13 de October de 2026
Imagem: Pixabay

O inhame, alimento presente em sopas e pratos do dia a dia, é alvo de pesquisas que investigam seu potencial contra tumores. O interesse está na tarina, proteína extraída do cormo do tubérculo, a parte subterrânea conhecida popularmente como caule.

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com a Universidade Estadual do Maranhão investiga essa substância há 15 anos. O estudo também envolveu o Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Federal Fluminense, a Fiocruz e a University of Michigan.

Alimento é uma alternativa aos quimioterápicos tradicionais

Tratamentos quimioterápicos costumam atacar células saudáveis junto com as tumorais, o que provoca efeitos tóxicos. Essa falta de seletividade motiva a busca por compostos que ajam de forma mais direcionada, atingindo o tumor sem comprometer tecidos sadios ao redor.

A tarina pertence ao grupo das lectinas vegetais, proteínas já associadas a ações antitumorais, antivirais e inseticidas em diferentes plantas. O uso do taro na medicina popular já incluía tratamentos para diabetes, hemorragia, diarreia, hipertensão e alopecia muito antes de a ciência isolar seus compostos ativos.

Em 2008, a equipe conseguiu isolar a tarina com pureza superior a 90% e mapear sua estrutura tridimensional, um avanço registrado em banco internacional de dados.

A partir desse ponto, a nanotecnologia se destacou como ferramenta para otimizar a entrega de novos medicamentos. O efeito antitumoral da proteína, já conhecido, passou a ser estudado junto com sua ação imunomoduladora, capaz de interferir nas respostas do sistema imunológico.

Para aproveitar esse potencial sem perder eficácia no caminho até o tumor, os cientistas recorreram à nanotecnologia. A tarina foi encapsulada em nanolipossomas, pequenas estruturas de gordura que carregam o composto até a região afetada sem agredir células saudáveis ao redor.

A formulação com tarina encapsulada inibiu a proliferação da linhagem MDA-MB-231, associada a um tipo agressivo de câncer de mama. O mesmo composto também inibiu a linhagem U-87 MG, associada ao glioblastoma, o câncer cerebral mais agressivo. 

Os dois tipos de câncer têm prognóstico ruim. A exposição das células à tarina também reduziu sua capacidade de migração, indicando potencial antimetastático.

Testes em culturas de células humanas saudáveis não indicaram efeitos tóxicos, o que reforça a seletividade da nanoformulação. Essa seletividade diferencia a proposta dos quimioterápicos convencionais, já que o composto age sobre o tumor sem atacar as células ao redor.

Próxima etapa da pesquisa

Com a formulação validada em testes de segurança, os pesquisadores avançaram para entender os mecanismos que a tarina ativa dentro das próprias células cancerosas. O projeto recebeu financiamento da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) nessa fase.

Os experimentos usaram culturas de câncer de mama e de glioblastoma para observar como a proteína interfere no comportamento das células tumorais. A exposição interrompeu o ciclo celular, bloqueando a proliferação e ativando vias de morte celular como apoptose e autofagia.

Entre as pesquisadoras à frente do projeto estão Patricia Ribeiro Pereira, Raiane Vieira Cardoso e Vânia Margaret Flosi Paschoali, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Para garantir eficácia no tratamento do glioblastoma, a formulação precisa atravessar a barreira hematoencefálica, uma membrana seletiva que regula a passagem de substâncias do sangue para o cérebro. Testes indicaram que 20% da formulação conseguiu atravessá-la em 180 minutos, indicando que a formulação ainda pode ser otimizada.

Um estudo dinâmico do proteoma detectou mais de 2 mil proteínas nas células de câncer de mama após tratamento. Os resultados mostraram que inicialmente as células aumentam a produção de proteínas antioxidantes e de reparo, mas após 48 horas começam a expressar proteínas indicadoras de morte celular, além de inibir migração, angiogênese e proliferação.

Os pesquisadores planejam avaliar a eficácia da nanoformulação em esferoides, modelos tridimensionais que simulam tumores e oferecem informações mais próximas da realidade. Também investigarão o potencial imunomodulador da tarina nanoencapsulada. 

Estudos anteriores mostraram que camundongos imunossuprimidos por quimioterápico comum e tratados com tarina na forma livre se recuperavam rapidamente, sugerindo proteção contra efeitos tóxicos que aumentam vulnerabilidade a infecções secundárias.

O consumo puro e simples de inhame não trata o câncer. Os resultados obtidos até agora estão em fase pré-clínica. Ainda são necessários testes em modelos mais sofisticados e estudos em animais antes de avançar para pesquisas clínicas em humanos.