1 de November de 2026
Médica paralisada usa movimentos dos olhos para se comunicar com avatar digital
Foto: Reprodução / EPTV.

A psiquiatra Maria Inês Quintana perdeu a capacidade de falar e se mover depois de receber o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica, em 2023.

Agora, Maria Inês voltou a se comunicar com pacientes e colegas por meio de uma tecnologia que transforma o movimento dos olhos em palavras projetadas por um avatar digital. A esclerose lateral amiotrófica é uma doença neurodegenerativa que destrói progressivamente a capacidade de se movimentar.

Seis meses após o diagnóstico, Maria Inês perdeu a fala, precisou passar por uma traqueostomia para respirar e ficou totalmente paralisada. A doença, porém, preservou suas funções cognitivas, e ela é uma das principais especialistas brasileiras em transtornos de personalidade, sobretudo borderline.

A solução que devolveu a voz

Foto: Divulgação/Unimed Campinas

Uma parceria entre a Faculdade Unimed e a startup WorkAI criou o Tobii, equipamento que usa rastreamento ocular para captar os movimentos dos olhos de Maria Inês. O sistema transforma esses comandos visuais em texto e o reproduz por meio de um avatar digital construído com imagens e áudios reais dela.

O projeto integra o ExtensIA, uma iniciativa que combina inteligência artificial e avatares para restaurar a comunicação de pessoas com limitações motoras severas.

Maria Inês é professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed. Ela relatou que chorou ao ver seu avatar pela primeira vez e descreveu a experiência como mágica.

Por que essa tecnologia muda tudo

Antes da tecnologia, Maria Inês acreditava que sua trajetória acadêmica havia terminado. Ela disse que voltar a se expressar, participar de atividades profissionais e compartilhar conhecimentos era importante porque a tecnologia ampliava suas possibilidades de interação no cotidiano. Comunicar-se permite expressar desejos, opiniões e sentimentos, além de manter vínculos e exercer a própria autonomia.

Maria Inês disse que uma pessoa não pode ser reduzida ao diagnóstico. Quando isso acontece, deixa-se de enxergar o ser humano e passa-se a ver apenas o prontuário. Ela espera que sua história abra caminho para outras pessoas que enfrentam a mesma doença e permita que sejam reconhecidas pelo que são. Por sua trajetória e por tudo que ainda podem fazer.

Próximos passos e disponibilidade

O ExtensIA tem previsão de receber aproximadamente R$ 5 milhões em investimentos durante seu desenvolvimento. O projeto está na fase piloto e ainda precisa avançar em várias etapas antes de beneficiar outras pessoas. Na quarta-feira (28), o projeto era apresentado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.

Pontos-chave
Curiosidades sobre a adaptação de Maria Inês
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Maria Inês Quintana, psiquiatra, perdeu fala e movimentos após diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica em 2023.
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Uma parceria entre Faculdade Unimed e startup WorkAI criou o Tobii, que usa rastreamento ocular e avatar digital com voz dela.
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O sistema transforma movimentos dos olhos em texto e reproduz por um avatar criado com imagens e áudios reais de Maria Inês.
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ExtensIA é o projeto que integra IA e avatares para restaurar comunicação de pessoas com limitações motoras severas.
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O projeto está em fase piloto, recebeu apresentação à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais e prevê cerca de R$ 5 milhões em investimentos.
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ExtensIA pretende criar agentes clínicos, avatares docentes e sistemas integrados para preservar e transmitir conhecimento de especialistas incapacitados.

O que muda na vida profissional de quem recebe a tecnologia

A tecnologia permite que uma pessoa que perdeu completamente os movimentos retome atividades que pareciam impossíveis, como dar aulas, palestrar, compartilhar conhecimento científico e manter a carreira acadêmica. Não se trata apenas de comunicação, mas da possibilidade de exercer funções profissionais e intelectuais.

Para pacientes como Maria Inês, que acumulou 30 anos de experiência na área, isso evita que o conhecimento fique confinado a uma mente em um corpo paralisado.

Na prática, a tecnologia também reduz o isolamento social e profissional causado pela doença. A pessoa mantém vínculos com colegas, continua reconhecida por sua competência e trajetória e pode seguir contribuindo para sua área de atuação.

Também amplia as possibilidades de interação no cotidiano, de participar de reuniões a manter relacionamentos pessoais, e ajuda a preservar a autonomia e a dignidade.

Um novo campo da inteligência artificial: a IA assistiva de alta complexidade

O projeto ExtensIA usa inteligência artificial não apenas para ajudar a pessoa a se comunicar, mas também para preservar, ampliar e até perpetuar o conhecimento científico e profissional de especialistas com doenças que destroem os movimentos. Essa aplicação é chamada de “IA assistiva de alta complexidade”.

O projeto se estrutura em três frentes: agentes clínicos treinados com o acervo intelectual acumulado pela pessoa ao longo de décadas. Avatares digitais que podem ministrar aulas e palestras e sistemas que integram esses agentes em ambientes educacionais maiores.

O projeto abre a possibilidade de criar uma “extensão digital” que não apenas fala em nome da pessoa, mas também pode ensinar seu conhecimento de forma autônoma. Essa IA pode ser treinada com a produção científica, os artigos, as pesquisas e os manuais acumulados por um especialista.

Com isso, pode ampliar o acesso ao conhecimento de profissionais de referência que, de outro modo, teriam sua contribuição interrompida pela doença.

Segundo um estudo publicado na revista Journal of neurology em 2026, pessoas com paralisia que afetam a fala conseguem se comunicar usando o movimento dos olhos e outras tecnologias não invasivas, e tecnologias implantáveis mais avançadas prometem melhorar ainda mais a velocidade e precisão dessa comunicação. Veja o estudo.