14 de October de 2026
Como a criança se expressa pode revelar sinais importantes
Foto: Pexels

Sinais de ansiedade, depressão e outras dificuldades emocionais podem aparecer, anos antes de um diagnóstico, no modo como crianças e pré-adolescentes montam suas frases. Pesquisadores usaram ferramentas de inteligência artificial para examinar, ao longo de seis anos, o relato de 204 jovens que tinham entre 9 e 13 anos no início do levantamento, buscando ligações entre o jeito de narrar experiências e a saúde mental deles mais adiante.

O trabalho saiu na revista científica Nature Mental Health e chegou a uma conclusão que foge do senso comum: a maneira como as histórias eram contadas disse mais sobre o estado emocional dos jovens do que as próprias emoções relatadas nelas. A equipe deixou de lado a busca por termos evidentes, como tristeza ou medo, e se debruçou sobre detalhes mais discretos da linguagem, incluindo o modo como cada narrativa era estruturada.

O que as palavras pequenas revelam

Foto: Pexels

Pronomes, preposições e conjunções , as chamadas palavras funcionais, ocupam boa parte de qualquer fala e passam despercebidas na maioria das conversas. Elas expõem, no entanto, como alguém organiza mentalmente uma experiência: como se refere a si mesmo e aos outros, conecta fatos e expressa certeza ou dúvida ao contar algo.

Escolhas linguísticas acontecem o tempo todo sem que a pessoa perceba. Essa é a avaliação de Thiago Andrade Pedrosa, psiquiatra do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita, especializado em infância e adolescência: segundo ele, esse tipo de escolha espontânea costuma refletir processos cognitivos e emocionais que o próprio indivíduo não controla conscientemente.

Quando a pergunta direta não funciona

Nomear o que sente é uma tarefa difícil para muitas crianças, o que torna a pergunta direta uma ferramenta limitada na avaliação emocional. Por isso, brincadeiras e desenhos entram como recursos complementares para captar o que a criança vive por dentro.

Pedrosa explica que perguntar diretamente se a criança está triste dificilmente captura toda a experiência emocional dela. Na visão do psiquiatra, observar o jeito de se expressar oferece uma via de acesso mais ampla do que fazer perguntas fechadas.

Um marcador comportamental de vulnerabilidade

Vocabulário, quantidade de palavras e entonação já integram há anos a avaliação clínica de pacientes adultos, e pesquisas anteriores associaram certos padrões de fala à depressão e a experiências traumáticas. Na avaliação de Pedrosa, o diferencial deste trabalho está no público estudado e no tempo de observação.

Estudos com essa faixa etária costumam reunir grupos menores e ter acompanhamentos mais curtos, o que torna o recorte desta pesquisa raro na área. Segundo o psiquiatra, a linguagem pode funcionar como um indicador comportamental de vulnerabilidade antes que ela se torne um quadro clínico.

Risco não é destino

O estudo trata de probabilidade, não de certeza: identificar um padrão de fala em uma criança não significa prever um transtorno psiquiátrico garantido no futuro. Pedrosa pondera que a trajetória de saúde mental resulta de uma combinação de fatores, entre eles experiências estressantes, elementos de proteção e mudanças que ocorrem ao longo da vida.

A pesquisa também identificou conteúdos narrativos associados a maior risco, como histórias marcadas por violência física e conflitos recorrentes. Acompanhar atentamente a forma como a criança narra o próprio cotidiano pode abrir caminho para apoio emocional antes que as dificuldades se agravem.

Pontos-chave sobre o desenvolvimento da criança 
✓
Padrões de linguagem em narrativas infantis podem indicar ansiedade, depressão e outras dificuldades anos antes do diagnóstico.
✓
O estudo acompanhou 204 jovens por seis anos, avaliando como narravam experiências entre 9 e 13 anos no início.
✓
Palavras funcionais (pronomes, preposições, conjunções) revelam organização mental e atitudes de agência, controle e certeza.
✓
A forma estrutural da narrativa (começo, desenvolvimento, fim) sinaliza compreensão de causa e efeito e sensação de controle.
✓
Conteúdos narrativos com violência e conflitos aumentaram risco; menções a apoio, escola e atividades extracurriculares associaram-se a menor risco.

Como as palavras funcionais expõem a organização mental

Pronomes, preposições e conjunções ajudam a mostrar como a criança organiza mentalmente suas experiências. Quando alguém narra algo como sendo fruto da própria ação ou como algo que simplesmente lhe aconteceu, essa escolha revela se ela se vê como agente ativo ou passivo diante dos eventos. Da mesma forma, o modo como conecta fatos, usando palavras que indicam contraste ou simples sequência, mostra como percebe as relações entre acontecimentos.

Essas escolhas não são conscientes, surgem naturalmente na fala, e por isso refletem processos emocionais e cognitivos que escapam ao controle voluntário.

A estrutura da narrativa também importa, e a maneira como a criança começa, desenvolve e encerra uma história sobre algo que viveu pode indicar sua capacidade de compreender causa. E efeito, sua sensação de controle e a forma como interpreta os próprios eventos.

Essas características aparecem de modo recorrente na fala de cada criança, criando uma marca linguística tão pessoal quanto uma impressão digital.

Fatores de proteção que funcionam como antídoto

Apoio familiar, vínculo com a escola, presença de um adulto significativo e acesso a atividades estruturadas, como esporte. Dança e programas extracurriculares, atuam como proteção contra transtornos mentais em crianças e adolescentes expostos a riscos.

Essas experiências criam uma rotina mais previsível, oferecem oportunidades de convivência e estabelecem uma rede de suporte que amortece o impacto de vivências difíceis.

No estudo principal, as narrativas que mencionavam esse tipo de atividade e o contato com profissionais de saúde mental estiveram ligadas a uma chance menor de os jovens desenvolverem transtornos mais adiante. Isso não significa que essas atividades impeçam problemas de saúde mental.

Mas que funcionam como fatores de proteção, oferecendo à criança um senso de pertencimento, competência e segurança para lidar melhor com as dificuldades.