25 de October de 2026
Imagem: Pixabay

Quem treina com regularidade já deve ter esbarrado em algum comentário de academia ligando a creatina à queda de cabelo. O boato circula há anos em fóruns de treino e rodas de vestiário, geralmente amparado por um único trabalho científico citado fora de contexto.

A suspeita nasceu de uma pesquisa publicada em 2009, feita com 20 jogadores de rúgbi na África do Sul. Durante uma semana de saturação, os atletas consumiram 25 gramas de creatina por dia e tiveram uma alta de 56% nos níveis de diidrotestosterona, o DHT.

Depois dessa fase inicial, a dose diária caiu para 5 gramas ao longo de mais 12 semanas, e mesmo assim o hormônio seguiu 40% acima do patamar inicial. Esse dado isolado virou a base de um medo que se espalhou sem muita checagem.

O que o DHT tem a ver com a queda de cabelo?

O DHT é um subproduto da testosterona e consegue se ligar a receptores presentes em certos folículos capilares. Com o tempo, essa ligação pode encolher o folículo e deixar os fios mais finos e curtos, principalmente em quem já carrega predisposição genética à calvície masculina.

Ken Anderson, cirurgião especializado em restauração capilar e professor clínico adjunto de dermatologia na Faculdade de Medicina da Universidade Emory, resume o mal-entendido: a pesquisa original apenas registrou um aumento hormonal, mas foi interpretada como prova de que o suplemento provoca queda de cabelo.

O hormônio subiu, mas continuou dentro da faixa considerada normal em todos os 20 participantes. Ter mais DHT circulando não equivale automaticamente a perder cabelo, o fator decisivo é a sensibilidade genética de cada folículo a esse hormônio, segundo Anderson.

Existe ainda um detalhe que poucos repetem quando comentam o estudo: em nenhum momento os pesquisadores avaliaram a quantidade, a espessura ou a densidade dos fios dos jogadores. O trabalho tratou só de hormônios, sem nenhuma análise capilar associada.

Como a origem genética entra na conta

James Kilgour, dermatologista fundador e CEO do sistema capilar KilgourMD, explica que a resposta ao DHT varia conforme a herança genética de cada pessoa. Dois homens podem ter níveis hormonais parecidos e apresentar resultados completamente diferentes nos fios.

Isso ajuda a entender por que um único experimento, com uma amostra pequena e sem avaliação capilar, não é suficiente para condenar o suplemento. A calvície androgenética depende de múltiplos fatores, e o DHT é apenas uma peça desse quebra-cabeça.

Antes de abandonar a creatina por medo de ficar careca, vale lembrar que nenhum estudo até agora mediu queda de cabelo em quem usa o suplemento. A relação continua sendo uma suposição baseada em dados hormonais de 2009, não em fios perdidos de verdade.

Segundo um estudo publicado na revista Journal of the International Society of Sports Nutrition em 2025, após 12 semanas de suplementação com creatina, não foram observadas diferenças significativas nos níveis de hormônios androgênicos nem na saúde dos folículos capilares em comparação com placebo.