12 de October de 2026
Maternidade após os 40 anos avança e já soma centenas de partos em Feira de Santana; entenda riscos e cuidados
Aleteia Almeida, aos 42 anos, durante e após a gestação de seu segundo filho – Foto: Arquivo pessoal

Adiar a maternidade deixou de ser uma decisão incomum entre as brasileiras. Seja pela carreira, pela busca por estabilidade financeira ou simplesmente por uma decisão pessoal, mais mulheres têm chegado aos 40 anos ainda planejando ter filhos. O assunto voltou às discussões após a jornalista Maju Coutinho anunciar, aos 48 anos, a gravidez do primeiro filho, Malik, mas os números retratam que o movimento vai além dos casos de famosos.

Maju Coutinho anuncia primeira gravidez aos 48 anos e revela nome do bebê
Foto: Reprodução/Redes sociais

No cenário nacional, dados do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o número de partos de mulheres com 40 anos ou mais no país passou de 57.983, em 2003, para 106.263 em 2022, um crescimento de aproximadamente 83% em duas décadas.

Em Feira de Santana, os números também ajudam a dimensionar essa realidade. Dados preliminares do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc), encaminhados ao Acorda Cidade, apontam que, entre janeiro e agosto de 2026, o Hospital Estadual da Criança (HEC) registrou 1.450 nascidos vivos. Desse total, 110 eram filhos de mulheres entre 40 e 49 anos, o equivalente a 7,6% dos registros.

Já no Hospital da Mulher, os registros também mostram a presença de gestantes nessa faixa etária. Em 2025, foram realizados 768 partos de mulheres entre 40 e 49 anos. Já entre janeiro e julho deste ano, a unidade contabilizou 498 partos de mulheres nessa mesma faixa etária.

Por trás desses números estão mudanças que vão além do consultório médico. Projetos profissionais, busca por independência financeira, estudos, relacionamentos e planejamento familiar fazem com que muitas mulheres adiem a decisão de ter filhos.

Ao Acorda Cidade, a ginecologista e obstetra Andrea Alencar afirma que a presença de gestantes nessa faixa etária já faz parte da rotina de quem trabalha com pré-natal.

“Hoje é uma realidade. Nós nos deparamos cada vez mais com mulheres a partir dos 40 anos. Isso se dá por conta da mulher postergar a maternidade. Existem muitas coisas que acontecem ao longo da vida: estudar, independência financeira, até mesmo encontrar o parceiro que seria o parceiro ideal para ela decidir essa gestação”, explica.

Maternidade após os 40 anos avança e já soma centenas de partos em Feira de Santana; entenda riscos e cuidados
Andrea Alencar, ginecologista e obstetra – Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Entre o desejo e o medo

Dona Aleteia Almeida descobriu a maternidade após os 40 anos, e com a descoberta, veio junto uma mistura de desejo, felicidade e insegurança. Ela já havia sido mãe mais jovem quando engravidou novamente, de forma natural, aos 42 anos.

Antes da gestação, porém, enfrentou quatro abortamentos espontâneos e descobriu a Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF), uma doença autoimune que aumenta o risco de formação de coágulos sanguíneos e altera a circulação na placenta, elevando as chances de complicações gestacionais. Depois de passar por tratamento sem conseguir engravidar, chegou a acreditar que não teria outro filho.

“Na verdade, eu já havia desistido de engravidar. Passei por quatro abortamentos espontâneos e, depois de descobrir a síndrome, fiz o tratamento, sem sucesso. Engravidei depois disso naturalmente e tinha muito medo de perder o bebê ou dele ter algum problema de saúde devido a todo esse histórico”, relata.

Maternidade após os 40 anos avança e já soma centenas de partos em Feira de Santana; entenda riscos e cuidados
Aleteia Almeida, aos 42 anos, durante e após a gestação de seu segundo filho – Foto: Arquivo pessoal

A experiência anterior fez com que a segunda gestação fosse vivida de forma diferente. Além da idade, havia o receio provocado pelas perdas anteriores.

“Gravidez não é doença, mas é incômoda e, nessa idade, inspira mais cuidados, um pré-natal criterioso e seguir uma rotina de saúde e exames cuidadosos. Cuidei bastante da alimentação, sono, exercícios físicos e segui até o final da gestação me sentindo muito feliz”, conta Aleteia.

Por que engravidar fica mais difícil?

A idade interfere principalmente na fertilidade feminina. Diferentemente do organismo masculino, que produz novas células reprodutivas ao longo da vida, a mulher já nasce com a reserva de óvulos que terá disponível.

Com o passar dos anos, essa reserva diminui e os óvulos também envelhecem. Além da redução nas chances de gravidez espontânea, aumenta a possibilidade de alterações cromossômicas nos embriões.

“Só o fator idade já é um fator que contribui para maiores riscos na gestação, como, por exemplo, alterações genéticas”, explica Andrea Alencar.

Isso não significa, entretanto, que completar 40 anos torne uma mulher automaticamente infértil. “Ela pode, sim, planejar a sua gestação, ela pode se programar, porém tem que estar atenta aos cuidados em relação a essa gestação. O fato de ter 40 anos não é o único fator que determina que ela não engravide”, ressalta a ginecologista.

A gravidez natural, portanto, continua sendo possível depois dos 40, embora as chances diminuam à medida que a idade avança. A condição de saúde, a reserva ovariana, o histórico reprodutivo e outros fatores individuais também interferem nessa possibilidade.

Congelamento de óvulos amplia possibilidades, mas não é garantia

O caso de Maju Coutinho trouxe outro tema para a discussão. Antes da atual gravidez, a jornalista já havia revelado publicamente que congelou óvulos. Ela não informou, no entanto, se utilizou os óvulos congelados ou algum método de reprodução assistida para engravidar.

O congelamento é uma das estratégias disponíveis para mulheres que desejam preservar a fertilidade para o futuro. O procedimento envolve a estimulação dos ovários com medicamentos, a coleta dos óvulos maduros e o congelamento em laboratório. Quando a mulher decide tentar uma gravidez, essas células podem ser descongeladas e utilizadas em um processo de fertilização in vitro.

Na prática, a técnica permite preservar os óvulos com as características da idade em que eles foram coletados. Por isso, a decisão de congelá-los tende a produzir melhores perspectivas quando é tomada ainda durante uma fase de maior potencial reprodutivo.

Andrea destaca que essa possibilidade pode ser discutida especialmente por mulheres que ainda não pretendem engravidar a curto prazo. “É uma orientação para aquela mulher que não tem um parceiro fixo ou ainda não tem vontade ou condição imediata de engravidar”, afirma.

O procedimento, entretanto, não funciona como uma garantia de maternidade futura. Nem todo óvulo congelado consegue ser fertilizado e nem todo embrião formado consegue se implantar no útero. Além disso, mesmo quando são utilizados óvulos preservados em uma idade mais jovem, o organismo que conduz a gestação continua tendo a idade atual da mulher.

O que muda na gravidez depois dos 40?

Segundo a especialista, a idade materna avançada está associada ao aumento da probabilidade de algumas complicações durante a gestação. Entre as principais estão hipertensão e diabetes gestacional, além de maior ocorrência de prematuridade, restrição do crescimento fetal e parto cesáreo. Também cresce a atenção para alterações cromossômicas no bebê.

Foto ilustrativa gravidez
Foto: Reprodução Agência Brasil/TV Brasil

No entanto, o risco maior não significa que essas complicações necessariamente irão acontecer. A condição clínica anterior da mulher também faz diferença. Duas gestantes da mesma idade podem ter riscos bastante diferentes dependendo, por exemplo, da presença de hipertensão, diabetes ou outras doenças preexistentes. É justamente por isso que o planejamento da gravidez ganha ainda mais importância nessa faixa etária, ressalta a médica.

Pré-natal é peça-chave

Se a idade não deve ser encarada como uma sentença contra a maternidade, ela também não deve ser ignorada. Para Andrea Alencar, um dos principais caminhos para reduzir riscos é iniciar o acompanhamento médico desde o planejamento da gestação e manter um pré-natal criterioso.

“O fator idade não deve ser um fator único de contraindicar uma gestação. O que essa mulher deve fazer é planejar sua gestação, seja ela com 40 mais ou 40 menos, procurar um médico que faça todas as orientações, detecte fator de risco, controlar a hipertensão, controlar a glicemia, fazer atividade física e, principalmente, um pré-natal rigoroso e de boa qualidade”, orienta.

Durante esse acompanhamento, exames e avaliações permitem observar tanto a saúde da gestante quanto o desenvolvimento do bebê, além de rastrear precocemente alterações que possam exigir cuidados específicos.

“A assistência pré-natal, a realização dos exames, os rastreios das doenças, os rastreios das malformações, das cromossomopatias, tudo isso hoje a medicina oferece como ferramenta para a gente evitar complicações”, acrescenta.

Entre a redução natural da fertilidade e os recursos que a medicina passou a oferecer, a maternidade depois dos 40 ocupa hoje um espaço cada vez mais visível, e mostra que a idade, sozinha, não determina o desfecho de uma gestação.

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Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.

Reportagem produzida pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira, com supervisão da jornalista Jaqueline Ferreira.

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