
Há quatro décadas, uma estrutura de pedra submersa perto da ilha japonesa de Yonaguni segue gerando debate entre cientistas.
Foi em 1986 que o instrutor de mergulho Kihachiro Aratake se deparou com o local, durante uma busca por locais propícios à observação de tubarões-martelo. O tamanho descomunal da formação, somado a seus contornos geométricos, é o que sustenta até hoje as dúvidas sobre como ela surgiu.
O Monumento Yonaguni fica submerso a cerca de 25 metros de profundidade e ocupa uma área de cerca de 100 metros por 40 metros, com paredões que chegam a 25 metros de altura.
A formação principal tem patamares, rampas e superfícies planas que se sucedem como uma colossal escadaria submersa, formada por milhares de toneladas de arenito sólido.
Geometria da estrutura submarina semeia dúvidas
A regularidade das formas do monumento é o que mais intriga pesquisadores. Blocos que parecem cortados com precisão geométrica convivem com trechos irregulares, criando um padrão que desafia interpretação única.
Essa aparência organizada reacendeu comparações com sítios arqueológicos conhecidos e com a lendária Atlântida descrita por Platão, além da narrativa mítica do continente de Mu, supostamente erguido no Pacífico.
Depois de anos de pesquisa sobre o local, o geofísico Masaaki Kimura sustenta a tese de que as formações seriam restos de uma cidade antiga, erguida por povos que teriam ocupado a região em um período em que o mar estava em nível mais baixo.
Os defensores dessa hipótese dizem que o assentamento existiu antes da elevação do nível do mar e acabou submerso. Nenhuma das narrativas sobre civilizações perdidas possui comprovação arqueológica, mas ambas seguem associadas ao sítio japonês sempre que o tema ressurge.
A maior parte da comunidade científica aposta em processos puramente naturais para explicar as formas do monumento. O arenito predominante na região tende a se romper em linhas retas, resultado da estratigrafia da rocha combinada com a atividade tectônica intensa que caracteriza aquela área do Japão.
Fraturas, marcas de erosão e a ação de organismos marinhos ao longo de milênios ajudam a esculpir esse tipo de padrão geométrico sem qualquer intervenção humana.
Geólogos, porém, argumentam que a formação não é tão regular quanto muitos afirmam, contradizendo alegações frequentes sobre ângulos retos e simetria em vários pontos.
Esse questionamento reforça que a aparência “perfeita” do monumento não é consensual sequer entre especialistas. Para muitos geólogos, a regularidade que impressiona turistas e pesquisadores tem explicação física, não arqueológica.
Como a estratigrafia natural cria aparência de construção
O arenito que forma a estrutura não rompe de forma aleatória. Quando uma rocha sedimentar tem camadas depositadas ao longo do tempo, essas camadas criam “juntas”, linhas naturais de fraqueza.
Durante eventos geológicos, como terremotos ou erosão pela água, a rocha se quebra preferencialmente ao longo dessas juntas, criando superfícies que parecem talhas precisas.
Além disso, fraturas perpendiculares às camadas formam um padrão de rede que, quando exposto, lembra uma construção arquitetônica com blocos bem encaixados.
A atividade tectônica intensa na região amplifica esse efeito, quebrando a rocha de forma mais uniforme. Organismos marinhos como ouriços-do-mar e conchas escavam pequenas cavidades nas superfícies, enquanto a água cria canais e buracos adicionais.
Esses processos simultâneos esculpem formas geométricas que impressionam quem as observa, mas resultam inteiramente de física e biologia, não de ferramentas humanas.
Aceitar a origem humana da estrutura exigiria reescrever boa parte do que se sabe sobre a história antiga.
Para que tivesse sido mesmo erguida por mãos humanas, a estrutura teria que remontar a um período anterior ao surgimento das primeiras civilizações registradas pela história, há mais de 12 mil anos, o que forçaria uma revisão completa da linha do tempo conhecida da humanidade.
Esse descompasso temporal é um dos principais argumentos usados contra a tese de uma cidade perdida. O interesse pelo Monumento Yonaguni continua a atrair mergulhadores, pesquisadores e curiosos, que retornam regularmente para explorar suas profundezas.
Apesar dos avanços tecnológicos na investigação submarina, ainda não há consenso científico sobre a origem da estrutura.