7 de November de 2026
d'Os Leopardos
Foto: (Facebook/Prof. Raymundo Lopes)

São vários os relatos sobre o Feira Tênis Clube, um dos símbolos da juventude desta cidade, nos anos 60, 70 e 80. Não me recordo, porém, de nenhum outro testemunho que tenha sido tão específico e rico em detalhes como o que foi feito hoje no programa Acorda Cidade (Rádio Sociedade News) por Arlindão (Arlindo Aloísio Filho), o eterno baterista da lendária banda feirense Os Leopardos. Não foi exatamente uma entrevista.

Em aproximadamente 10 minutos, sem ser questionado pelo disciplinado apresentador Dilton Coutinho, ele resumiu um período crucial para o FTC: o momento em que o clube migrou da música orquestrada para os shows com os grandes nomes nacionais daquela época de ouro da música brasileira.

Com uma memória extraordinária, Arlindão contou ao público ouvinte como a tradicional agremiação social mudou o estilo musical de suas festas de fim de semana, desde os bailes com atrações locais até os grandes  eventos com a presença de nomes famosos do Rio de Janeiro e São Paulo, que se destacavam no movimento Jovem Guarda. 

De início, acontecia uma boa entrevista com “Valter do bloco Lá Vem Elas”. O histórico bloco de homens travestidos de garotas tem 42 anos de circuito. Na Micareta 2026, de 19 a 22 deste mês, será puxado pela excelente banda de pagode baiano Psirico. Valter e Dilton divagavam sobre o antigot “Carnaval de abril”, pela primeira vez realizado em novembro, com pinceladas sobre o FTC, que realizou tantos bailes micaretescos.

Coutinho puxou o assunto para as “bandas-baile” e lembrou do Super Som Lordão, de Itabuna, um dos sucessos da época e que muitas vezes se apresentou no Aristocrático, com seu eclético  repertório. “Tocava de tudo”, relembrou Dilton.

Eis que, ao telefone, surge Arlindão, para uma breve mas valiosíssima participação no bate-papo. Ele queria falar de como Os Leopardos influenciaram a rafical mudança na musicalidade do FTC, no finalzinho da década de 60.

Era um tempo, ele diz, em que o Feira Tênis Clube promovia seus “embalos de sábado à noite” com música de orquestra, comandada por maestro Miro. Ainda não havia chegado aos clubes sociais feirenses o “ieieiê” dos Beatles, o rock dos Rolling Stones, nem o ritmo brasileiro da Jovem Guarda.

Naquela época, recorda o baterista, quem queria curtir aquelas novas tendências musicais no país e no mundo precisava frequentar os chamados bailes colegiais. No FTC, havia uma certa resistência a uma alteração na postura de sua sonoridade. Só se ouvia musica orquestrada, principalmente executadas sob a batuta de maestro Miro, personagem que marcou época em Feira.

Neste momento, entra em cena o então presidente do Tênis, advogado Adessil Guimarães. Ele percebe o fenômeno acontecendo, o movimento das festas nas escolas (Colégio Estadual, Assis Chateaubriand, Gastão Guimarães, Ginásio Municipal, entre outros), tocando os hits da música internacional e da Jovem Guarda. E decide contratar Os Leopardos, que tanto sucesso fazia naqueles bailes, para um período experimental. Uma vez ao mês, a banda se apresentaria no clube.

O resultado foi imediato. O público lotou a boate, nas apresentações de Os Leopardos no Tênis. O contrato foi ampliado para dois shows por mês e, em pouco tempo, a banda era quem dominava o espaço completamente, ao ponto de, em algumas ocasiões, a orquestra do maestro chegar a receber cachê sem precisar tocar.

A era de os Leopardos no Feira Tênis Clube foi algo que não pode ficar de fora do anais da história das agremiações sociais da cidade. O enorme sucesso de plateia de suas apresentações provocou a construção de um novo palco, de maior porte, na boate do FTC. Mas foi muito além disso.

Ao notar o grande êxito de levar o som de Os Leopardos para seus associados, o jovem presidente Adessil começou a contratar as principais atrações da efervescente Jovem Guarda e de outros ritmos que explodiam no movimento musical no Brasil. O clube recebeu de Roberto Carlos, com seu rock, a Jair Rodrigues e Clara Nunes, astros do samba. 

Conta Arlindão que era bastante elevado o custo de trazer o artista e todos os seus músicos, para o Nordeste, com passagens aéreas, hospedagem e alimentação. Foi aí que surgiu uma nova oportunidade para Os Leopardos. De início, era uma exigência do clube, ao contratar os artistas, por contenção de despesas: o cantor ou cantora viria sem a banda, no máximo com alguns integrantes de sua equipe.  Os Leopardos complementavam.

Adiante, os ídolos da música nacional não mais conflitavam por não poder se apresentar com seus músicos. Mas exigiam do FTC que os instrumentais dos shows fossem feitos pela banda feirense, nenhuma outra.

Os Leopardos, portanto, se tornam relevantes nacionalmente. Tocaram para Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Ronnie Von,  Vanusa, Jair Rodrigues, Clara Nunes e muitos outros famosos. A única exceção foi o rei Roberto Carlos.

Havia um segredo para esta completa simbiose entre Os Leopardos e os emergentes da Jovem Guarda.

Segundo Arlindão, a banda já tocava a maioria dos hits desses artistas, em seus bailes nas escolas e no próprio FTC. “Além do mais, éramos bons de partitura. As canções que não dominávamos, em um, dois ensaios, eram resolvidas. Às vezes, quando necessário, pegávamos notas na hora”, relembra. 

Um dos principais nomes da história de Os Leopardos, Arlindão, hoje empresário do comércio de instrumentos musicais, registrou durante seu pronunciamento no Acorda Cidade dois momentos especiais em que a banda fora exigida por renomados artistas para acompanhá-los em apresentações. 

A cantora Vanusa, intérprete de clássicos como “Manhãs de Setembro”, quando soube que Os Leopardos não iriam acompanhá-la, se dirigiu à diretoria do FTC e disse que só faria o show com eles no palco. Com Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, o incidente ocorreu pouco antes de iniciar a apresentação. Nos camarins, ele pediu, gentilmente, “para ser acompanhado por nossos músicos”. 

O empresário que contratava as atrações nacionais do Feira Tênis Clube nos anos 60 e 70, Edmundo Viana, está vivo para testemunhar toda essa a história, observa o baterista. Com o sucesso de Os Leopardos, o contrato com o FTC se tornou permanente e a banda apenas tinha direito a um fim de semana no mês, para apresentaçoes fora. 

A parceria com o Feira Tênis Clube foi duradoura, mas, como tudo na vida, chegou ao fim. Um belo dia, Adessil e sua diretoria exigiram de Os Leopardos que  cancelassem sua presença em um baile de formatura em Amélia Rodrigues, para acompanhar uma atração no Tênis. Arlindão disse que era dia de folga deles no clube e que já haviam feito compromisso. Optaram por cumprir o  que assinatam com os promotores da festa em Amélia. A direção do FTC, então, suspendeu o contrato deles. 

Foi  mal que veio para o bem, disse o baterista. Afinal, com as restrições contratuais com o Feira Tênis Clube, era praticamente impossível para os Leopardos se apresentarem fora da Bahia. A medida, que de início abalou o grupo, acabou propiciando a que pudesse, finalmente, fazer incursão pelo Nordeste, onde sua fama corria há muito tempo e havia grande curiosidade em ver de perto aquela banda tão badalada pelos grandes ídolos da Jovem Guarda. 

Em uma pesquisa no Google é possível saber que o “Conjunto Os Leopardos”, como também era chamado, tornou-se “um dos maiores fenômenos musicais das décadas de 1960, 1970 e início de 1980 em Feira de Santana”. Foi considerado por muitos como a “versão baiana dos Beatles” devido ao imenso sucesso nos bailes de clubes sociais.

A banda teve diferentes formações ao longo de seus 17 anos de história. Entre os principais nomes de todo o seu sucesso, os integrantes de sua formação inicial, em 1967: Mirinho (guitarra), Carlinhos Palitó (baixo/guitarra), Grande/Ivo: (bateria) e José Carlos (vocalista).

Considerada a formação de ouro, fase de maior projeção da banda, comandando os grandes bailes no Feira Tênis Clube, Euterpe Feirense e  Clube Ali Babá: Dito Leopardo, crooner e vocalista principal (o rosto mais icônico do grupo); Zé Carlos (vocalista), Zé Trindade (teclados/ órgão), Caguto (guitarra) e Arlindão (bateria).

Outros músicos passaram pela banda, até o encerramento das atividades, em 1984, dentre os quais Rômulo Bezerra (crooner), Luiz Mossoró (guitarrista), Milton e Abimael, músicos de apoio em apresentações clássicas e até Zé Paulo (cantor), irmão do famoso “pai” do Axé, Luiz Caldas.

Fonte: Valdomiro Silva da Tribuna Feirense

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