
A zona rural de Feira de Santana, composta por oito distritos, tem enfrentado nos últimos meses uma grave crise hídrica. A escassez de chuvas, aliada aos problemas de abastecimento nas comunidades mais distantes, provocam o baixo nível dos reservatórios, pastagens secas e queda na produção de alimentos da agricultura familiar.
A realidade do homem do campo é acompanhada de perto pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Feira de Santana (Sintrafs). Em entrevista ao portal Acorda Cidade, a presidente da entidade, Adriana Lima, fez um desabafo sobre a situação das famílias, que sem alimentos e água para seu próprio sustento e dos animais, veem escorrer pelas mãos que aram a terra a esperança de dias melhores para si e as próximas gerações.
A sindicalista aponta ainda o temor com a chegada do fenômeno El Niño, que segundo as previsões terá um pico entre outubro e dezembro deste ano, estendo seus efeitos até o início de 2027.

“Foi um ano em que a quantidade de chuva foi bem pequena em nosso município e houve perda das safras. É alarmante. A pastagem animal não existe. Os animais já passam por muitas dificuldades, sendo que é o início desse fenômeno, que vai ser um dos maiores desse ano, com um calor muito intenso”, alertou Adriana Lima.
De acordo com a presidente do Sintrafs, muitos açudes já não têm mais água, assim como as lagoas. Dos oito distritos da zona rural feirense, Humildes é o que está em situação melhor no que diz respeito às chuvas.
“A gente sabe que o distrito de Humildes é beneficiado por pouca chuva que cai, por exemplo, na região do Recôncavo da Bahia. A situação lá é mais razoável. Já os outros distritos, por exemplo, Jaguara, Bonfim de Feira e Ipuaçu (Governador João Durval) passam por mais dificuldades. O distrito de Maria Quitéria também, ele passa por grandes dificuldades”, frisou.
A perda das safras na zona rural de Feira traz um impacto negativo para a economia no município, uma vez que os produtos provenientes da agricultura familiar abastecem as próprias famílias produtoras e consumidores da região.
“Quando o campo não planta, a cidade não janta. Se não tem alimento na nossa comunidade, a gente fica carente no mercado e traz um impacto muito grande na questão da economia e a ausência também de recursos, desses recursos para adquirir esses alimentos, para trazer para a própria mesa e também trazer para os animais que precisam de ração, que também encarece o preço e isso traz uma série de dificuldades para a permanência e a sobrevivência do homem e da mulher no campo.”
Devido à falta de chuva, muitas famílias não conseguiram sequer realizar o plantio de alimentos este ano.
“Isso também traz impacto pela ausência da alimentação da aspartagem para manter os animais. As pessoas que os mantêm estão lá pela fé, já passando dificuldade com a questão da alimentação sendo que a todo momento a gente aqui no sindicato, no mês de julho a gente já chamava atenção em relação a isso. A gente já fez alguns documentos para as instâncias governamentais, pedindo socorro. Já nos reunimos algumas vezes para pontuar essas necessidades, porque se a gente não gritar, infelizmente, a gente não é ouvido e nenhum socorro chega até nós”, afirmou Adriana Lima.
Outro problema que agrava ainda mais a situação das famílias é a interrupção do abastecimento de água nos distritos pela Embasa e as dificuldades de suporte pela prefeitura com os carros-pipa.
“A Embasa não está em todas as comunidades rurais. Tem comunidade que ela está, outras não. Nas comunidades que não tem quem tem que abastecer é a prefeitura, que tem também algumas dificuldades para a questão do enfrentamento por ter comunidade muito distante, tem a questão da logística e uma série de fatores. Tem muitas famílias também que não possuem reservatório, e a gente já cobrou e estamos cobrando também para que possa ter uma campanha e um incentivo para que esses reservatórios possam vir para essas famílias até mesmo para buscar meio de abastecimento.”
A representante sindical salientou que o essencial nesse momento é a vida, pois a fome e a sede não esperam.
“A prefeitura tem tentado sanar a situação, mas a gente vem reivindicando porque a demanda é bem maior. O município é muito grande e por ele ser muito grande as necessidades também são superiores. A gente está vivendo um momento delicado, não é fácil a questão do abastecimento na totalidade, mas dentro da medida do possível estamos tentando pelo menos buscar solução para esse momento de dificuldade que é a questão do fenômeno El Niño”, disse.
Além dos impactos negativos na economia do município, segundo Adriana Lima, o descaso com a zona rural também fragiliza a saúde mental dos agricultores.
“A fragilidade no meio rural traz o impacto da questão da esperança, que às vezes cada vez mais ela vai morrendo diante das dificuldades que nós vivenciamos, ou seja, traz uma série de fatores diversos impactos negativos e principalmente da permanência do homem e da mulher no campo.”
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.
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