2 de November de 2026
Tradicional soltura de balões no Memorial Jardim das Flores em Feira de Santana, no Dia de Finados
Foto: Paulo José/Acorda Cidade

O significado do Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira (2), vai muito além da reflexão sobre a perda e a saudade, trata-se de um gesto profundo de fé e comunhão que une as memórias terrenas à esperança da vida eterna. Mas, o que é a morte e qual o seu significado.

Em entrevista ao Acorda Cidade, líderes de diferentes religiões refletiram sobre o que representa a vida e o significado da morte, de acordo com cada profissão de fé.

Para o padre Antônio, pároco da Paróquia de São Francisco de Assis, no bairro Gabriela, a data também representa um momento de oração e de renovar a esperança na ressurreição. E a tradição de rezar pelos mortos é antiga e faz parte da piedade cristã.

Padre Antônio
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“Pela piedade cristã, os fiéis da Igreja Católica lembram desse dia não apenas como dia de saudades, dia de silêncio, mas também levar a oração pelas almas que adormeceram na esperança dessa ressurreição”, destaca o padre em entrevista ao Acorda Cidade.

Para o padre António, a tradição de visitar túmulos e rezar pelas pessoas falecidas também é uma experiência que pode ser cultivada dentro das famílias. “Desde infância, eu estou fielmente visitando os túmulos, fazendo indulgência plenária pelas almas. Essa piedade cristã vem da minha família”, contou.

Missa no Memorial Jardim das Flores
Foto: Paulo José/Acorda Cidade

A morte não se limita à dimensão física

Segundo o padre Antônio, a Igreja não deve limitar o conceito de morte apenas à dimensão física. Ele chamou atenção para situações como fome, pobreza, analfabetismo e outras dificuldades enfrentadas por pessoas que precisam de apoio e palavras de consolo.

“Não podemos limitar a morte com a morte física”, declarou o padre ao Acorda Cidade. Nesse sentido, o Dia de Finados também pode ser compreendido como uma oportunidade para refletir sobre a responsabilidade de cuidar da vida e das pessoas que enfrentam momentos de dificuldade.

Durante celebração no Cemitério São Jorge, o padre António destacou a esperança como uma das principais mensagens para os fiéis neste período. “A nossa esperança é Jesus. A última coisa que não morre é a esperança, que é Jesus, nunca morre”, afirmou.

O religioso também lembrou práticas da Igreja Católica relacionadas à indulgência plenária, como a confissão sacramental, a comunhão sacramental e as orações pelas intenções do Papa, além das preces pelas pessoas que já morreram.

Tradicional soltura de balões no Memorial Jardim das Flores em Feira de Santana, no Dia de Finados
Foto: Paulo José/Acorda Cidade

Para o evangelho, a vitória maior é estar com Cristo

De acordo com o pastor Robério de Azevedo, da Igreja Presbiteriana Betel em Feira de Santana, a morte surgiu após a criação do mundo, como consequência do pecado de Adão e Eva, não uma morte física, mas espiritual, como consequência dessa separação entre Deus, o criador, e os seres humanos na Terra.

Ele explica que o homem é formado de corpo e alma, e a morte é exatamente a separação entre ambos. No entanto, para os cristãos evangélicos, há esperança de uma nova vida, mesmo após a morte, através da união daqueles que creram no Evangelho e Jesus Cristo.

Pastor Robério de Azevedo
Foto: Arquivo Pessoal

“Para nós cristãos a vitória final não significa morrer, é a sua alma estar com Cristo. Jesus não veio salvar apenas a nossa alma, ele veio nos salvar por completo, corpo e alma, e é por isso que a bíblia ensina a respeito da ressurreição dos corpos e isso ocorrerá, segundo Paulo fala e as escrituras também em vários pontos. O próprio Jesus ensina quando ele diz: ‘Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim ainda que esteja morto viverá. A esperança é de ressurreição, quando Jesus voltar, e aqueles que morreram com Cristo ressuscitarão e estarão com Cristo para sempre.”

O pastor destacou ainda que segundo o Evangelho, Jesus venceu a morte e veio para tirar esse pavor da morte sobre nós. “Se você é um cristão verdadeiro, você não deve ter pavor e nesses momentos confiar naquilo que Jesus fez por você. A melhor e a única forma de você vencer a morte é crer em Cristo, recebê-lo como Salvador e Senhor e aí você vai ter essa esperança de vida eterna. Um dia esse mesmo corpo que vai virar pó, ele vai ser glorificado. O apóstolo Paulo diz que se a nossa esperança em Cristo se resumisse apenas a esta vida, nós seríamos os mais infelizes de todos os homens, então essa é a nossa gloriosa esperança cristã, que Deus abençoe a todos e nesse período, onde se fala muito sobre a morte e lembre-se da vida que é Cristo.”

O destino do corpo e do espírito no candomblé

O babalorixá Cristianizio Almeida, também conhecido como Babá Kutu, líder religioso do Iliaché Iji-Faromi, que reside já há mais de 37 anos no bairro Campo Limpo, compartilhou sobre o que significa a morte para os praticantes do candomblé.

Babalorixá Cristianizio Almeida
Foto: Arquivo Pessoal

“No candomblé, a morte não representa o fim ou a extinção da vida, mas uma passagem e uma transformação de um plano de existência para outro. Os nossos principais conceitos são o ciclo vital, a existência, que é dividida entre o Ayer, que é o mundo material, a terra, e o Orum, o mundo espiritual, o plano dos orixás e ancestrais. Morrer é completar um ciclo natural, com início, meio e fim.”

Ele conta que em iorubá a palavra ikú significa morte. E segundo a tradição das religiões de matriz africana, o ikú foi criado por Oxalá para ensinar que a vida é preciosa e finita, mas quem decide a hora exata da partida de cada pessoa é exclusivamente Deus, que onipotente, onisciente e supremo, chamado em iorubá de Olódumare.

“O destino do corpo e do espírito com o falecimento do corpo físico retorna à terra, enquanto o sopro vital e o espírito seguem rumo ao Orum, ao céu, aos altos, onde o indivíduo reencontra a sua família espiritual, ou seja, os seus ancestrais, os seus antepassados, e passa a ser cultuado. Por isso, a cremação é proibida na religião do candomblé, pois o corpo precisa retornar intacto à terra, porque do pó viemos e ao pó retornaremos para fechar o ciclo material da nossa existência.”

Dia de Finados no Jardim Celestial_ foto Paulo José Acorda Cidade
Foto: Paulo José/Acorda Cidade

Para o espiritismo, a morte não existe

O líder espírita Marcus Machado revelou que para o espiritismo, a morte não existe. O espiritismo, segundo ele, traz um outro contexto, que é o da imortalidade.

“O corpo físico encerra suas forças, mas o espírito vivifica. Este é um conhecimento milenar, desde as primeiras civilizações. Neste período em que é celebrado o Dia de Finados e que a saudade se faz mais forte em nós, pela lembrança daqueles que partiram, é um momento especial de reflexão, para que possamos orar por eles, a fim de que no plano espiritual eles possam estar se desenvolvendo, se esclarecendo, assim como contribuindo para o progresso da humanidade.”

Marcos Machado - sobre divaldo
Marcos Machado | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Para a religião espírita, a separação da alma do corpo é um movimento natural, que acontece com todos os seres humanos quando desencarnam.

“É quando regressamos a nossa vida à pátria verdadeira, que é o mundo espiritual e é preciso ter o entendimento de que quando partimos levamos toda aquela bagagem de sentimentos, de emoções, do bem que fizemos, como também do bem que deixamos de fazer. E é importante que enquanto estamos aqui na Terra possamos aproveitar esse tempo e esse espaço maravilhoso, as pessoas que convivem conosco, para que levemos daqui o bem, o amor, a caridade e a fraternidade, o conhecimento que conquistamos.”

Dia de Finados no Memorial Jardim das Flores_ Foto Paulo José (8)
Foto: Paulo José/Acorda Cidade

Com informações da produtora Daniela Cardoso e do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.

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