7 de November de 2026
Falta de água na zona rural de Feira de Santana é tema de reunião entre moradores, sindicato e Embasa
Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

A falta de água na zona rural de Feira de Santana continua afetando moradores de diferentes comunidades. Como já divulgado pelo Acorda Cidade, moradores e ouvintes têm relatado, com frequência, longos períodos sem abastecimento nos distritos do município.

Nesta sexta-feira (6), foi realizado um encontro entre a gerência da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), a direção do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Feira de Santana (STR) e trabalhadores rurais dos distritos do município, para tratar sobre o problema da falta de água. 

Em entrevista ao Acorda Cidade, a presidente do STR, Adriana Lima, destacou que o objetivo do encontro foi abordar as dificuldades no meio rural de Feira de Santana. Adriana contou que ela, como representante dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, recebe pedidos de ajuda, mas não consegue resolver o problema. 

Adriana Lima
Adriana Lima | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

“As comunidades têm apenas cano, porém o líquido precioso não cai. Como quem é responsável por esse serviço é a Embasa, a gente chamou para estar colocando no colo essa real situação que nós enfrentamos no nosso município.”

Segundo ela, os problemas no abastecimento são vistos e sentidos em todos os oito distritos de Feira de Santana. A presidente também disse que a estiagem prolongada e as mudanças no clima agravaram o cenário da falta de água. 

“Desde o início do ano, a gente já vem vivenciando a pequena quantidade de chuva no nosso município. Porém, não temos reservatório, não temos aguada, como no passado. E isso sobrecarrega a questão da Embasa. E como sobrecarrega e a Embasa não tem como abastecer todos, também traz a dificuldade para as famílias, como a gente já paga.”

Adriana contou que diversas pessoas tiveram que comprar água por conta própria ou buscar, por conta própria, um carro-pipa, chegando a pagar valores altos para conseguir a água. “A gente tem casos dessa natureza e trouxemos essas famílias que passam por essa situação para que elas possam discutir e apresentar essa situação vivenciada.”

Falta de água na zona rural de Feira de Santana é tema de reunião entre moradores, sindicato e Embasa
Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Além dos transtornos no dia a dia, a presidente chamou a atenção para os impactos na produção agrícola, também prejudicada pela estiagem e pela falta de água. De acordo com ela, as chuvas não foram suficientes para garantir o plantio e até mesmo o preparo do solo. Já os agricultores que conseguiram plantar perderam boa parte da produção.

Diante disso, Adriana espera que, com o encontro, a Embasa consiga solucionar esse problema que aflige tantas pessoas. 

“O que nós esperamos é solução e que o problema possa ser solucionado, porque o que a gente mais aguarda é solução para o problema vivenciado, porque sem água não existe vida.”

Gerência da Embasa

O gerente do escritório local da Embasa, Nivaldo Pedreira, ressaltou que, além dos carros-pipa, a empresa tem investido no sistema de abastecimento de água de Feira de Santana. 

“Cerca de R$ 400 milhões já foram feitos no município de Feira de Santana. E estamos para entregar uma grande obra de ampliação do sistema de Feira, que é a ETA (Estação de Tratamento de Água) de Feira de Santana. Essa ETA vai possibilitar o aumento em 50% do volume de água que vai ser disponibilizado para o município. Dessa forma, a gente espera que melhore o abastecimento de toda a região, inclusive da zona rural.”

Nivaldo Pedreira
Nivaldo Pedreira | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Questionado sobre os tanques de água instalados no bairro Campo Limpo, o gerente explicou que os reservatórios fazem parte da obra de ampliação do sistema de abastecimento de Feira de Santana. 

Segundo ele, a intervenção está na quarta e última etapa, que prevê a ampliação da Estação de Tratamento de Água (ETA), aumentando a vazão de 1.700 para cerca de 2.300 litros por segundo. Com isso, será possível ampliar o volume de água disponível para abastecer os reservatórios e, posteriormente, distribuir à população.

“Nós temos um mapeamento dessas áreas onde nós temos esse problema de falta d’água, que ficam mais nas regiões periféricas do município, onde existe uma dificuldade maior para fazer com que essa água chegue na ponta do sistema. O nosso sistema de abastecimento hoje, a nossa água sai da barragem de Pedra do Cavalo e é transportada por 27 km de adutora até Feira de Santana. A gente tem esse mapeamento e adota ações para poder reduzir essa problemática, a exemplo dos fornecimentos de carro-pipa.”

Falta de água na zona rural de Feira de Santana é tema de reunião entre moradores, sindicato e Embasa
Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Outro ponto abordado por Nivaldo foi o cancelamento das contas de água nos locais onde o abastecimento não tem chegado. O gerente explicou que a Embasa possui uma normativa que permite suspender a cobrança quando o cliente fica 15 dias consecutivos ou 25 dias alternados sem receber água. O benefício também pode ser concedido quando o consumo registrado é de até 3 metros cúbicos, metade do volume mínimo de 6 metros cúbicos.

A empresa pretende realizar o cancelamento automático das contas. Mais de 600 matrículas de consumidores já foram identificadas para receber a medida. Nivaldo orientou que os moradores que enfrentam a falta de abastecimento entrem em contato com a Embasa para apresentar suas demandas e solicitar atendimento.

Importância da articulação entre governos e sindicatos

José Cassiano, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), também esteve presente no encontro e falou ao Acorda Cidade sobre a importância da articulação entre os governos municipal, estadual e federal, além dos sindicatos, entidades e associações, para buscar soluções para os problemas enfrentados pelos trabalhadores rurais.

Com 55 anos de atuação em movimentos sociais, sindicais e comunitários, Cassiano defendeu que o poder público precisa manter um diálogo mais próximo com as organizações que representam os agricultores familiares. Para ele, as mudanças nas condições climáticas exigem novas estratégias de enfrentamento à seca, e a experiência dos trabalhadores rurais deve ser considerada na elaboração das ações.

José Cassiano
José Cassiano | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

“Os governos, principalmente o municipal, precisam aprender a trabalhar com os sindicatos, as associações e as igrejas. A situação mudou, a atmosfera mudou e agora a gente precisa aprender e colocar em prática novas formas de enfrentar esses problemas. Nós, da agricultura familiar, já aprendemos a sobreviver com a seca, mas quem está na direção dessas entidades precisa nos ouvir.”

Ele também ressaltou que os agricultores familiares já possuem experiência na mobilização por políticas públicas e cobrou que os representantes das instituições considerem as demandas das comunidades rurais na busca por soluções para a falta de água.

Falta de água na zona rural de Feira de Santana é tema de reunião entre moradores, sindicato e Embasa
Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Racismo estrutural e ambiental

Renilda Cruz, presidente da Associação Comunitária e Quilombola do distrito de Maria Quitéria, também relatou as dificuldades enfrentadas pelas comunidades rurais com a falta de água. Ela chamou atenção para o que considera uma situação de racismo estrutural e ambiental, diante das dificuldades de acesso ao abastecimento em territórios rurais e quilombolas.

Para ela, a falta de água compromete não apenas as atividades domésticas, mas também a produção agrícola e a criação de animais, que dependem do recurso. Ela contou que recebe frequentemente reclamações de moradores que passam semanas e até meses sem água nas torneiras.

Renilda Cruz
Renilda Cruz | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

“Como sou de uma comunidade quilombola, vejo a questão do racismo estrutural e ambiental. Parece que o Estado escolhe os territórios que serão abastecidos nesse momento de escassez. Na zona rural, nós também pagamos nossas contas e temos direito à água. Sem água, não conseguimos sobreviver.”

A presidente também relatou a situação de uma moradora que estava há quatro meses sem abastecimento e enfrentava dificuldades até para comprar água. De acordo com Renilda, ela chegou a procurar o gerente regional da Embasa para tentar conseguir um caminhão-pipa, mas não recebeu retorno.

“Na semana passada, me doeu o coração ouvir uma moradora dizer que estava há quatro meses sem água e lutando para comprar uma carroça de água. Fiz contato com o gerente da Embasa para tentar conseguir um caminhão-pipa para abastecer essa família, mas não tive retorno. Existem muitas famílias nessa situação, algumas passam dois ou três meses sem água nas torneiras.”

Ela acrescentou que a água também é essencial para manter os quintais produtivos, as hortaliças e a criação de animais, atividades que ajudam no sustento das famílias do campo.

Falta de água na zona rural de Feira de Santana é tema de reunião entre moradores, sindicato e Embasa
Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Trabalhador rural destaca dificuldades

O trabalhador rural Francisco de Jesus Rodrigues, conhecido como Dinho do Caroá, também participou do encontro e relatou as dificuldades enfrentadas pelos moradores da comunidade de Caroá, no distrito de Governador João Durval Carneiro (Ipuaçu). Segundo ele, o abastecimento pode levar de 15 a 30 dias para chegar às residências, situação que compromete as atividades no campo e o cuidado com os animais.

Dinho defendeu a construção de açudes, reservatórios e barragens como alternativas para armazenar água e reduzir os impactos dos períodos de estiagem. Ele ressaltou que utilizar água tratada para abastecer os animais também representa um custo elevado para os trabalhadores rurais.

“É preciso que se adote uma política de construção de açudes, reservatórios e mais barragens em alguns lugares, para que, nesses momentos de dificuldade, a gente tenha água para o consumo humano e também para os animais. Mesmo quando a água chega à torneira, utilizar água tratada para dar aos animais tem um custo muito alto, e ninguém consegue sobreviver com esse custo.”

Dinho do Caroá
Dinho do Caroá | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

O trabalhador também chamou atenção para a falta de assistência e de políticas de incentivo à permanência das famílias no campo. Para Dinho, a falta de investimentos tem contribuído para o afastamento dos jovens da zona rural, que acaba ficando com uma população cada vez mais envelhecida. 

Ele também reforçou a importância da união dos governos municipal, estadual e federal, além de sindicatos e associações, para buscar soluções para os problemas enfrentados pelos trabalhadores.

“A zona rural deixou de ser atrativa porque não tem nada que garanta ao jovem um padrão de vida melhor. É um momento em que todos precisam se unir para buscar soluções para o problema que estamos vivendo, porque, fora disso, vai ser uma lástima para a zona rural de Feira de Santana.”

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.

Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.