11 de October de 2026
Imagem: Pixabay

Uma camada invisível envolve o planeta Terra desde as profundezas do núcleo e barra, sem que ninguém perceba, boa parte da radiação vinda do espaço. Rochas com centenas de milhões de anos guardaram a prova de que essa proteção natural já esteve perto de sumir por completo.

Cristais formados no Brasil e na África do Sul funcionam como uma espécie de registro fóssil da força magnética do planeta em cada período. 

A análise desses minerais, conduzida por geólogos da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, revelou uma fase de fragilidade sem precedentes na história da Terra.

Um período de fraqueza extrema no campo magnético da Terra

Trinta vezes mais fraco do que hoje: assim ficou o campo magnético durante o chamado período Ediacarano, entre 591 e 565 milhões de anos atrás. Essa intensidade reduzida persistiu por pelo menos 26 milhões de anos, o intervalo mais longo e mais frágil já registrado nos estudos geológicos.

A força magnética normalmente funciona como uma barreira contra o vento solar, o fluxo constante de partículas carregadas que o Sol projeta em todas as direções. Sem essa barreira em pleno vigor, partículas solares passaram a alcançar com mais facilidade as camadas superiores da atmosfera terrestre.

A fuga de hidrogênio rumo ao espaço se tornou mais fácil nesse cenário de escudo enfraquecido. Esse gás costuma se unir ao oxigênio para formar água, e, quando ele escapa em maior quantidade, o oxigênio livre se acumula tanto na atmosfera quanto nos oceanos.

Esse acúmulo de oxigênio não passou despercebido no registro geológico do planeta. O momento coincide, segundo a equipe de pesquisadores, com o surgimento da fauna do Ediacarano, criaturas de corpo mole. Sem esqueleto, que já ultrapassavam um metro de comprimento e se deslocavam pelo fundo do mar.

Uma peça a mais no quebra-cabeça evolutivo

Corpos maiores e mais ativos exigem mais oxigênio disponível para se manterem vivos e em movimento. Por isso, a equipe por trás da descoberta propõe que o enfraquecimento do campo magnético tenha somado forças com a fotossíntese das cianobactérias, outro fator já associado ao salto evolutivo daquele período.

A hipótese não substitui explicações anteriores sobre o surgimento da vida animal complexa, ela se junta a elas. O campo magnético, sozinho, não cria vida, mas pode ter preparado as condições químicas que permitiram aos primeiros animais complexos ocuparem o fundo dos antigos oceanos.

O registro encontrado nos cristais do Brasil e da África do Sul mostra que o planeta já passou por momentos de vulnerabilidade extrema e seguiu seu curso. Entender esse episódio ajuda a reconstruir como forças invisíveis do interior da Terra moldaram, há centenas de milhões de anos, os primeiros passos da vida complexa.