
“Mãe, eu tô na Globo!”. A frase pode até ser clichê, mas representa um sentimento único: aparecer em uma das mais importantes emissoras de televisão do planeta. E quem pode dizer que teve esse gostinho recente foi a escritora baiana Calila das Mercês, que ganhou destaque após seu livro Planta Oração aparecer em uma cena da novela Quem Ama Cuida.
Em entrevista exclusiva ao Acorda Cidade, a escritora, que nasceu e foi criada, como ela mesma gosta de falar, em Conceição do Jacuípe, terra que também é conhecida como Berimbau, falou que foi pega de surpresa com a cena em que Nancy, personagem interpretada por Jeniffer Nascimento, aparece falando sobre a obra.

“Eu fiquei muito feliz pelo reconhecimento, pela chance também de um livro que trata de memória, de ancestralidade, de vivência, poder atravessar mãos como a sua e como a personagem Nancy”, afirmou Calila ao Acorda Cidade, fazendo referência ao livro nas mãos do entrevistador.
Na cena, que foi ao ar no capítulo de quinta-feira (29), Nancy (Jeniffer Nascimento), que é uma das personagens centrais da trama, aparece sentada em um sofá lendo o livro Planta Oração, quando Laurentino, personagem interpretado por Alan Rocha, chega e pergunta o que a irmã está lendo.

–“Esse livro é bom?”, pergunta Laurentino.
– “Muito bom, tá? Fala sobre ancestralidade e relações familiares e eu tô gostando”, disse Nancy.
A Obra
Publicado em 2022, Planta Oração é o primeiro livro de contos escrito por Calila das Mercês e foi semifinalista do Prêmio Jabuti. Para o Acorda Cidade, a autora explicou que recebeu a notícia de que a obra foi destaque na novela do horário nobre enquanto participava de um festival literário em Itabira, Minas Gerais.
A surpresa
“Eu estava junto com a Rita Von Hunty fazendo uma mesa sobre corpos narrados, uma mesa maravilhosa, depois fui assinar alguns livros e vi minha prima me ligando. Eu já fiquei logo: ‘Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa lá?’ Bate um pouco de desespero porque quem mora longe sabe que a gente fica sempre ligado. E aí ela mandou: ‘Teu livro apareceu na novela’. E aí eu falei: ‘Gente, como assim?’ Aí começaram a chegar fotos”.

Das Mercês destacou que a repercussão representa uma oportunidade para ampliar o alcance de uma obra que aborda memórias, experiências e histórias de pessoas que nem sempre encontram espaço nas narrativas tradicionais.
“Eu fico muito feliz porque, sendo do interior, a gente costuma escutar as narrativas da Bahia sempre a partir do litoral, sempre a partir de autores que vêm de outro estrato social. E vir de uma família de classe trabalhadora, do interior, pessoas negras e que têm uma relação também com essas mãos e mentes da limpeza, mãos de construção. Me orgulho muito, ter essa orientação que me deu, como a gente diz aí na Bahia, régua e compasso para ser o que eu sou”, disse a autora.
Infância em Berimbau
Calila das Mercês contou que sua relação com a literatura começou dentro de casa, por meio das conversas familiares, dos jornais lidos pelo próprio pai e dos livros que a mãe, professora, levava para casa.
Durante a conversa com o Acorda Cidade, a escritora relembrou que, ainda criança, se emocionou ao ler a música Maria, de Milton Nascimento, experiência que marcou sua relação com as palavras.

“Eu chorei, e minha mãe: ‘Menina, tá chorando por quê?’ Eu falei: ‘Ah, eu achei isso tão bonito, tão forte’. Então, sempre fui muito sensível mesmo à palavra e ao entendimento também do que essas palavras podem nos levar”, explicou Calila.
A escritora cursou Jornalismo na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira, e, posteriormente, Letras e Literatura. Calila seguiu a trajetória acadêmica com mestrado, doutorado em Brasília e pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).
“Eu nunca achei que eu pudesse de fato viver da literatura, nunca achei que seria possível. Mas eu sempre acreditei na educação como um caminho possível de acessos, de trânsitos, de um mover-se com dignidade”, disse.

Segundo Calila, o contato com outras mulheres que já atuavam na literatura foi importante para que ela passasse a enxergar a escrita também como uma possibilidade profissional.
“A certeza que eu tinha era essa, de que os estudos me levariam para muitos lugares, mas, de fato, viver da escrita, ser uma escritora profissional, é algo que aconteceu a partir de muitos encontros com muitas outras mestras da palavra e que, de alguma maneira, fizeram acreditar que também era um caminho possível para pessoas como a gente.”
Um Pé de Quê?
Para quem já teve o privilégio de ler Planta Oração, deve ter notado a diversidade dos nomes de plantas que dão títulos às histórias. Goiabeira, coqueiro, dendezeiro, jabuticabeira e outras mais. Notou a semelhança? Todas são nomes de plantas, uma escolha que reflete a intenção da escritora de destacar a relação entre a natureza e as experiências humanas.
O título do livro em si já é um show à parte e faz referência à maranta, planta conhecida em alguns lugares como planta oração, cujas folhas apresentam movimentos ao longo do dia e da noite, de abrir e fechar, como mãos em posição de prece. Para Calila, essa característica representa os momentos de abertura ao mundo e aqueles de recolhimento e reflexão.

“Eu achei muito bonito uma planta que pode ser chamada de planta oração, porque, de alguma maneira, ela nos convoca a pensar que todo mundo pode ter o momento para se abrir, para socializar, para estar com todo mundo, para estar na rua, e um momento também para estar consigo, para se resguardar, para pensar na vida. Então, é uma planta que entrega essa vivência.”
Aproveitando o gancho para explicar um pouco melhor os títulos das histórias presentes no livro, Calila também citou o conto Algas Marinhas para falar sobre raízes e pertencimento. Segundo ela, assim como as algas flutuam, as pessoas podem viver em outros lugares sem perder a ligação com suas origens.
“As algas marinhas são plantas que flutuam no mar. Elas são responsáveis pela respiração. E às vezes a gente nem se dá conta de que, para existir, não necessariamente as raízes precisam estar aterradas. Essas raízes flutuam e não deixam de ser raízes. Às vezes a gente precisa morar em outros lugares, transitar em outros espaços, mas a nossa raiz, por mais que esteja flutuando, não deixa de ser raiz”, disse Calila.

A capa do livro traz a obra O Cajoeiro, da artista plástica Larissa de Souza. A imagem mostra uma mulher negra descansando sob uma árvore. O cajueiro, embora tenha ficado de fora da seleção final dos contos, mantém uma ligação afetiva com a história da escritora e com suas raízes no interior da Bahia.
“Foi um trabalho que me contemplou muito assim, de pensar que o descanso, a alegria, o prazer também são extremamente políticos. Às vezes uma planta revisita tantos momentos históricos das nossas vidas. Ela participa desde a nossa infância, da nossa fase adulta, da nossa velhice, participa de gerações de vários seres. E eu acho que às vezes a gente não se dá conta da importância dessa planta para além da sombra, dos frutos, para além de tudo que essa planta nos entrega enquanto troca.”
A palavra como forma
Durante a entrevista, Calila das Mercês também falou sobre a repetição de palavras e a disposição gráfica dos textos, características presentes em sua produção literária, o que leva o leitor, muitas vezes, a assimilar o recurso como uma espécie de mantra ou, para os mais familiarizados com o termo, uma ladainha.
Para a escritora, a palavra não serve apenas para contar histórias, mas também pode ser utilizada como elemento visual, criando desenhos e outras formas de expressão.
“Para mim, a palavra também é a materialidade. Então, o que é que eu faço com a palavra? Tudo. Vou desenhar com essa palavra. E eu escrevo Planta Oração fazendo essa trilha, uma espécie de floresta, de uma cartografia de plantas que fizeram parte de alguma forma da minha vida, da minha existência ou da existência dos meus. Usando as próprias palavras.”
“Graveto é que derruba a panela”
Outra referência importante para a escritora é a frase “Graveto é que derruba a panela”, de Mãe Stella de Oxóssi, que abre o livro. Calila contou que mantém a expressão anotada no celular como uma lembrança da importância de não subestimar as pequenas coisas.
“Eu acho que às vezes a gente subestima as coisas pequenas, o que não parece ser grandioso, a gente subestima a palavra. O que eu aprendo com isso é que a palavra é o que importa. Muitas vezes a gente fica numa busca de grandezas, e o que há de mais importante é o que pode construir e o que também pode destruir”, disse.
Ao explicar o significado da frase, ela relacionou o ensinamento à própria trajetória, marcada pela origem no interior e pela busca de espaço no meio literário.

“A gente precisa estar atento às delicadezas, aos gravetos que podem derrubar panelas e que também podem fazer muitas coisas grandiosas, como dar frutos, flores, folhas. Essa frase me acompanha para lembrar sobre humildade, perseverança e nossa pequeneza no mundo, mas o fato de a gente vir de um lugar que muitas vezes é esquecido não significa que a gente não possa ser visto ou notado. Esse é o ensinamento do graveto que derruba panela”, explicou a escritora.
“Minha amada Berimbau”
Mesmo com a trajetória acadêmica e profissional que a levou a outros estados, Calila mantém uma forte ligação com Conceição do Jacuípe. Para o entrevistador, que também é de Berimbau, a escrita destacou as lembranças da infância, as amizades e a convivência com os moradores da cidade como elementos importantes da própria identidade.

“Temos problemas e desafios, sim, mas temos muita verdade, amor e carinho por essa terra que guarda nossos umbigos e nossas histórias. Uma das coisas que acho mais bonitas em Berimbau é ver o pôr do sol no sítio, o momento da tarde, das cigarras. É o que me inspira a voltar para casa todo dia e ter essa conexão”, finalizou Calila das Mercês.
Nota para o legado: tanto a entrevista quanto esta reportagem com a escritora Calila das Mercês foram conduzidas pelo jornalista Jefferson Araújo, também de Berimbau.
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