13 de October de 2026
Imagem: Pixabay

A Anvisa liberou o registro do Elecsys pTau217, exame de sangue fabricado pela Roche Diagnóstica em parceria com a Eli Lilly que mede uma forma da proteína tau associada às alterações cerebrais do Alzheimer. O exame oferece aos pacientes brasileiros com sinais de declínio cognitivo uma alternativa menos invasiva de investigação.

Antes da liberação, confirmar o diagnóstico costumava passar por punção lombar ou PET, exame caro e restrito a poucos centros do país. A identificação dessa proteína no sangue não fecha sozinha o diagnóstico de demência por Alzheimer.

O resultado do exame precisa ser interpretado junto com a história clínica do paciente, a avaliação cognitiva, a funcionalidade no dia a dia e outros exames complementares. Sem esse conjunto de informações, um biomarcador isolado pode gerar dúvidas que a medicina ainda não sabe responder com segurança.

O mecanismo por trás do novo exame de sangue para Alzheimer

Duas proteínas perdem o equilíbrio no cérebro de quem desenvolve Alzheimer. Entre os neurônios, formam-se placas da proteína beta-amiloide, enquanto a tau se deforma dentro das células nervosas e compromete seu funcionamento normal.

Esse processo deixa marcas que acabam chegando à corrente sanguínea, e é esse rastro que o Elecsys pTau217 consegue captar. Quando comparado à análise do líquor, o teste mostrou capacidade semelhante para apontar o acúmulo de placas amiloides, usando o PET como referência.

Resultado positivo aumenta a chance de que essas alterações já estejam presentes; resultado negativo ajuda a descartar a hipótese.

Pessoas sem nenhum sintoma não devem buscar o Elecsys pTau217 como parte de um check-up de rotina. A indicação vale para quem já apresenta sinais de perda de memória ou outras alterações cognitivas e passou antes por avaliação médica.

Ter 60 anos ou mais, ter histórico familiar da doença ou temer o próprio futuro não justifica, isoladamente, pedir o teste como ferramenta de triagem. Transformar um biomarcador sofisticado em exame de rastreamento para quem não tem queixa alguma não é recomendado por especialistas.

Existe uma etapa anterior ao exame de sangue, mais barata e já usada por médicos brasileiros: o 10-CS, teste de rastreio cognitivo que leva poucos minutos para ser aplicado. Nele, o paciente informa a data do dia, cita o maior número possível de animais em sessenta segundos e tenta recordar três palavras ditas pouco antes pelo avaliador.

A pontuação final, ajustada conforme a escolaridade de quem responde, indica quais pacientes precisam de investigação mais aprofundada. Apesar de simples e barato, o 10-CS ainda é pouco conhecido entre médicos, o que chama atenção, já que fatores como diabetes, obesidade, colesterol alto, pressão alta e falta de atividade física estão entre os principais gatilhos de risco para demência.

Por que a triagem inicial faz diferença

Pesquisa divulgada em 2025 na revista The Lancet Regional Health – Americas apontou que cerca de 60% dos casos de demência no Brasil têm relação com 14 fatores de risco que podem ser modificados ao longo da vida. Esse dado reforça por que identificar sinais precoces importa tanto quanto ter acesso a exames sofisticados.

O Elecsys pTau217 passa a fazer sentido clínico depois que geriatras, endocrinologistas, cardiologistas e clínicos gerais rastreiam esses fatores de risco. Fora desse contexto de avaliação conjunta, o exame de sangue perde a função para a qual foi desenvolvido.

Além do teste sanguíneo, a Anvisa também aprovou um exame de urina capaz de detectar sinais biológicos do Alzheimer em cerca de 10 minutos. A proposta é diferente da do Elecsys pTau217 porque mira justamente a triagem preventiva, servindo para identificar risco da doença décadas antes de qualquer sintoma aparecer.

O acúmulo da proteína beta-amiloide pode começar até 30 anos antes das primeiras manifestações clínicas. O que torna esse tipo de rastreamento precoce relevante para quem busca acompanhamento preventivo, não apenas para pacientes que já apresentam sintomas.

Em termos de custo, o teste de urina deve ficar entre R$ 500 e R$ 600, valor inferior ao dos exames tradicionais, que podem passar de R$ 9 mil.

O biomarcador só tem valor clínico quando interpretado dentro do contexto médico do paciente. Ele nunca deve ser usado como resposta isolada para quem busca apenas tranquilidade.