
O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña foi preso horas depois de sofrer impeachment e perder o mandato, na sexta-feira (6). Inicialmente colocado em prisão domiciliar, ele foi transferido para uma instalação militar em Assunção durante a madrugada deste sábado (7), por questões de segurança, após manifestantes se concentrarem em frente à residência dele e entrarem em confronto com a polícia.
A transferência foi noticiada pelo jornal paraguaio ABC Color. Segundo a publicação, Peña foi levado para o Regimiento Escolta Presidencial (REP), unidade militar utilizada para proteger o presidente do Paraguai, seus familiares e autoridades estrangeiras durante visitas oficiais. A movimentação ocorreu pouco antes da meia-noite de sexta-feira.
A ordem de prisão foi emitida por quatro promotores do Ministério Público paraguaio, no âmbito das investigações sobre o escândalo financeiro do banco Ueno, que desencadeou uma crise econômica e política no país. A Polícia Federal foi até a residência de Peña logo após o encerramento da sessão do Senado que resultou na destituição dele.
Segundo o promotor Cristian Benítez, o mandado envolve suspeitas de lesão de confiança, tráfico de influência e administração para proveito próprio. Em entrevista à imprensa paraguaia, ele explicou que essas são classificações penais preliminares e que o Ministério Público ainda deverá determinar os fatos específicos e as circunstâncias de cada possível crime.
Peña deverá comparecer a uma promotoria federal neste sábado (7), às 10h, no horário de Brasília, para prestar esclarecimentos no processo de corrupção.
Com a destituição de Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana tomou posse como novo presidente do Paraguai ainda na sexta-feira (6).
Investigação aponta possíveis conflitos de interesse
A apuração também considera a relação financeira de Peña com o grupo Ueno. Em 2023, o então presidente declarou possuir ações da Ueno Holding avaliadas em 6,144 bilhões de guaranis (cerca de R$ 5,41 milhões). A participação foi vendida em abril de 2025.
Ele também informou ter um certificado de depósito de 2,4 bilhões de guaranis (aproximadamente R$ 2,11 milhões) no banco Ueno, além de um título da empresa Itti, especializada no desenvolvimento de softwares financeiros.
Outro ponto levantado na investigação envolve o irmão de Peña, que aparece como sócio da U Holding SARL. A empresa seria utilizada pelo grupo para controlar o Ueno Bank.
As suspeitas ganharam novos elementos na quinta-feira (5), quando parlamentares apresentaram uma denúncia complementar, conforme informações do jornal ABC Color. O documento acrescenta três fatos a uma representação anterior, protocolada em 22 de outubro de 2025, e aponta possíveis conflitos de interesse envolvendo Peña, pessoas próximas a ele e o grupo empresarial.
Entre os questionamentos está a atuação do Banco Central do Paraguai (BCP). Segundo os parlamentares, autoridades da instituição já tinham conhecimento dos problemas financeiros do Ueno Bank desde abril de 2026, mas não teriam adotado, no momento adequado, as medidas legais necessárias para impedir o agravamento da situação. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também é citado na denúncia.
Recursos públicos depositados no banco
Outro eixo da investigação envolve depósitos de dinheiro público no Ueno Bank. Entre as instituições que mantinham recursos na entidade financeira estão o Instituto de Previdência Social (IPS), a usina binacional de Itaipu, da qual Brasil e Paraguai detêm partes iguais, a entidade binacional Yacyretá, compartilhada com a Argentina, e o Ministério da Economia.
Os parlamentares solicitaram que sejam examinadas individualmente as decisões que autorizaram essas aplicações. A análise deverá esclarecer se houve prejuízo aos cofres públicos ou combinação entre os responsáveis pelas operações.
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