
Eles questionam, contestam e querem entender o porquê das regras. Às vezes, tarefas simples do dia a dia, como tomar banho, podem se tornar uma verdadeira ‘queda de braço’ entre pais e filhos, com os dois lados lutando para ver quem consegue dobrar primeiro o ‘adversário’.
A realidade é que frases como ‘eu mando e você obedece’ já não se encaixa com tanta facilidade no quebra-cabeça da geração atual e nas formas mais modernas de educar.
Para a psicóloga Laiana Passos, especialista em educação parental, as novas gerações têm acesso à tecnologia desde cedo. Com isso, o grande volume de informações e cobranças que há alguns anos não existiam no ambiente escola e em casa impõem grandes desafios à educação e imposição de limites.
“Elas são cobradas e têm demandas diferentes de tempos atrás, onde a infância era muito diferente do que é agora. Hoje as crianças são mais questionadoras, porque elas têm mais esse acesso à informação. Então, o não somente não serve mais. Elas querem saber o porquê, elas precisam de justificativa. O contexto, o porquê e as limitações que muitas vezes os pais não querem fornecer.”

O uso excessivo de telas é outro fator que tem prejudicado o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
“Nós não podemos tirar totalmente as telas das crianças, porque nós adultos estamos nesse contexto, mas a gente precisa controlar. O uso excessivo traz uma liberação de dopamina rápida, informações aceleradas. Já existem estudos científicos que mostram que ativações excessivas cerebrais influenciam na aprendizagem, no comportamento e na interação com o outro. Essa é uma problemática que a gente recebe no consultório cada vez mais.”
Autoridade X autoritarismo
Dizer não para tudo, educar com rigidez, nem sempre traz os melhores resultados. De acordo com Laiana Passos, autoridade e afeto precisam caminhar juntas.
“Os pais hoje têm muita dificuldade em ofertar essa autoridade, porque acham que vão machucar os sentimentos das crianças, que vão magoar de alguma forma, mas as crianças precisam entender que o amor, o afeto dos responsáveis vai estar ali, mas que ele tem regras, que ele tem uma rotina a ser seguida, e que isso é determinado pelos adultos.”
Ela orienta os pais como colocar limites aos filhos sem autoritarismo.
“As crianças precisam ter um diálogo aberto com os pais, e os pais precisam mostrar que eles vão escutar, que a criança precisa sentir que ela tem esse canal aberto. As crianças não podem sentir medo dos pais, elas precisam se sentir acolhidas para que elas consigam ter essa via de comunicação.”
É importante também tentar fugir dos rótulos e entender que a infância traz desafios próprios dessa fase. Além disso, é preciso evitar a permissividade.
“Os pais se perdem muito quando é tudo liberado sem fiscalização. É preciso equilíbrio, a gente não pode levar sempre na autoridade ou ser permissivo demais. Os pais precisam sempre ter essa autoanálise, de equilibrar. O que pode prejudicar a criança? Então, sempre pesar, se esse uso excessivo está desequilibrando, se o comportamento está sendo excessivo, então, sempre se policiar nesse sentido, de observar mesmo a sua criança.”
A especialista enfatiza que atualmente as crianças são hiperestimuladas e desenvolvem cada vez mais cedo o poder da argumentação, uma vez que também analisam o mundo ao seu redor de uma maneira diferente das crianças de antigamente.
“Muitas vezes, as pessoas querem comparar, mas as crianças de hoje elas têm, elas vivem em um mundo diferente do que era séculos atrás. Elas têm demandas diferentes e questões emocionais diferentes, que estão muito atreladas também às telas, que trouxeram aí problemáticas emocionais significativas.”
Laiana Passos destaca que as crianças precisam se afastar mais do mundo virtual e voltarem a viver a infância ‘de verdade’.
“As crianças precisam brincar, não atrás de uma tela, elas precisam brincar de verdade e viver o mundo. E quero deixar esse recado para os pais, que não tenham medo de dar limite, não tenham medo de colocar as regras, porque as crianças precisam entender que o mundo é regido pelos adultos, pelos responsáveis, por mais que eles tenham escolha, desejos, mas ainda não sabem, o cérebro ainda não é maturado para que eles entendam a importância de cada coisa”, aconselha.
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Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade.
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