
O agravamento das secas, ondas de calor, fortes chuvas e enchentes são alguns dos eventos extremos provocados pelo El Niño, um fenômeno climático natural que, de tempos em tempos, afeta de maneiras diferentes as regiões do Brasil, e que está se tornando cada vez mais frequente e intenso, influenciado pelas mudanças climáticas em todo o planeta.
No Nordeste, o fenômeno é caracterizado pelo aumento das temperaturas, ondas de calor, crises hídricas, índices mais altos de incêndios florestais e queimadas, dentre outros efeitos da estiagem prolongada, sobretudo nas regiões de semiárido.
Além dos impactos causados ao meio ambiente, o El Niño influencia fortemente na economia, com o aumento dos preços dos alimentos, como resultado das perdas das lavouras, mortes de animais e crescimento da desigualdade social no país.
Para entender melhor sobre as causas e consequências do Super El Ninõ em 2026, o Acorda Cidade conversou com o biólogo Vinicius Mendes, que é Mestre em Zoologia e supervisor de laboratórios da Faculdade Unex. Na entrevista especial, ele esclarece dúvidas sobre o fenômeno e como as autoridades e populações podem se preparar para o seu pico, previsto para dezembro.
Veja a entrevista completa abaixo:
Acorda Cidade – O que é o El Niño e por que um fenômeno que começa no Pacífico muda o clima do Nordeste brasileiro?
Vinicius Mendes – O El Niño (O menino) é o aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno recebeu esse nome porque era percebido pelos pescadores frequentemente em data próxima ao Natal e o relacionaram ao menino Jesus. A temperatura do oceano influencia, dentre outras coisas, como se comportam as correntes de ar que trazem umidade e chuva para as regiões norte e nordeste do Brasil. Esse aquecimento no oceano desregula os ventos ao longo da linha do Equador. Com isso, as correntes de ar que formam as nuvens de chuva se deslocam para o meio do Pacífico. O resultado para a nossa região é a descida de um ar muito seco, que funciona como um “tampão”, bloqueando a formação de nuvens e provocando as secas severas que conhecemos.
Acorda Cidade – Qual é a intensidade atual do fenômeno? É considerado fraco, moderado ou forte?
Vinicius Mendes – No momento, estamos lidando com um fenômeno muito forte, frequentemente chamado de Super El Niño. Os dados indicam que o pico deste evento, previsto agora para o último trimestre de 2026 chegando ao pico em dezembro, é um dos mais intensos das últimas décadas, com as águas do Pacífico chegando a mais de 2 graus acima da média histórica.
Acorda Cidade – Com que frequência o El Niño acontece e por que ele tem sido cada vez mais recorrente?
Vinicius Mendes – Historicamente, ele é um ciclo natural que aparece a cada 2 a 7 anos. O problema é que a recorrência de eventos fortes está ligada ao aquecimento global. Como a temperatura média dos oceanos do planeta já está naturalmente mais alta, essas flutuações naturais atingem picos de calor extremo muito mais rápido. O mar já parte de um ponto mais quente, tornando o clima cada vez mais instável e agressivo.
Acorda Cidade – Quais os efeitos desse fenômeno que impactam a população?
Vinicius Mendes – A estiagem prolongada gera uma quebra nas safras, podendo reduzir drasticamente a oferta de alimentos e encarecer hortaliças e até a carne, já que o boi também precisa ser alimentado com vegetais. Além disso, o calor e a falta de chuvas baixam o nível dos grandes reservatórios das hidrelétricas pelo país, o que pode acionar bandeiras tarifárias mais caras na conta de luz. A energia mais cara encarece também a produção e o transporte de quase tudo.
Acorda Cidade – Quais os setores mais vulneráveis ao El Niño na Bahia — agricultura, pecuária, abastecimento?
Vinicius Mendes – O impacto ocorre em cascata nos três setores. A agricultura de sequeiro (aquela que depende exclusivamente da água da chuva) é a primeira a sofrer, com a perda de lavouras que dependem exclusivamente da chuva, como milho, feijão e mandioca. A pecuária também sofre, pois o sol forte degrada as pastagens e seca as aguadas, prejudicando ou encarecendo a nutrição dos rebanhos. Por fim, o abastecimento hídrico urbano e rural entra em crise, exigindo carros-pipa e o uso de reservas mortas nas barragens.
Acorda Cidade – Como a estiagem associada ao fenômeno pode refletir nos preços dos alimentos na cidade?
Vinicius Mendes – Com as lavouras da nossa região sofrendo com o estresse hídrico, produtos que fazem parte do dia a dia — como o feijão de corda, a farinha de mandioca, o milho e as hortaliças — chegam em menor quantidade. A maior parte de nosso abastecimento urbano vem da agricultura familiar, que geralmente tem menos recursos para manter a produção em alta nessa época de seca e pela lei da oferta e da procura, a escassez gerada faz os preços dispararem para o consumidor final.
Acorda Cidade – Existe alguma perspectiva de normalização? Quando o El Niño deve enfraquecer ou terminar?
Vinicius Mendes – Infelizmente, ainda teremos alguns meses difíceis pela frente. A previsão oficial é que o El Niño continue forte até março de 2027, pegando toda a nossa primavera e o verão. O enfraquecimento deve começar apenas no outono, com a situação do Pacífico voltando à completa normalidade entre abril e julho de 2027. É importante dizer que mesmo com o fim do evento climático no pacífico existe um período necessário para o tempo normalizar aqui na região, então não sentiremos imediatamente este fim.
Com informações da produtora Daniela Cardoso, do Acorda Cidade.
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