
Existe um mito na Medicina de que o coração não dói. Mas, na verdade, este é um dos muitos sinais que o órgão emite quando não está bem. Outras formas dele reclamar também podem ser aperto no peito, que irradia para o braço e ombro esquerdos, o queixo e a mandíbula, além de desconforto na região epigástrica, popularmente conhecida como ‘boca do estômago’.
De acordo com o médico cardiologista André Almeida, que atua em hospitais e clínicas de Feira de Santana, todos esses sintomas clássicos indicam que a pessoa está tendo uma isquemia do coração ou pode estar sofrendo um infarto. Mas, assim como em outras áreas da vida, segundo ele, a Medicina também não é matemática, e os sinais de alerta podem ocorrer de outras maneiras.
“Tem pessoas que podem ter uma isquemia ou um infarto sem sentir essa dor clássica. Ele pode sentir um mal-estar, um suor frio ou desmaiar; pode ter um desconforto mal caracterizado no peito”, explicou durante entrevista ao Acorda Cidade.

O que causa o infarto?
Você sabia que o coração é um músculo que funciona como uma bomba? Ao contrair, ele é o grande responsável por enviar a quantidade de sangue adequada para todo o corpo, como os rins, o cérebro e os demais órgãos.
Segundo o cardiologista, para que o coração cumpra bem a sua função nesse sistema, é preciso que ele receba o líquido, também em quantidade suficiente, através das chamadas artérias coronárias. No entanto, quando há obstrução em uma ou mais dessas artérias, chega pouco sangue ao coração, e o órgão passa a reclamar.
“A pessoa pode ter um aviso, e esse aviso é através de uma isquemia. Quando chega pouco sangue ao músculo do coração, ele responde com a pessoa sentindo dor. Mas também pode sentir outras coisas. Mas existem formas de se avaliar para saber se há alguma obstrução nas artérias do coronário e, por consequente, o sangue não está passando.”
O cateterismo
De acordo com André Almeida, quando um paciente experimenta um ou mais desses sintomas clássicos e chega ao consultório com a reclamação de que está com mal-estar na região do peito, o exame que diagnostica a real causa dessa dor é o cateterismo.
“O cateterismo é um exame fantástico, que tem evoluído cada dia mais e ajudado muitas pessoas. Com um cateter, o médico entra através da virilha ou da artéria do braço, por meio das artérias do organismo até chegar no coração. Quando ele chega no coração, entra na coronária, que é a artéria que leva o sangue para o coração, o médico injeta uma substância, que é um contraste, e através de uma tela, ele vai ver o caminho que esse contraste está percorrendo nas artérias do coração.”
O médico explica que através da tela, ele consegue observar se aquela obstrução que está impedindo o sangue de chegar ao coração é total ou em porcentagens menores.
“Usualmente, quando é uma obstrução superior a 70%, a pessoa pode sentir o desconforto. Não precisa, necessariamente, ter uma obstrução total para dar uma isquemia. Mas para ter um infarto, tem que haver uma obstrução total do fluxo do sangue.”
Essa fotografia do coração que o cateterismo oferece em tempo real traz maior segurança ao diagnóstico e sobre a conduta mais adequada para o tratamento, que pode ser a angioplastia.
“O cateter está lá, injetamos o contraste, mas existe também um dispositivo, como se fosse um balão, na ponta do cateter. Se o médico identificou onde é a obstrução, ele com muita presteza coloca o balão fechado no local onde tem a obstrução e insufla esse balão. Se tem uma placa de gordura ali entupindo a artéria, ele vai comprimir essa placa de gordura contra as paredes da artéria, reabrindo a artéria para que o fluxo do sangue volte a correr de forma adequada, reduzindo a isquemia e, portanto, evitando o infarto.”
Outra possibilidade, após o diagnóstico feito pelo cateterismo é a colocação de um stent, um dispositivo que tem como função manter a artéria aberta.
“O stent já foi uma evolução do cateterismo. Antigamente, você fazia apenas o diagnóstico. No passo seguinte, isso lá na década de 60, 1968 aproximadamente, o primeiro cateterismo com angioplastia no mundo foi feito no Brasil. No Instituto Dante Pazanelli de Cardiologia, pelo doutor Eduardo Souza, o que é histórico. Mas com a evolução, o que é que se viu? Que boa parte dessas placas de gordura, que eram esmagadas contra a parede da artéria pelo balãozinho do cateterismo, e, portanto, pela angioplastia, com o passar do tempo, boa parte dessas placas voltavam a crescer e voltavam a entupir a artéria.”
Com a evolução da tecnologia, após a retirada do cateter com o balão na ponta, é inserido outro cateter com uma pequena mola (stent) no local da artéria obstruída.
“Quando ele chega com o cateter com essa molinha na ponta, ele aperta um dispositivo do lado de fora, quem está manuseando o exame, e essa molinha se expande no diâmetro da artéria. Então, a placa que já foi comprimida contra as paredes da artéria fica ali, marcada e presa pela molinha, que está comprimindo-a contra as paredes, dificultando que ela volte a fechar a artéria do coração.”
Conforme o especialista em Cardiologia, após os procedimentos, o paciente permanece um período em observação e após alguns exames, tendo corrido tudo bem, é liberado para retornar às suas atividades.
“Depois de 24 horas na UTI em observação, são feitos alguns exames, como o eletrocardiograma, os exames de sangue, e se estiver tudo bem, no dia seguinte o paciente já sai da UTI. Ainda pode ficar algumas horas em observação no apartamento, depois segue de alta. Nos primeiros 15 dias, fica ainda em observação, diminui o ritmo de trabalho, e é orientado de forma muito enfática a mudar algumas coisas no seu estilo de vida.”
Fatores de risco
Entre os fatores de risco para problemas ligados ao coração estão o tabagismo, a pressão alta, colesterol alto, açúcar alto no sangue, falta de atividade física e o estresse.
“A pessoa que fuma pode deixar de fumar, controlar o colesterol, o açúcar, pode controlar o sedentarismo, a hipertensão, mas tem um fator de risco que é imutável, e é um fator de risco muito poderoso que pode levar uma pessoa a ter um infarto: o fator genético. Se uma pessoa tem um pai, uma mãe ou um irmão, familiares de primeiro grau, que tiveram um infarto, esse risco é extremamente elevado, e se todos nós temos que nos cuidar, essa pessoa tem que se cuidar à quinta potência. E se além da genética, a pessoa tem todos esses fatores de risco, amigo, se prepara, porque a conta chega.”
De acordo com André Almeida, o estresse precisa ser controlado, uma vez se a carga estiver muito alta, uma pessoa pode sofrer o infarto, ainda que a veia do coração não esteja entupida.
“Uma situação pessoal, a perda de um ente querido, o fim de um casamento muito desejado são situações extremamente estressantes, e a pessoa pode sentir a dor no peito, pode ter todas as características do infarto. Sobem as enzimas do coração, altera o elétron, e quando faz o cateterismo não tem obstrução nenhuma. É a chamada síndrome do coração partido ou síndrome de Takotsubo.”
Ouça a entrevista completa com o médico André Almeida:
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