As discussões sobre o fim da escala 6×1 reacenderam, nos últimos meses, um debate que vai além da carga horária: o impacto das rotinas intensas na vida pessoal dos trabalhadores. Em meio à discussão sobre redução da jornada e saúde mental no ambiente de trabalho, relatos de cansaço constante, dificuldade de desconexão e abandono de momentos de lazer têm se tornado cada vez mais comuns.
A estudante de jornalismo Juliana Barbosa viveu essa realidade enquanto trabalhava com marketing em regime 6×1. Na época, ela precisava conciliar a rotina profissional com a faculdade e outras demandas do dia a dia.
“Minha rotina era bem puxada. Eu trabalhava na escala 6×1 e sentia que praticamente vivia em função do trabalho. Os horários acabavam ocupando quase todo o meu dia, então eu precisava encaixar faculdade, tarefas pessoais e descanso no pouco tempo que sobrava”, relatou.
Ao Acorda Cidade, Juliana relatou que o maior desafio da rotina era a sensação constante de cansaço e a dificuldade de ter um descanso de qualidade. Com apenas um dia livre na semana, o tempo acabava sendo utilizado para resolver pendências acumuladas.
Mesmo nos momentos livres, Juliana relata que o desgaste físico e mental dificultava atividades simples do cotidiano, e que muitas vezes, faltava disposição até para aproveitar hobbies e momentos de lazer. “Às vezes até existia um tempinho livre, mas eu já estava tão cansada que não conseguia aproveitar como queria. Faltava disposição até para fazer coisas simples que eu gosto”, disse.
A estudante também destacou que a vida social frequentemente precisava ser deixada em segundo plano. Como cursava faculdade ao mesmo tempo em que trabalhava, o pouco tempo disponível era direcionado principalmente aos estudos.
Depois de deixar a escala 6×1, Juliana percebeu mudanças significativas na qualidade de vida.
Hoje eu sinto que consigo ter mais equilíbrio entre trabalho, estudos e vida pessoal. Passei a ter mais tempo para descansar, cuidar de mim e aproveitar momentos que antes eu simplesmente não conseguia viver direito”, afirmou.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 entrou em uma etapa decisiva em outubro. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e prevê dois dias de descanso, já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.
Na quinta-feira (8), a proposta passou pela terceira das cinco sessões de discussão necessárias antes da votação em primeiro turno no plenário. Para ser aprovada, a PEC precisa de pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores, em dois turnos. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que a primeira votação pode ocorrer nesta semana.
Senado Federal – Foto: Davi Cerqueira/Acorda Cidade
A tramitação ocorre em meio ao segundo turno das eleições presidenciais, disputado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que têm posições divergentes sobre a proposta. Lula defende a redução da jornada e tem cobrado apoio à PEC. Flávio Bolsonaro, por outro lado, critica a forma como o debate vem sendo conduzido e já defendeu uma alternativa baseada em maior flexibilidade nas jornadas.
O cenário também ganhou um novo componente após o primeiro turno das eleições para o Senado. O PL elegeu 19 novos senadores no primeiro turno e chegará a 28 integrantes na Casa a partir de fevereiro de 2027, formando a maior bancada partidária do Senado. Os novos parlamentares, porém, não participam da atual votação da PEC, já que os mandatos começam no próximo ano.
Além da disputa eleitoral, a discussão sobre jornada ocorre em paralelo a mudanças nas regras de proteção à saúde no trabalho. Desde 26 de maio de 2026, está em vigor a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passaram a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. Sobrecarga, pressão excessiva e outros fatores relacionados à organização do trabalho passaram a integrar a discussão sobre saúde e segurança dos trabalhadores.
Os impactos da sobrecarga
A psicóloga clínica Ana Cristina Macedo Sampaio, especialista em Neurociência do Comportamento, explica que uma relação saudável com o trabalho depende da capacidade de estabelecer limites e preservar espaços pessoais fora da rotina profissional.
Uma relação saudável com o trabalho não significa dividir o dia em fatias perfeitas no relógio, como se a vida fosse uma planilha matemática. O equilíbrio real tem a ver com a qualidade da nossa presença em cada momento”, contou ao Acorda Cidade.
Segundo a especialista, um dos pilares mais importantes é a chamada “desconexão real”, ou seja, a capacidade de se desligar mentalmente das demandas profissionais após o expediente. “Não é apenas deixar de responder mensagens profissionais fora do expediente, mas conseguir fazer a transição mental. É fechar a porta do trabalho e abrir a porta da sua vida pessoal.”
Ela também destaca que o descanso não deve ser visto como privilégio ou recompensa, mas como parte fundamental da manutenção da saúde física e emocional.
“Investir em momentos que nutrem a sua saúde, segurança e bem-estar é o que garante a sua capacidade de continuar produzindo e vivendo bem.”
Para Ana Cristina, o problema começa quando o trabalho deixa de ocupar apenas uma parte da rotina e passa a consumir os demais espaços da vida.
Uma relação saudável acontece quando o trabalho é uma parte importante da sua vida, mas não a sua vida inteira.”
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, somente em 2025, mais de 546 mil benefícios previdenciários foram concedidos por transtornos mentais e comportamentais no Brasil. Entre os principais motivos de afastamento estão transtornos de ansiedade, episódios depressivos e reações ao estresse grave.
Em meio às discussões sobre jornadas de trabalho, especialistas apontam que o debate não envolve somente produtividade ou economia, mas também qualidade de vida, descanso e a possibilidade de existir para além das obrigações profissionais.
Esta reportagem foi produzida com informações apuradas pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira e da jornalista Daniela Cardoso, ambos do Acorda Cidade.
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