28 de October de 2026
NASA testa inteligência artificial na Lua para ajudar espaçonaves a se orientar
Foto: Reprodução/National Geographic

Ainda em 2026, a Astrolab tem planos de pousar o rover FLIP na Lua levando consigo o Spaceborne Computer-4, numa iniciativa sem precedentes. O módulo de computação avançada, desenvolvido pela Hewlett Packard Enterprise (HPE), foi concebido para funcionar além dos limites do nosso planeta.

A experiência pretende descobrir se é possível colocar inteligência artificial e processamento de alto desempenho em funcionamento no solo lunar, o que poderia beneficiar missões com astronautas no futuro. Como não há sinal de GPS fora da órbita terrestre, o veículo precisa aprender a se localizar sozinho, analisando o relevo e desviando de obstáculos por conta própria.

A missão está ligada ao programa Artemis

Equipe da missão ARTEMIS. Foto: Divulgação/NASA

A NASA escolheu a Astrolab para integrar o Artemis, programa que organiza o retorno de astronautas à Lua. O Spaceborne Computer-4 seguirá a bordo da missão Griffin-1, cuja decolagem está prevista para novembro de 2026.

Caberá ao computador interpretar imagens captadas pelo rover, montar mapas do terreno lunar e indicar ao veículo onde estão as crateras a evitar. A meta é manter o equipamento em funcionamento por um ano. Nesse período, ele vai enfrentar escuridão prolongada e oscilações extremas de temperatura.

Um hardware pensado para sobreviver lá fora

O projeto priorizou a leveza e a autonomia do dispositivo, que reúne um processador de baixo consumo energético com arquitetura de 64 bits a uma GPU. O alumínio foi escolhido para conduzir calor por causa das condições do polo sul lunar.

Baterias e células solares do próprio FLIP alimentam o sistema, enquanto o resfriamento do veículo permanece conectado ao computador. Drives de estado sólido da KIOXIA completam o conjunto e oferecem espaço para armazenar os dados coletados em solo lunar.

Primeira vez que IA enfrenta o solo lunar

Foto: NASA/Dave Ryan

A combinação de computação de alto desempenho e inteligência artificial nunca havia sido posta à prova na superfície da Lua. Se funcionar como planejado, o equipamento permitirá mapear e analisar o relevo, além de fazer observações autônomas sem depender de comando humano constante.

A HPE projetou e testou o hardware para resistir às condições extremas do ambiente lunar, mas só a missão real vai confirmar esse desempenho fora de laboratório. Um desfecho positivo pode viabilizar bases humanas permanentes e sustentar atividade econômica no satélite da Terra nos próximos anos.

Testes em solo já indicavam esse caminho. A NASA avaliou um rover experimental batizado de Ernest, capaz de se mover de forma autônoma em terrenos parecidos com os da Lua e de Marte.

Na Estação Espacial Internacional, astronautas usam computadores diariamente para comunicações e experimentos científicos. Levar uma IA mais robusta para essas tarefas pode acelerar a próxima fase da exploração espacial.

Esta reportagem foi escrita por Alessandro Di Lorenzo, que edita o Olhar Digital e se formou em jornalismo pela UFRGS. O resultado dos testes no polo sul lunar deve orientar os próximos passos do programa Artemis rumo à presença humana contínua na Lua.

Linha do tempo
Linha do tempo dos eventos citados na matéria
Ainda em 2026
A Astrolab tem planos de pousar o rover FLIP na Lua levando o Spaceborne Computer-4.
novembro de 2026
Decolagem prevista da missão Griffin-1, que levará o Spaceborne Computer-4.
um ano
Meta de manter o Spaceborne Computer-4 em funcionamento no solo lunar.
quando o poder de processamento local não é necessário
Operações próximas à Terra podem enviar dados para servidores em solo em vez de depender de computadores potentes a bordo.
quando o poder de processamento local é necessário
Em Marte, o tempo de comunicação torna o controle remoto impossível, exigindo rovers com autonomia e ‘cérebro próprio’.

Por que computadores poderosos nunca foram testados na Lua antes

A Estação Espacial Internacional, que orbita próxima à Terra, ainda usa computadores com processadores de mais de duas décadas atrás. Isso acontece porque a NASA tem regras rigorosas: qualquer computador enviado ao espaço precisa de proteção especial contra radiação, e essa preparação leva anos de trabalho e testes para certificação.

Componentes modernos comerciais não aguentam essas condições sem modificações complexas e demoradas.

Para missões perto da Terra, como a Lua, isso nunca foi um problema. Os dados podem ser enviados para cá, processados por supercomputadores em solo, e a resposta retorna para o astronauta. Mas a situação muda completamente em Marte: um sinal demora entre quatro e vinte e quatro minutos para ir e voltar, tornando o controle remoto impossível.

É por isso que testar computação de alto desempenho na Lua agora é estratégico — serve como preparação para futuras missões humanas a Marte, onde a autonomia será obrigatória.

Quando o poder de processamento local não é necessário

Para operações próximas da Terra — como na Estação Espacial Internacional ou em uma missão lunar onde astronautas controlam o rover manualmente — computadores potentes a bordo são desnecessários. Nesses casos, é mais simples enviar dados para servidores em solo, fazer os cálculos lá e devolver a resposta, mantendo a latência baixa.

Os computadores podem ser obsoletos porque o tempo de espera é aceitável.

O cenário muda radicalmente em Marte, e lá, nem os dados transmitidos instantaneamente conseguem retornar rápido o suficiente para controle remoto. Por isso, missões a Marte exigem rovers com “cérebro próprio” — e é exatamente por isso que testar um supercomputador na Lua, ambiente intermediário, faz sentido estratégico antes de arriscar tudo em solo marciano.