
O significado do Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira (2), vai muito além da reflexão sobre a perda e a saudade, trata-se de um gesto profundo de fé e comunhão que une as memórias terrenas à esperança da vida eterna. Mas, o que é a morte e qual o seu significado.
Em entrevista ao Acorda Cidade, líderes de diferentes religiões refletiram sobre o que representa a vida e o significado da morte, de acordo com cada profissão de fé.
Para o padre Antônio, pároco da Paróquia de São Francisco de Assis, no bairro Gabriela, a data também representa um momento de oração e de renovar a esperança na ressurreição. E a tradição de rezar pelos mortos é antiga e faz parte da piedade cristã.

“Pela piedade cristã, os fiéis da Igreja Católica lembram desse dia não apenas como dia de saudades, dia de silêncio, mas também levar a oração pelas almas que adormeceram na esperança dessa ressurreição”, destaca o padre em entrevista ao Acorda Cidade.
Para o padre António, a tradição de visitar túmulos e rezar pelas pessoas falecidas também é uma experiência que pode ser cultivada dentro das famílias. “Desde infância, eu estou fielmente visitando os túmulos, fazendo indulgência plenária pelas almas. Essa piedade cristã vem da minha família”, contou.

A morte não se limita à dimensão física
Segundo o padre Antônio, a Igreja não deve limitar o conceito de morte apenas à dimensão física. Ele chamou atenção para situações como fome, pobreza, analfabetismo e outras dificuldades enfrentadas por pessoas que precisam de apoio e palavras de consolo.
“Não podemos limitar a morte com a morte física”, declarou o padre ao Acorda Cidade. Nesse sentido, o Dia de Finados também pode ser compreendido como uma oportunidade para refletir sobre a responsabilidade de cuidar da vida e das pessoas que enfrentam momentos de dificuldade.
Durante celebração no Cemitério São Jorge, o padre António destacou a esperança como uma das principais mensagens para os fiéis neste período. “A nossa esperança é Jesus. A última coisa que não morre é a esperança, que é Jesus, nunca morre”, afirmou.
O religioso também lembrou práticas da Igreja Católica relacionadas à indulgência plenária, como a confissão sacramental, a comunhão sacramental e as orações pelas intenções do Papa, além das preces pelas pessoas que já morreram.

Para o evangelho, a vitória maior é estar com Cristo
De acordo com o pastor Robério de Azevedo, da Igreja Presbiteriana Betel em Feira de Santana, a morte surgiu após a criação do mundo, como consequência do pecado de Adão e Eva, não uma morte física, mas espiritual, como consequência dessa separação entre Deus, o criador, e os seres humanos na Terra.
Ele explica que o homem é formado de corpo e alma, e a morte é exatamente a separação entre ambos. No entanto, para os cristãos evangélicos, há esperança de uma nova vida, mesmo após a morte, através da união daqueles que creram no Evangelho e Jesus Cristo.

“Para nós cristãos a vitória final não significa morrer, é a sua alma estar com Cristo. Jesus não veio salvar apenas a nossa alma, ele veio nos salvar por completo, corpo e alma, e é por isso que a bíblia ensina a respeito da ressurreição dos corpos e isso ocorrerá, segundo Paulo fala e as escrituras também em vários pontos. O próprio Jesus ensina quando ele diz: ‘Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim ainda que esteja morto viverá. A esperança é de ressurreição, quando Jesus voltar, e aqueles que morreram com Cristo ressuscitarão e estarão com Cristo para sempre.”
O pastor destacou ainda que segundo o Evangelho, Jesus venceu a morte e veio para tirar esse pavor da morte sobre nós. “Se você é um cristão verdadeiro, você não deve ter pavor e nesses momentos confiar naquilo que Jesus fez por você. A melhor e a única forma de você vencer a morte é crer em Cristo, recebê-lo como Salvador e Senhor e aí você vai ter essa esperança de vida eterna. Um dia esse mesmo corpo que vai virar pó, ele vai ser glorificado. O apóstolo Paulo diz que se a nossa esperança em Cristo se resumisse apenas a esta vida, nós seríamos os mais infelizes de todos os homens, então essa é a nossa gloriosa esperança cristã, que Deus abençoe a todos e nesse período, onde se fala muito sobre a morte e lembre-se da vida que é Cristo.”
O destino do corpo e do espírito no candomblé
O babalorixá Cristianizio Almeida, também conhecido como Babá Kutu, líder religioso do Iliaché Iji-Faromi, que reside já há mais de 37 anos no bairro Campo Limpo, compartilhou sobre o que significa a morte para os praticantes do candomblé.

“No candomblé, a morte não representa o fim ou a extinção da vida, mas uma passagem e uma transformação de um plano de existência para outro. Os nossos principais conceitos são o ciclo vital, a existência, que é dividida entre o Ayer, que é o mundo material, a terra, e o Orum, o mundo espiritual, o plano dos orixás e ancestrais. Morrer é completar um ciclo natural, com início, meio e fim.”
Ele conta que em iorubá a palavra ikú significa morte. E segundo a tradição das religiões de matriz africana, o ikú foi criado por Oxalá para ensinar que a vida é preciosa e finita, mas quem decide a hora exata da partida de cada pessoa é exclusivamente Deus, que onipotente, onisciente e supremo, chamado em iorubá de Olódumare.
“O destino do corpo e do espírito com o falecimento do corpo físico retorna à terra, enquanto o sopro vital e o espírito seguem rumo ao Orum, ao céu, aos altos, onde o indivíduo reencontra a sua família espiritual, ou seja, os seus ancestrais, os seus antepassados, e passa a ser cultuado. Por isso, a cremação é proibida na religião do candomblé, pois o corpo precisa retornar intacto à terra, porque do pó viemos e ao pó retornaremos para fechar o ciclo material da nossa existência.”

Para o espiritismo, a morte não existe
O líder espírita Marcus Machado revelou que para o espiritismo, a morte não existe. O espiritismo, segundo ele, traz um outro contexto, que é o da imortalidade.
“O corpo físico encerra suas forças, mas o espírito vivifica. Este é um conhecimento milenar, desde as primeiras civilizações. Neste período em que é celebrado o Dia de Finados e que a saudade se faz mais forte em nós, pela lembrança daqueles que partiram, é um momento especial de reflexão, para que possamos orar por eles, a fim de que no plano espiritual eles possam estar se desenvolvendo, se esclarecendo, assim como contribuindo para o progresso da humanidade.”

Para a religião espírita, a separação da alma do corpo é um movimento natural, que acontece com todos os seres humanos quando desencarnam.
“É quando regressamos a nossa vida à pátria verdadeira, que é o mundo espiritual e é preciso ter o entendimento de que quando partimos levamos toda aquela bagagem de sentimentos, de emoções, do bem que fizemos, como também do bem que deixamos de fazer. E é importante que enquanto estamos aqui na Terra possamos aproveitar esse tempo e esse espaço maravilhoso, as pessoas que convivem conosco, para que levemos daqui o bem, o amor, a caridade e a fraternidade, o conhecimento que conquistamos.”

Com informações da produtora Daniela Cardoso e do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.
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