23 de October de 2026
Molusco invasor se espalha pelo Brasil e ameaça o funcionamento de hidrelétricas
Foto: CTG Brasil / Divulgação

Larvas pequenas e silenciosas de um molusco asiático viajaram em navios cargueiros e hoje se multiplicam sem controle nos rios brasileiros, ameaçando a infraestrutura de energia e os ecossistemas aquáticos do país. O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) já se instalou da Amazônia ao Nordeste, formando colônias tão densas que podem entupir tubulações e danificar sistemas de captação de água.

A espécie se espalhou mais rápido do que os modelos científicos previram. Em 2023, chegou à Amazônia, acelerando a invasão, e estudos confirmam sua presença em novos trechos de rios amazônicos e em bacias do Nordeste, indicando uma expansão sem sinais de desaceleração.

De navios cargueiros a rios do Brasil inteiro

Foto: CTG Brasil / Divulgação

Navios de grande porte carregam água de lastro para manter o equilíbrio durante longas travessias. Essa água abriga microrganismos do porto de saída. A Argentina foi o ponto de entrada na América do Sul em 1991, após a descarga da água em um ambiente novo e sem predadores que controlassem a população.

Ao longo da década de 1990, o molusco já ocupava rios brasileiros e se espalhava pelas redes de embarcações e pelas conexões entre bacias hidrográficas. O ciclo de vida do animal favorece essa dispersão, e na fase larval, com tamanho microscópico, é levado pelas correntes.

Ao crescer, fixa-se de forma permanente em pedras, metais e estruturas de barcos, formando colônias que não se desfazem.

Reprodução acelerada e falta de predadores

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis aponta dois fatores para a rápida multiplicação: a alta capacidade reprodutiva da espécie e a ausência de inimigos naturais no território brasileiro. Sem esse controle biológico, as populações crescem exponencialmente em pouco tempo.

Um levantamento realizado em outubro de 2024 e publicado em dezembro de 2025 na revista Acta Limnologica Brasiliensia documentou 15.849 exemplares por metro quadrado em um trecho do rio Tocantins, no Pará. A diversidade de tamanhos encontrados indicava que a reprodução já havia se estabelecido naquela região amazônica, gerando gerações sucessivas no local.

Amazônia e além: a invasão ganha velocidade

Mapeamentos publicados em 2026 ampliaram a compreensão da invasão ao combinar dados de expedições científicas, relatos de moradores e registros antes dispersos. A presença do molusco foi confirmada nos rios Tocantins e Pará e na ilha de Marajó. A bacia do rio Pajeú, em Pernambuco, também apresenta o organismo invasor, precisamente no reservatório Barra do Juá.

A descoberta do molusco no rio São Francisco, em Minas Gerais, a cerca de mil quilômetros da ocorrência anteriormente documentada mais próxima, revelou uma capacidade de dispersão maior do que se supunha. Pesquisadores da Unimontes cogitam que pequenas embarcações possam ter transportado o molusco entre áreas isoladas, possivelmente transpondo barreiras como barragens, e a hipótese ainda carece de confirmação experimental.

Custos crescentes para o setor elétrico

A limpeza de estruturas, a filtração de sistemas e o tratamento de tubulações exigem equipes de manutenção, desviando recursos que poderiam ser usados na expansão ou modernização da rede. Segundo o Ibama, as obstruções podem provocar interrupções para limpeza e aumentar os custos operacionais.

Eliminar por completo a espécie de rios e reservatórios já colonizados permanece inviável com as tecnologias e orçamentos existentes. As estratégias viáveis concentram-se em monitoramento contínuo, em bloqueio de novos focos de dispersão e na redução localizada de danos a equipamentos críticos em usinas e captações de água.

Cada novo ponto de ocorrência amplia a urgência de ação preventiva, especialmente em regiões onde a infraestrutura hídrica ainda não sofreu impacto direto do mexilhão-dourado.

Pontos-chave
Pontos-chave sobre a invasão do mexilhão-dourado
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Larvas do mexilhão-dourado viajaram em água de lastro de navios e hoje infestam rios brasileiros.
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Espécie já se espalhou da Amazônia ao Nordeste, formando colônias densas que entopem tubulações.
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Reprodução acelerada e ausência de predadores no Brasil favorecem crescimento populacional rápido.
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Registros recentes confirmam presença nos rios Tocantins, Pará, ilha de Marajó, Pajeú (Barra do Juá) e rio São Francisco.
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Erradicação completa em rios e reservatórios ocupados é considerada inviável com tecnologias e orçamentos atuais.
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Controle é possível em estruturas humanas (tubulações, usinas) por limpeza e tratamento, mas a custo contínuo e alto.

Quando o controle é possível (e quando não é)

Pesquisadores e gestores públicos consideram impossível erradicar completamente o mexilhão-dourado de um rio ou reservatório já invadido com as tecnologias e os recursos disponíveis atualmente. Uma vez estabelecida em ambientes naturais, a espécie não pode ser eliminada por completo.

O controle só é possível em estruturas construídas pelo ser humano, como tubulações de hidrelétricas, sistemas de abastecimento e tanques de aquicultura. Nesses locais, a limpeza física, a filtragem, o tratamento químico e outras técnicas de manutenção podem conter o molusco. Mesmo nessas estruturas, porém, o custo é alto e contínuo, sem oferecer uma solução definitiva.

Pequenas embarcações podem realmente levar o mexilhão-dourado de um rio a outro?

A hipótese é considerada plausível por pesquisadores, mas ainda não foi comprovada experimentalmente. O caso mais sugestivo é a descoberta do mexilhão-dourado no rio São Francisco, em Minas Gerais, a cerca de mil quilômetros do ponto de ocorrência anterior mais próximo.

Pesquisadores da Unimontes acreditam que pequenas embarcações possam ter transportado o molusco entre essas áreas distantes, possivelmente transpondo barreiras como a barragem de Sobradinho. Sem confirmação experimental, porém, essa continua sendo uma explicação possível, não uma certeza.