5 de November de 2026
Dinossauros dificilmente preservam glóbulos sanguíneos
Foto: Divulgação/Museu Nacional

Cientistas identificaram o que consideram a evidência mais sólida até agora de presença de células sanguíneas em um fósil de dinossauro. A descoberta vem do osso da pata direita de um carnívoro de tamanho médio que habitou o Brasil cerca de 115 milhões de anos atrás, durante o período Cretácico.

No interior do osso do Aratasaurus, pesquisadores localizaram estruturas microscópicas que parecem ser glóbulos vermelhos fossilizados. Os cientistas também encontraram indícios químicos de heme, a biomolécula que contém ferro e está associada à hemoglobina, a proteína responsável pela cor vermelha do sangue.

Um registro mineral e molecular da vida antiga

Foto: Divulgação/Juliana Sayão/Museu Nacional

Kliti Grice, pesquisadora da Universidade Curtin de Perth, é a autora principal do estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Ela deixou claro que não se trata de sangue preservado literalmente.

O que os cientistas observam é um registro químico e mineral de matéria que um dia esteve viva, transformado ao longo de milhões de anos de fossilização.

A pesquisadora enfatizou o caráter único da descoberta: observar simultaneamente as estruturas celulares e as evidências químicas de sua origem biológica após um intervalo geológico tão extenso representa um avanço significativo para a paleontologia. Segundo Grice, detectar moléculas de heme intactas oferece uma janela molecular direta para a fisiologia de animais extintos.

Por que tecidos moles raramente se fossilizam

Estruturas como músculos e plumas dificilmente se preservam nos fósseis, e células presentes em fluidos corporais — como o sangue — são ainda mais incomuns nesses registros. Os glóbulos vermelhos se originam continuamente na medula óssea e transportam oxigênio dos pulmões para os tecidos corporais, ajudando depois a devolver dióxido de carbono para ser exalado.

Os pesquisadores também detectaram aminoácidos relacionados ao colágeno no osso do Aratasaurus, a proteína estrutural que funciona como um andaime mantendo os tecidos unidos. Porém, conforme ressaltou Grice, isso não equivale a recuperar uma proteína antiga intacta ou informação genética do dinossauro.

Diferença clara entre estruturas e código genético

Pontos-chave
Pontos-chave da descoberta sobre células sanguíneas em fóssil de dinossauro
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Pesquisadores encontraram estruturas microscópicas semelhantes a glóbulos vermelhos no osso do Aratasaurus.
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Foram detectados indícios químicos de heme, biomolécula associada à hemoglobina, no interior do osso.
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A descoberta combina evidências estruturais e químicas, considerada a mais sólida até agora para células sanguíneas fossilizadas.
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Não se trata de sangue preservado literalmente, mas de um registro químico e mineral de matéria que esteve viva.
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Foram também detectados aminoácidos relacionados ao colágeno no osso, sem recuperação de proteína intacta ou DNA.
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O fóssil foi desenterrado em 2008 no Ceará; o exemplar ficou no Museu Nacional e não foi atingido pelo incêndio de 2018.

A investigação não documenta DNA de dinossauro, e o achado, portanto, não é prova de material genético intacto. Moléculas grandes e ricas em informação, como o DNA, têm características de preservação muito diferentes das moléculas pequenas e dos resíduos moleculares que se transformam quimicamente ao longo do tempo.

O DNA mais antigo já relatado pela comunidade científica vem de animais, plantas e micróbios que datam de cerca de 2 milhões de anos atrás, encontrados em sedimentos da Groenlândia.

A persistência de estruturas semelhantes às células e de sinais químicos relacionados ao hemo não significa que o material genético original tenha sobrevivido aos cerca de 115 milhões de anos que separam o Aratasaurus da era atual.

O caminho do fóssil até a análise

O fóssil foi desenterrado em uma mina de gesso no Ceará em 2008. O exemplar provavelmente era um jovem, medindo cerca de 3,1 metros de comprimento. Pesquisadores brasileiros do Museu Nacional e da Universidade Regional do Cariri participaram da investigação que revelou esses achados microscópicos.

O osso permaneceu em preparação no Museu Nacional quando o prédio sofreu um incêndio em 2018, mas a área onde o fóssil ficava não foi atingida pelo fogo. Isso permitiu que a pesquisa prosseguisse e chegasse aos resultados que ajudam a esclarecer aspectos da fisiologia dos dinossauros.