26 de October de 2026
Mulher cuidando do cabelo
Foto: Reprodução/ Magnific

Existe um momento em que o shampoo favorito parece deixar de funcionar. O corte que durante anos caía perfeitamente começa a perder movimento. A cor que iluminava o rosto já não produz o mesmo efeito e aquele cabelo que costumava aceitar qualquer química passa a responder com ressecamento, quebra ou falta de brilho. A primeira reação costuma ser culpar o produto. Mas e se quem mudou foi o próprio cabelo?

Assim como a pele, os fios não permanecem iguais ao longo da vida. Alterações hormonais, idade, colorações, descolorações, ferramentas de calor, exposição solar, medicamentos, alimentação e até mudanças na rotina podem interferir na aparência e no comportamento do cabelo. Ainda assim, é comum continuar repetindo durante anos os mesmos produtos, tratamentos e procedimentos.

Para Odila Martins, cabeleireira e terapeuta capilar com mais de 20 anos de experiência, reconhecer essas mudanças é o primeiro passo para abandonar a ideia de uma rotina capilar definitiva. “Muitas clientes chegam dizendo que o cabelo não responde mais como antes, mas continuam usando os mesmos produtos, fazendo a mesma química e esperando o mesmo resultado. O cabelo muda e o cuidado também precisa acompanhar esse momento”, explica.

Entre as mudanças mais percebidas ao longo da vida estão a redução da densidade capilar e o afinamento dos fios, características que, embora relacionadas, não significam a mesma coisa. A densidade corresponde à quantidade de fios por área do couro cabeludo, enquanto a espessura está relacionada ao diâmetro de cada fio. Com essas alterações, o rabo de cavalo pode parecer menor, o couro cabeludo ficar mais aparente e determinados penteados perderem volume. Em outros casos, são a textura, a resistência e o comportamento dos fios que se modificam.

Nem toda mudança, porém, deve ser resolvida apenas com uma nova máscara ou corte. Segundo Odila, observar o couro cabeludo é tão importante quanto analisar o comprimento. “Quando existe aumento importante da queda, afinamento progressivo, coceira, descamação ou alguma alteração persistente no couro cabeludo, não devemos simplesmente tentar esconder o problema com um produto cosmético. É preciso entender o que está acontecendo e, quando necessário, orientar a busca por avaliação médica”, afirma.

A coloração também pode precisar ser repensada. Manter exatamente a mesma cor durante décadas não é uma obrigação, principalmente porque pele, sobrancelhas, presença de fios brancos e até o estilo pessoal mudam com o tempo. Isso não significa seguir regras ultrapassadas sobre quais cores uma mulher pode usar depois de determinada idade. A escolha deve considerar tanto o resultado desejado quanto as condições atuais da fibra capilar, incluindo seu histórico de colorações, descolorações e outros procedimentos químicos.

“Não acredito que exista uma cor proibida por causa da idade. O que existe é uma conversa sobre aquilo que valoriza aquela pessoa naquele momento e, principalmente, sobre as condições atuais da fibra capilar. Às vezes, o desejo é continuar muito loira, por exemplo, mas precisamos avaliar o histórico químico e adaptar a técnica e a frequência dos procedimentos para preservar a qualidade dos fios”, explica Odila.

Odila Martins
Odila Martins | Foto: Divulgação

O mesmo raciocínio vale para o corte. Durante muito tempo, mulheres ouviram que deveriam encurtar o cabelo depois de certa idade. Hoje, a questão passa menos pelo comprimento e mais pela maneira como o corte conversa com densidade, espessura, textura, rotina e personalidade.

“Uma mulher pode ter cabelo longo aos 50, 60 ou 70 anos se isso fizer sentido para ela. O corte precisa considerar o fio que temos diante de nós, e não uma regra baseada na certidão de nascimento. Em cabelos que perderam densidade, por exemplo, determinados formatos podem criar uma percepção maior de volume e movimento sem que seja necessário abandonar o comprimento”, afirma.

Há ainda outro fenômeno bastante contemporâneo: o excesso de cuidado. Cronogramas extensos, óleos, ácidos, proteínas, máscaras e uma infinidade de produtos passaram a ocupar os banheiros. Na tentativa de recuperar o cabelo de alguns anos atrás, muita gente começa a acrescentar etapas sem avaliar as condições reais da fibra capilar. O resultado pode ser uma rotina complexa, que nem sempre corresponde às necessidades dos fios.

Para Odila, mais produtos não significam necessariamente um cabelo mais saudável. “Às vezes, simplificar é o que está faltando. Antes de acrescentar mais um produto ou tratamento, precisamos avaliar as condições da fibra capilar, seu histórico químico, os hábitos de cuidado e as necessidades reais daquele cabelo. Em alguns casos, o mais importante não é adicionar tratamentos, mas reduzir as agressões e adequar a rotina. Não existe uma fórmula única para todas as pessoas”, ressalta.

Talvez o maior erro seja continuar tentando recuperar exatamente o cabelo que se tinha dez anos atrás. Ele fazia parte de outro momento, com outra rotina, outra história química e outras características. Entender essa transformação permite fazer escolhas mais conscientes, sem depender de regras rígidas ou de tratamentos que prometem funcionar para todo mundo.

Atualizar os cuidados não significa se render ao envelhecimento nem abandonar o visual de que se gosta. Significa fazer algo muito mais interessante: parar de lutar para que o cabelo volte a ser o que era e começar a entender aquilo de que ele precisa agora.

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