
Durante anos, uma faixa colocada em frente a museus de Feira de Santana carregou uma provocação: “A cidade em guerra e o museu fechado”. A frase fazia parte dos protestos do artista plástico Luciano dos Anjos, que desde 2013 reivindica a abertura dos museus culturais da cidade também aos finais de semana.

Mais de uma década depois, parte dessa reivindicação começa a se refletir na rotina dos espaços. Desde julho, o Museu Regional de Arte (MRA), localizado no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), passou a receber visitantes também aos sábados. A mudança amplia as possibilidades de acesso principalmente para quem não consegue visitar o local durante a semana.
E quem aproveitar o novo horário neste sábado encontrará arte feirense em cartaz. Por exemplo, até o dia 9 de outubro, o MRA recebe a exposição coletiva “Entreolhares: Polifonias do Acaso”, que reúne trabalhos de mais de 20 artistas da cidade e tem curadoria de Gaspar Medrado, Luciano dos Anjos e Tatiane Alves. A entrada é gratuita.

A mostra reúne diferentes técnicas, formas e perspectivas em torno de uma proposta que cruza imagens, experiências e narrativas entre o planejado e o inesperado. Aos sábados, pode ser visitada das 9h às 12h e das 14h às 17h, horário adotado oficialmente pelo MRA desde 15 de julho. Durante a semana, o museu funciona das 8h às 12h e das 14h às 17h30.
Para Luciano, que acompanhou essa pauta por anos, a mudança representa uma conquista que precisa agora chegar ao conhecimento da população. “É uma grande vitória. Foi uma pauta que a gente lutou por mais de uma década, a abertura dos museus no final de semana, e agora está acontecendo”, disse ao Acorda Cidade.
O artista chama atenção, no entanto, para um novo desafio: fazer com que o público saiba que existe essa possibilidade. Segundo ele, a visitação aos sábados ainda é pequena.
O museu está abrindo agora, mas tem pouca visitação. A gente tem que fazer essa divulgação para que o feirense saiba que os museus estão abrindo aos sábados e vá aos museus.”
Da porta fechada à arte nas ruas
A reivindicação de Luciano começou ainda em 2013. Artista plástico, poeta, escritor e ativista cultural, ele passou a instalar faixas em frente aos equipamentos culturais e em diferentes pontos da cidade para questionar a ausência de funcionamento nos finais de semana.

Mas o protesto não ficou restrito às portas dos museus. Diante da dificuldade de acesso aos espaços expositivos, o artista decidiu fazer o caminho inverso: levar as obras até o público.
Então, ao longo dos anos, exposições foram montadas em locais de grande circulação, como as avenidas Getúlio Vargas, Fraga Maia e Noide Cerqueira, além do Feiraguay. “Se o feirense não tinha acesso a esse bem, não tinha o museu aberto para visitar, eu levava a arte para a rua, ao encontro das pessoas”, relembra.
A mobilização também chegou ao Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira (MAC Feira). Luciano destaca a realização da exposição “Ocupação”, que reuniu dezenas de artistas, entre nomes já conhecidos e iniciantes. Segundo ele, o movimento contribuiu para a adoção da abertura do MAC aos sábados e também para a implantação de uma rampa de acessibilidade no equipamento.
Para ele, ampliar o acesso significava ainda diversificar quem produzia e quem frequentava aqueles espaços. “A gente convidou artistas renomados e artistas iniciantes. Quando um artista da periferia expõe no museu, ele leva o seu público também”, conta.
No entanto, MAC segue sem previsão de reabertura
Apesar do histórico de funcionamento aos sábados citado por Luciano, o MAC não está atualmente na mesma situação do MRA. O museu municipal teve a visitação suspensa em maio deste ano para passar por um processo de revitalização e reestruturação. Na ocasião, a previsão informada era de retomada do atendimento em julho. condicionada à conclusão dos trabalhos. Procurada pelo Acorda Cidade, a Prefeitura de Feira de Santana, no entanto, informou que ainda não há previsão para a retomada do funcionamento.
Arte que segue ocupando a cidade
Enquanto a discussão sobre o acesso aos museus atravessa mais de uma década, Luciano continua espalhando trabalhos por diferentes espaços de Feira de Santana. Além de integrar a curadoria de “Entreolhares”, no MRA, o artista mantém projetos ligados ao Casarão dos Olhos d’Água, entre eles uma iniciativa em homenagem a Noratinho da Pamonha.

O trabalho dialoga com uma característica presente em sua produção: a incorporação de personagens, símbolos e memórias da cidade. Para Luciano, ocupar museus, galerias ou espaços de circulação pública faz parte de uma mesma tentativa de aproximar a população da produção artística local. “A nossa arte está aí, viva, pulsante na cidade, fazendo história e construindo memórias”, defende.
Reportagem produzida pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira, com supervisão.
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