19 de October de 2026
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Pesadelos e sonhos bizarros podem ser entendidos, na teoria de Friedrich Nietzsche, como resultado de uma regressão temporária da mente. Em 1878, o filósofo alemão propôs, no livro “Humano, Demasiado Humano”, que o sono reduz temporariamente a memória lógica e devolve ao cérebro um jeito de pensar parecido com o da humanidade primitiva.

Para Nietzsche, sonhar não é um fenômeno místico. Nesse estado de regressão, a mente se afasta das exigências racionais do dia e passa a buscar explicações rápidas e fantasiosas para as sensações do corpo.

Como a memória falha durante a noite e um descanso para a lógica do dia, segundo Nietzsche

A memória é o principal alvo dessa mudança, e durante o sono, a capacidade de associar ideias logicamente funciona mal, de modo semelhante ao raciocínio dos primeiros humanos.

Nesse estado, o cérebro tenta dar sentido a estímulos físicos percebidos pelo corpo adormecido, como uma digestão incomum, a posição de um braço ou o peso do cobertor. Em seguida, cria imagens para justificar cada sensação.

Nietzsche usa o exemplo de alguém que dorme com os pés amarrados e sonha com serpentes enroladas nas pernas. A pessoa aceita como verdade absoluta a primeira explicação que surge, sem questioná-la.

Para Nietzsche, esse tipo de dedução apressada, que liga qualquer sensação a uma causa arbitrária, era comum à humanidade nos primórdios, sempre em estado de vigília. O raciocínio lógico e a checagem rigorosa de causa e efeito surgiram muito depois na história da espécie.

No dia a dia, a mente segue regras rígidas de coerência impostas pela cultura. À noite, essa estrutura recua para um modo antigo de explicação simplificada. Dormir funciona, assim, como uma pausa: o ceticismo do dia se suspende, e a mente volta a aceitar inferências primitivas sem checagem.

Sonhos na origem dos mitos antigos

Nietzsche também ligou essa lógica onírica ao surgimento das primeiras ideias religiosas e culturais. Nos tempos mais remotos, o que se via em sonho era tratado como acesso a um segundo mundo, tão real quanto o da vigília.

A dificuldade de separar a alucinação noturna da realidade levou à divisão entre corpo e alma, da qual nasceram as crenças em espíritos e divindades. Ao sonhar hoje com cenas absurdas, cada pessoa repete, sem perceber, o mesmo exercício que deu origem às mitologias mais antigas da humanidade.