
Um computador de bordo e os sistemas integrados de uma nave espacial receberam energia ao mesmo tempo pela primeira vez em Milão. A OHB Italia realizou o teste integrado da Ramses, missão conduzida pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), em 21 de setembro. A operação representa uma etapa decisiva antes do lançamento.
A nave foi concebida para aproximar-se do asteroide Apophis e acompanhá-lo antes, durante e depois de sua passagem próxima à Terra, prevista para 13 de abril de 2029. O objetivo não é desviar o corpo celeste, que não oferece risco real de colisão, mas usar esse encontro raro como laboratório natural para aprimorar tecnologias de defesa planetária.
O calendário apertado da missão

A Ramses enfrenta um prazo incomum no setor aeroespacial, e apophis passará a aproximadamente 32 mil quilômetros da superfície terrestre, altitude inferior à de satélites em órbita geossíncrona. A nave precisa chegar lá dois meses antes desse encontro. Por isso, o lançamento está marcado para a primavera de 2028, com chegada estimada em fevereiro de 2029.
A ESA qualifica o projeto como uma corrida contra o tempo: toda a construção precisa ser concluída em menos de quatro anos desde o início da fase principal de montagem. A OHB Italia monta o módulo central em Milão, enquanto a ArianeGroup prepara o módulo de propulsão no Centro de Propulsão Orbital, na Alemanha.
Os dois módulos serão integrados na primavera de 2027, no centro de testes da ESA nos Países Baixos, e depois, começarão os testes completos.
O que a gravidade terrestre fará com Apophis
O asteroide tem aproximadamente 375 metros de diâmetro, e sua passagem próxima à Terra alterará características ainda desconhecidas. A gravidade terrestre modificará sua órbita ao redor do Sol e mudará seu padrão de rotação. Também provocará forças de maré capazes de deslocar material na superfície, revelando detalhes da estrutura interna do corpo celeste.
Medições anteriores afastaram qualquer chance de colisão nesse encontro e por pelo menos um século. A Ramses se posicionará a cerca de 1 quilômetro de distância, documentando todas essas mudanças. A nave levará também dois CubeSats, pequenos satélites que ampliarão as observações, com um deles tendo possibilidade de pousar na superfície de Apophis.
Por que estudar um asteroide sem risco real
O propósito é transformar esse encontro seguro em conhecimento aplicável. Compreender como um asteroide responde à influência gravitacional de um planeta fornecerá dados críticos para operações futuras caso outro corpo celeste fosse identificado como ameaça real à Terra. Tecnologias, processos de decisão e procedimentos operacionais testados nessa missão poderiam ser acionados rapidamente numa emergência verdadeira.
Um asteroide do porte de Apophis passa tão próximo da Terra apenas uma vez a cada 5 mil a 10 mil anos. A Nasa, reconhecendo a oportunidade de estudo, já redirecionou a espaçonave OSIRIS-APEX para também observar Apophis após sua passagem.
Por isso, Apophis funciona como um laboratório natural: um cenário seguro para aprender técnicas e tecnologias de defesa planetária sem risco imediato ao planeta.