
No Glaciar Taylor, na Antártida, formações de água avermelhada batizadas de Blood Falls, ou Cachoeira de Sangue, abrigam micro-organismos marinhos de origem muito antiga que seguem vivos e em atividade.
Um estudo baseado em material genético retirado do local constatou que diatomáceas e dinoflagelados, espécies microscópicas de origem marinha, seguem respirando e fazendo fotossíntese mesmo tendo passado milhares de anos sem qualquer ligação com o oceano.
Esse achado amplia o que se sabia até aqui sobre até onde a vida consegue resistir em condições extremas.
Por meio de sequenciamento genético e exame do RNA presente nas amostras, os pesquisadores constataram que esses micro-eucariotas não se tratam de restos fósseis, e sim de populações ainda ativas, que preservam no local traços vivos de eras geológicas remotas.
Como se formou o fenômeno avermelhado da Cachoeira de Sangue?
O derramamento esporádico de salmoura subglacial cria a Cachoeira de Sangue no Glaciar Taylor, localizado nos Vales Secos de McMurdo. A água salgada originou-se de inundações oceânicas em períodos interglaciais, deixando água marinha confinada sob o gelo quando a geleira avançou.
A cor vermelha resulta da concentração de ferro e sal quando a água emerge do gelo e entra em contato com o oxigênio da superfície. O fenômeno foi identificado pela primeira vez em 1911, durante uma expedição britânica, quando o geólogo Thomas Griffith Taylor descobriu o líquido escorrendo pela geleira.
Em janeiro de 2026, pesquisadores verificaram que a expulsão ocorre devido à pressão exercida pelo deslocamento da geleira sobre o reservatório subglacial, forçando a salmoura para cima.
Até recentemente, a ciência conhecia apenas bactérias adaptadas ao ambiente anóxico e escuro sob o gelo. Organismos marinhos mais complexos, pertencentes a linhagens de microalgas, também habitam o sistema e mantêm atividades metabólicas essenciais, conforme provou a nova análise.
Os cientistas identificaram RNA funcional de diatomáceas, como Fragilariopsis e Chaetoceros, além de dinoflagelados da família Gymnodiniaceae. Os dados também revelaram a ativação de rotas biológicas ligadas à fotossíntese, à respiração celular, ao transporte de íons e ao reparo de DNA.
Os mecanismos de osmoadaptação e tolerância ao estresse salino são ativados no momento em que a salmoura sobe à superfície e passa a receber luz solar e água do degelo. Isso comprova que funcionam mesmo em condições extremas.
Populações isoladas por milhares de anos
Mapeamento genético mostrou divergências significativas entre os organismos de Blood Falls e populações que vivem atualmente no Sound de McMurdo, a região oceânica mais próxima.
Essa diferença genômica demonstra que os micro-organismos encontrados no gelo descendem de linhagens isoladas no local há milhares de anos e não foram trazidos recentemente pelo vento ou por correntes aéreas.
Em períodos desfavoráveis, essas células conseguem entrar em dormência ou encistamento, preservando a viabilidade no gelo por longos intervalos. A capacidade de alternar entre atividade e repouso permitiu que essas comunidades marinhas primitivas resistissem ao isolamento extremo, funcionando como testemunhas biológicas vivas de climas passados.
Os resultados abrem caminho para investigar como ecossistemas polares podem se adaptar diante de variações climáticas futuras e auxiliam na busca por biossinaturas em corpos celestes congelados.
A pesquisa que identificou RNA funcional nos micro-organismos de Blood Falls usou uma técnica chamada metatranscritômica, que detecta não apenas o DNA, mas o RNA sendo produzido no momento.
Isso é crucial porque RNA é o material genético “em ação”, quando uma célula está realizando suas funções, ela produz RNA específico para aquela tarefa. Se apenas DNA fóssil fosse encontrado, os organismos estariam mortos. A presença de RNA ativo prova metabolismo em tempo real.
Além disso, os cientistas encontraram evidências de genes relacionados a “reparo de DNA”, o que significa que essas células estão constantemente corrigindo danos causados pelo ambiente extremo. Essa manutenção ativa é outro sinal de que não estão simplesmente adormecidas, mas enfrentando desafios do isolamento e da hipersalinidade de forma contínua.