
Ariano Suassuna (1927-2014) deixou um legado que ultrapassa o teatro e a literatura: seus textos também trazem ensinamentos sobre como viver com dignidade, humor e esperança diante da adversidade.
Uma dessas lições aparece em Lições de Realismo Esperançoso, livro organizado por Carlos Newton Júnior, e revela como Suassuna compreendia o mundo e a condição humana.
A frase “Sonho com o dia em que o Sol de Deus irá espalhar a Justiça pelo mundo inteiro” sintetiza o otimismo realista que marca a obra de Suassuna.
A frase não promete uma solução imediata nem apresenta uma utopia desconectada da vida real. É um chamado à ação: manter acesa a esperança e reconhecer que a transformação exige persistência e luta constante.
O que Ariano Suassuna ensinava com essa visão
Ariano Suassuna viveu em um Brasil marcado por desigualdade profunda, censura política e sofrimento social. Sua frase sobre o Sol de Deus e a Justiça não era ingenuidade, era resistência.
Suassuna dizia que o dever dos escritores era colocar, mesmo diante de uma realidade dura e cruenta, um sonho mais belo e alto capaz de mover o povo.
Para ele, sem esperança, não haveria caminho, como afirmou em entrevista ao Almanaque Brasil de Cultura Popular, ano 6, número 61, de abril de 2004.
O dramaturgo entendia que a Justiça não desaba pronta do céu, mas também não é impossível. Via nela um horizonte que motiva e orienta cada ação presente.
Para lidar com o desespero, recorria ao riso e ao sonho, pois reconhecia que nem o cinismo nem a resignação mudam nada. O riso humaniza a dor; o sonho aponta o caminho.
Aplicando o ensinamento no mundo atual
Hoje, diante da desigualdade, da corrupção e da injustiça visíveis nas ruas e nas notícias, a mensagem de Suassuna pede uma tradução prática.
Isso não significa esperar passivamente pela Justiça universal. Significa reconhecer que cada ato contra a desonestidade, cada escolha em favor do próximo e cada recusa da crueldade representam um passo nessa direção.
Manter a esperança sem ilusão, exigir mudanças sem desistir quando elas tardam e encontrar leveza em tempos difíceis: esse é o realismo esperançoso que ele pregava.
O envelhecimento trouxe a Suassuna outra lição, e em entrevista a José Teles no Jornal do Commercio, em 30 de novembro de 2003, ele afirmou que a velhice o tornou mais tolerante. Essa tolerância não era apatia, mas sabedoria: compreender o outro também é uma forma de justiça.
O livro “Lições de Realismo Esperançoso: A Sabedoria e o Riso de Ariano Suassuna”, foi organizado por Carlos Newton Júnior e publicado pela editora Nova Fronteira. Ele oferece um retrato de um homem que nunca parou de sonhar e que entendeu ser função da arte, e da vida, mover as pessoas rumo a algo maior que o presente imediato.