
Bebidas, iogurtes, sorvetes, pães e bolos enriquecidos com proteína já ocupam espaço fixo nas gôndolas dos supermercados. O fenômeno é alimentado por publicidade e redes sociais, que fazem da quantidade de proteína estampada no rótulo um apelo de venda cada vez mais forte.
Diante desse cenário, cabe perguntar se o consumo de proteína realmente precisa aumentar ou se o nutriente virou apenas uma estratégia comercial da indústria de alimentos. Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, defende que essa discussão seja pautada por dados científicos, e não pelo que circula nas redes sociais.
Quando a recomendação americana não é a sua

O Guia Alimentar para Americanos de 2025-2030 elevou as recomendações de proteína, sugerindo uma ingestão diária de 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso corporal. O documento ganhou repercussão internacional e virou âncora para a discussão sobre quanto de proteína o corpo precisa.
Há um problema: essas diretrizes foram elaboradas para a população dos Estados Unidos, não para brasileiros. Aplicar automaticamente essas recomendações à população brasileira ignora as características de cada país. Segundo Gualano, o risco é transformar orientações pensadas para grupos específicos em regras generalizadas para toda a sociedade.
Deficiência de proteína não é problema comum

Para o pesquisador, quem mantém acesso regular a uma dieta variada dificilmente enfrenta falta de proteína, o que afasta a ideia de que esse seja um problema disseminado na população. O nutriente está presente em fontes diversas que já fazem parte dos hábitos alimentares brasileiros. A tradicional dupla arroz com feijão oferece proteínas vegetais, enquanto ovos, leite, peixe, frango e carne fornecem proteínas de origem animal.
Ampliar essa oferta significa incluir soja, lentilha, ervilha, grão-de-bico e oleaginosas, alimentos que naturalmente fornecem o nutriente sem depender de suplementos ou produtos industrializados. Uma alimentação variada basta para a maioria das pessoas, e segundo Gualano, outros alimentos e combinações alimentares também fornecem os aminoácidos necessários. O whey protein, embora tenha alto valor biológico, não é a única alternativa.
Necessidade individual, não receita única
A necessidade de proteína depende da idade, das condições de saúde e do nível de atividade física. Entre os grupos que podem demandar atenção especial à ingestão de proteína estão quem pratica exercícios de força, idosos que já perderam massa muscular e pacientes com certas condições clínicas.
Um atleta de musculação em treinamento intenso tem demandas diferentes das de uma pessoa sedentária, e um idoso com perda muscular precisa de atenção especial em relação a um adulto jovem.
Por isso, a expansão de alimentos enriquecidos com proteína não significa que todas as pessoas precisem aumentar o consumo. Ao Agroemcampo, Gualano alertou para o risco de transformar orientações destinadas a determinados grupos em recomendações generalizadas, já que as necessidades variam conforme as características e as condições de cada pessoa.
Cada pessoa merece orientação alinhada com sua condição real, não com o que está na moda nas prateleiras.