nossa arte está aí, viva, pulsante na cidade, fazendo história e construindo memórias”, defende.

Reportagem produzida pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira, com supervisão.

Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.