27 de October de 2026
Imagem: Pixabay

O filósofo Edgar Morin, quando era menino e tinha apenas 10 anos, ouviu da própria família que a mãe tinha apenas viajado. No funeral, diante do caixão, entendeu que havia sido enganado e que a perda era definitiva. 

O francês carregou essa dor por toda a vida e a transformou em matéria-prima para pensar a existência. Ele morreu em 29 de maio de 2026, aos 104 anos, após dedicar décadas a entender a condição humana sob múltiplos ângulos.

O choque revelado no velório e como a dor construiu um filósofo curioso

A mãe de Morin morreu durante uma viagem de trem quando o filósofo ainda era criança. Para poupar o filho, os parentes inventaram uma desculpa qualquer sobre a ausência dela, e a farsa só caiu por terra no enterro.

Décadas depois, em entrevista ao Le Monde, em 2022, Morin relembrou aquele instante como uma experiência de solidão absoluta e perda irreparável.

A relação de Morin com o pai era marcada por ressentimentos antigos, mas o próprio filósofo reconhecia ter herdado dele o apego à vida que manteve até os últimos anos. Literatura, cinema e música se tornaram o refúgio de um garoto que cresceu sem colo materno e sem espaço para elaborar a perda na infância.

Beethoven, Degas, Dostoiévski e o cineasta René Clair alimentaram a formação de um jovem que recusava respostas fáceis para explicar o sofrimento humano.

Em Paris, onde nasceu em 8 de julho de 1921, Morin participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Essa experiência reforçou nele a crença na solidariedade coletiva.

Sociologia, filosofia, antropologia e ciências naturais se cruzam na obra de Morin, que ao longo de oito décadas evitou enxergar os fenômenos humanos por uma única lente. Essa recusa à simplificação deu origem à série de livros “O Método”, projeto que consolidou seu espaço entre os grandes pensadores franceses.

Em 1961, ele dividiu a direção do filme “Chronique d’un été” com o cineasta Jean Rouch, trabalho que ajudou a moldar um novo jeito de fazer documentário. A experiência no cinema reforçou algo que já guiava seu pensamento: a vida humana só faz sentido quando observada por diferentes caminhos ao mesmo tempo.

Curiosidade como resposta ao tempo que resta

Em 2022, em entrevista ao Le Monde, Morin disse que, enquanto fosse impulsionado pela curiosidade, pelo interesse, pela amizade e pelo amor, não pensava na morte. A declaração resume a maneira como escolheu lidar com o avanço da idade, mesmo sabendo que o tempo era cada vez mais curto.

Pensamentos sobre o desaparecimento do próprio “eu” existiam, mas ele afastava esses pensamentos por meio de experiências místicas, como apreciar uma música, uma paisagem, uma pessoa ou a natureza. Em vez de se prender ao fim inevitável, preferia ocupar os dias com projetos novos, afetos e perguntas que ainda não tinham resposta.

Essa postura, nascida de uma infância marcada pela perda, virou sua própria definição de envelhecer com sentido. Aprender algo novo, cultivar amizades e encontrar interesse em rotinas antigas eram, para ele, formas simples de manter a vida em movimento até o fim.

Morin não negou a dor nem a transformou em vitória. O que ele fez foi reconhecer que a solidão e a perda que experimentou na infância, aquela “Hiroshima pessoal” como descreveu, eram reais e continuariam sendo parte dele para sempre.

Mas, em vez de deixar o trauma o paralisar, usou-o como matéria-prima para compreender que toda experiência humana é marcada por tragédia e pela necessidade de amor e fraternidade.

A diferença estava na forma como canalizou essa dor, e literatura, cinema e música não foram fugas, mas formas de dialogar com o sofrimento.

Participar da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial também o ajudou a transformar a solidão pessoal em solidariedade coletiva: percebeu que havia outras pessoas sofrendo e outras causas maiores que sua própria ferida.

Essa passagem do individual para o coletivo parece ter impedido o amargor.