
Vila Flores, cidade com 3,6 mil habitantes na Serra Gaúcha, foi selecionado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para representar o Brasil em um programa internacional que reconhece pequenas cidades onde identidade cultural, inclusão social e sustentabilidade coexistem.
A escolha reflete como a comunidade mantém viva uma forma de viver que resiste ao ritmo acelerado dos centros urbanos modernos. Em 2025, o município registrou 30,5 mil visitantes, consolidando sua presença no turismo regional.
Localizada entre Veranópolis e Nova Prata, Vila Flores atrai visitantes por elementos que seus moradores consideram fundamentais: a espiritualidade que marca gerações sucessivas, o pão assado diariamente em um casarão centenário, bebidas envelhecidas conforme receitas antigas e um modo comunitário de receber que transforma turistas em convidados para uma celebração genuína.
Raízes de fé que moldaram a cidade
A Capela São Jorge exemplifica a ligação profunda entre religiosidade e identidade local. Construída há 131 anos por imigrantes que enfrentavam vendavais e pragas de gafanhotos, a estrutura de pedra e barro nasceu de uma promessa de proteção divina.
Para os moradores, ela permanece como testemunho vivo de uma devoção que atravessa gerações e se mantém preservada não por imposição legal, mas por escolha cotidiana da comunidade.
Essa presença constante da espiritualidade ajuda a explicar por que Vila Flores chamou atenção na seleção da ONU, na qual concorreu com outras 268 vilas do mundo.
Os filós tradicionais reúnem moradores e visitantes em experiências que vão além da mesa. Quando o sol se põe, lampiões iluminam o ambiente e recriam cenas do cotidiano dos primeiros colonizadores. Não se trata de representação teatral, mas de uma expressão da vida local.
Polenta, histórias de família e bebidas caseiras compõem o ambiente em que moradores e visitantes cantam, brincam e fazem apresentações culturais de forma espontânea.
Não há ensaios prévios nem encenação porque se trata de um sistema de vida da comunidade, marcado por espontaneidade e alegria autêntica. Participar dos filós é entrar em uma festa comunitária, não assistir a um espetáculo montado para uma plateia.
A escolha da ONU reflete compreensão de que crescimento econômico e preservação de identidade não são contraditórios quando uma comunidade decide priorizá-los em conjunto.
Vila Flores provou que é possível ser destino internacional sem perder a alma que a sustenta, mantendo vivas tradições trazidas por colonizadores italianos e consolidando uma rotina que escapa ao frenesi dos grandes centros urbanos.
Os filós funcionam sem encenação prévia porque fazem parte de um “sistema de vida” da comunidade. Não são apresentações teatrais preparadas, mas expressões do cotidiano. Quando participam, os visitantes veem os moradores fazerem o que costumam fazer nas noites de confraternização: cantar, contar histórias de família, brincar e servir polenta e bebidas caseiras.
A ausência de ensaios preserva a espontaneidade de cada encontro.
Essa dinâmica funciona porque o filó faz parte da rotina cultural há gerações. Os participantes não precisam memorizar falas ou movimentos, apenas agir como sempre agiram em reuniões familiares. Para os moradores, a recusa em “encenar algo” torna a experiência autêntica e atrativa para quem busca escapar da artificialidade dos grandes centros urbanos.
Quando a tradição se profissionaliza: a produção de vinho
Nem todas as tradições de Vila Flores mantêm o formato original. A produção de vinho, que começou com freis capuchinhos e depois foi incorporada por famílias locais, “se profissionalizou” ao longo do tempo. A atividade deixou o âmbito puramente familiar e passou a contar com enólogos e processos mais formalizados.
Isso não significa que tenha perdido a conexão com suas origens religiosas e históricas. A preservação da identidade não implica congelamento: algumas práticas evoluem sem abandonar suas raízes.
O visitante se torna convidado porque Vila Flores prioriza o “acolhimento” como valor comunitário. Nos filós e nas experiências de hospitalidade, os moradores não tratam a interação como uma transação comercial, mas como integração em celebrações locais. Segundo a secretária municipal de Turismo, o “jeito simples de viver e a forma de acolher” atrai quem busca aquele “momento para relaxar”.
Isso não elimina o turismo comercial: há hospedagem, comércio e agroindústrias. Mas coloca a dimensão humana em primeiro plano e faz o visitante se sentir convidado a participar da vida da comunidade, não apenas a consumir um produto turístico.