
O Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, é marcado por homenagens aos profissionais responsáveis por formar todas as outras carreiras. Nesta data, educadores como Enedite Braz, de 84 anos, destacam a importância da vocação e do compromisso diário com a sala de aula.
Em entrevista ao Acorda Cidade, a professora, fundadora da Escola João Paulo I, contou que se mudou de sua cidade natal, Baixa Grande, aos 13 anos, após concluir o ensino fundamental. No entanto, a história com a educação veio bem antes disso, por meio dos avós paternos dela, que tiveram 22 filhos.
Meu avô pegou a irmã mais velha, mandou para a cidade para aprender a ler e escrever, e preparou uma sala de aula na fazenda, para a irmã ensinar os irmãos. Isso já naquela época. Quando eu tinha 4 anos de idade, morando na fazenda, minha mãe começou a me ensinar o bê-á-bá, comprou a Cartilha do Povo, e começou a me ensinar e logo eu aprendi a ler.”

Após aprender a ler, a família dela se mudou para a sede de Baixa Grande, onde ela estudou até o quinto ano. Por influência de uma professora, que era de Feira de Santana mas lecionava em Baixa Grande, os pais de Enedite decidiram morar em Feira de Santana.
“Eu tinha uma professora que era de Feira de Santana e ensinava em Baixa Grande. E como eu sempre me destaquei como uma boa aluna, ela começou a conversar com meus pais. Ela disse: ‘Olha, essa menina precisa dar continuidade aos estudos. Se ficar aqui, vai ser dona de casa, vai casar logo’’ Começou a fazer essa brincadeira, fazendo a cabeça dos meus pais. Então, meu pai se entusiasmou.”
Em Feira, Enedite fez o exame de admissão no extinto Colégio Santanópolis e, em seguida, estudou no Gastão Guimarães, onde fez o curso ginasial, que atualmente corresponde ao ensino fundamental II. Já o curso médio, na época chamado de magistério, foi cursado na antiga Escola Normal, prédio onde hoje funciona o Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca).
Desejo de se tornar professora
Apesar da passagem por escolas referência no município, o desejo de se tornar professora veio bem antes disso. Ainda na fazenda onde morava em Baixa Grande, aos 4 anos, Enedite costumava ensinar outras crianças, como os filhos do caseiro e das cozinheiras. Aos 6 anos, ela passou a dar aulas para as próprias bonecas.
Eu fiz uma escola para minhas bonecas, aos 6 anos, mais ou menos. E minhas bonecas tinham um caderno igual ao meu da escola. Então, o meu dever, eu fazia duas vezes, porque eu fazia, copiava o meu dever no meu caderno e copiava o mesmo dever no caderno da boneca.”

Aos sete anos, após ter concluído a primeira Eucaristia, Enedite fez três pedidos a Nossa Senhora.
“Quando eu voltei do altar, me ajoelhei no altar de Nossa Senhora e conversei com ela: ‘Senhor Nossa Senhora, você é a mãe de Jesus. Então, eu quero pedir três coisas: eu quero ser professora, casar e ter muitos filhos, porque eu trazia um trauma muito grande dentro de mim, porque eu sou filha única. Então, aquilo que meus pais não me deram, eu queria fazer, e queria que aquilo se tornasse realidade na minha vida.”
Já como professora, Enedite começou a trajetória com a escola “Meu Doce Lar”, no quintal da casa dos pais dela, o que trouxe diversas críticas, mas com o tempo, se tornou referência no bairro Kalilândia, onde era localizada.
“Quando eu comecei com a escola Meu Doce Lar, algumas, algumas pessoas diziam assim: ‘Ah, escola de fundo de quintal’. Mas a escola de fundo de quintal começou com sessenta e quatro alunos, porque no bairro da Kalilândia, todos já conheciam o meu trabalho como professora de banca. Quando acontecia de ter alguma criança que já tinha passado por várias escolas e não dava certo, costumavam dizer: ‘Leva para a menina da Kalilândia que ela dá jeito.’”
Escola João Paulo I
Em 1972, Enedite fundou a Escola João Paulo I, também em Feira de Santana. Mesmo com os vários desafios, a professora destacou que sente “alegria e felicidade” ao ver tudo que foi construído ao longo de todos os anos de atuação em Feira de Santana.
Sinto-me honrada. Ontem, à noite, na festa dos professores, eu dizia isso para eles: ‘Eu apenas fundei a escola. Mas, se eu não contasse com cada um de vocês, com o amor que vocês dedicam à educação, essa escola não estaria hoje fazendo 54 anos’.”

Atualmente, a escola é conduzida pelas filhas dela, Judinara e Cássia. Segundo ela, é gratificante ver que as filhas seguiram os mesmos passos dela por amor.
A princípio, eu fiquei muito preocupada, porque eu achei que elas estavam deixando os sonhos delas para me satisfazer. Depois, com o tempo, eu percebi que elas também tinham esse amor pela educação. E isso me tranquilizou. E, graças a Deus, eu digo hoje: ‘Hoje vocês dão conta da escola, eu sou auxiliar de vocês.’”
Valorização da profissão
Enedite também chamou Feira de Santana de “mãe adotiva”, destacando que a cidade a acolheu e valorizou seu trabalho.
Eu digo que Feira de Santana é minha mãe adotiva. Eu sou filha de Baixa Grande, mas tenho um amor imenso por essa terra de Feira de Santana, que me acolheu, valorizou o meu trabalho e me aceitou como professora.”
Porém, ela também salientou a falta de valorização do professor em todo o país. “Qual é a profissão que não passou pela mão de um professor? Eu digo que é uma pena que um professor não seja tão valorizado como deveria ser, porque todas as outras profissões existem porque existiu um professor na sua vida.”
Questionada sobre um conselho que daria para os professores que estão começando a ensinar nos dias de hoje, Enedite disse “derrame amor no trabalho que faz”.
“Eu, por exemplo, quando eu quero chamar uma criança à atenção, eu pergunto para ele: ‘Posso lhe ajudar em alguma coisa?’ Às vezes, são até dois alunos que estão brigando aqui no corredor, no pátio. E ali, naquele momento, se acalma e tudo fica tranquilo.”
Com informações do repórter Paulo José, do Acorda Cidade.
Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e Youtube e grupo de Telegram.