10 de October de 2026
Imagem: Pixabay

A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, foi anunciada na quinta-feira (8 de outubro) como vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2026, em cerimônia realizada às 8h (horário de Brasília) pela Academia Sueca. Carson é celebrada por misturar livremente narrativa, poesia e ensaio e por recriar a tradição clássica sob uma ótica contemporânea.

Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia Sueca, afirmou que o prêmio premia a ousadia e a inventividade de Carson, capaz de reinterpretar os clássicos com leveza e criar novos caminhos para a literatura atual. Carlberg relatou ter falado rapidamente com a escritora por telefone após o anúncio e contou que ela se encontrava na Islândia, onde ouvia o vento.

Anne Carson faz diálogo incessante com os clássicos

Em certa ocasião, Anne Carson disse: “É mais fácil contar uma história de como as pessoas ferem umas às outras do que daquilo que as une”.

A observação resume o desafio que ela transformou em literatura: captar o sofrimento e o conflito, além dos vínculos que ligam as pessoas, e reinventar a forma da escrita.

Carson transita entre a narrativa, a poesia e o ensaio e dialoga com os textos gregos. Seu primeiro livro publicado no Brasil foi lançado em 2017: “O método Albertine” (Jabuticaba), que investiga o desejo a partir de “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust.

O diálogo mais frequente de Carson, porém, é com a Grécia Antiga. Em “Eros, o doce-amargo: um ensaio” (Bazar do Tempo) e “Autobiografia do vermelho” (Editora 34), ela reimagina mitos clássicos com olhar contemporâneo.

Este último romance em versos transforma Gerião, monstro da mitologia cujo gado Hércules roubou em um de seus 12 trabalhos. Na versão de Carson, ele se torna um jovem gay, vermelho e com asas, que vive na América do Norte no século XX e enfrenta o sofrimento de amar o filho de Zeus.

No Brasil, o livro já rendeu duas adaptações para os palcos: uma assinada por Bruno Siniscalchi em 2024 e outra por Daniela Thomas, encenada no começo deste ano.

A raridade de suas palavras

Carson evita entrevistas, e em 2013, disse ao New York Times que uma experiência negativa com a imprensa, anos antes, a afastou dessa prática. Quando responde por escrito, porém, suas respostas revelam a mesma beleza de seus versos. Uma repórter do jornal britânico The Guardian perguntou a Carson como ela definia poesia.

A resposta condensou sua visão: “Se prosa é uma casa, poesia é um homem pegando fogo atravessando bem rápido a casa.” 

Embora seja conhecida pelo pensamento erudito e pelo diálogo com os clássicos, Carson alcança leitores porque sua forma e seu léxico permanecem simples e acessíveis em boa parte da obra.